A expectativa do tempo do fim

Autor da Lição da Escola Sabatina sobre o livro de Atos explica como uma visão escatológica equivocada atrapalhou o começo da igreja
André Oliveira
Foto: Arquivo pessoal

Em 166 anos de produção da Lição da Escola Sabatina, é a primeira vez que um teólogo brasileiro escreve o guia de estudo que é utilizado pela igreja ao redor do mundo. Neste trimestre, com a ajuda do pastor Wilson Paroschi, os adventistas vão se debruçar sobre o livro de Atos. PhD em Novo Testamento pela Universidade Andrews (EUA), por mais de 30 anos foi professor da Faculdade de Teologia do Unasp. Porém, desde o início deste ano, ele tem lecionado no seminário teológico da Southern Adventist University, no Tennessee. Em visita a Roma para participar da 4ª Conferência Bíblica Internacional, em meados de junho, Paroschi concedeu esta entrevista a respeito da ­expectativa dos primeiros cristãos em relação à volta de Jesus.

Havia uma expectativa escatológica entre os primeiros cristãos?

Os apóstolos testemunharam Jesus ascender ao Céu e os dois anjos assegurando-lhes de que Ele voltaria. Em Atos, há várias indicações de que eles acreditavam que Jesus voltaria em breve, talvez numa questão de dias. Isso trouxe uma série de dificuldades para a igreja, mas Deus interveio para fazer com que os cristãos saíssem de Jerusalém e iniciassem a missão de pregar a todo o mundo (At 1:8).

De que maneira essa visão escatológica impactou a vida da igreja?

De várias formas. Logo após o Pentecostes, a igreja de Jerusalém perdeu muito de sua motivação missionária, achando que sua missão mundial já estivesse ­concluída, ou quase terminada. Por essa causa, eles venderam e partilharam seus recursos, o que acabou empobrecendo a igreja e comprometendo o investimento na evangelização de outras regiões. Deus teve que levantar uma perseguição para que os cristãos saíssem de Jerusalém (At 8) e usassem as próprias igrejas gentílicas (como Antioquia da Síria) para patrocinar o início das missões de Paulo.

O estudo de Atos pode nos ajudar na preparação para o clímax da história humana?

Jesus deixou dois legados escatológicos para a igreja: a promessa de que Ele voltará logo e a missão de levar o evangelho a todo o mundo. Esses dois legados podem parecer contraditórios, visto que o cumprimento da missão requer tempo. Porém, é no equilíbrio desses dois conceitos que reside a vitalidade da igreja. A ênfase unilateral no primeiro levaria ao fanatismo, ao passo que o abandono da fé na breve volta de Jesus nos faria perder toda e qualquer motivação para a missão. Precisamos de ambos: estar prontos como se Jesus fosse voltar hoje, mas trabalhar como se Ele ainda fosse demorar cem anos.

Como uma correta expectativa em relação ao fim pode ajudar a igreja?

Embora a data dos eventos finais dependa unicamente do plano soberano de Deus (Mc 13:32; cf. At 3:19-21; 17:30-31), se acharmos que temos tempo de sobra até a volta de Jesus, haveremos de negligenciar o preparo necessário para o encontro com o Senhor e perder a motivação para a missão. Deus, porém, não precisa de nós para a pregação do evangelho. Ele tem mil maneiras de fazê-lo sem a nossa colaboração (Lc 19:39-40). Mas envolver-se na missão é desfrutar do alto privilégio de ajudar a consolidar a vitória de Cristo no Calvário, povoando Seu reino e contribuindo para que a obra destrutiva de Satanás seja menor. Além disso, poucas coisas são tão eficientes para nos manter espiritualmente fervorosos como o envolvimento na missão.

(Entrevista publicada originalmente na edição de julho de 2018 da Revista Adventista)

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