Violência espelhada

O cérebro humano talvez não separe muito bem a realidade da ficção
Susan Allen
Em vez de expor nossos filhos à violência de filmes e jogos, devemos levá-los a experimentar a empatia no serviço ao próximo. Foto: Rohit Choudhari

Devido à sequência de tragédias com armas de fogo em escolas dos Estados Unidos, li recentemente nas redes sociais muitas postagens debatendo sobre o controle de armas no país. O ponto é que, na minha opinião, não estamos enxergando o verdadeiro problema.

Como chegamos a essa situação em que esses fatos não mais são eventos isolados? Não creio que o problema esteja nas armas nem em quantas balas elas possam carregar. O problema está mais relacionado com a banalização do assassinato, do tiroteio, da tortura e da violência em nossa sociedade. Talvez nosso cérebro esteja sendo treinado para a violência. Como foi que perdemos a sensibilidade em relação ao valor da vida?

Os que vivem nas chamadas sociedades modernas e civilizadas podem ser tentados a olhar para os jogos realizados no ­Coliseu romano como diversões bárbaras e sanguinárias. No entanto, tenho minhas dúvidas quanto à nossa sociedade ser muito diferente, considerando que os filmes bárbaros e sanguinários exibidos hoje são classificados como entretenimento. O mesmo pode ser dito dos videogames, cujos jogos repletos de violência fisgam as crianças por horas a fio. Por meio deles, os pequenos participam ativamente do tiroteio e da matança dos oponentes da tela.

Muitos pensam que o cérebro humano possa separar a realidade da ficção. Porém, pesquisas científicas têm provado o contrário. No livro The Empathic Brain (O Cérebro Empático), de 2011, o neurocientista belga Christian Keysers fala sobre seus estudos a respeito dos neurônios “espelho”.

Apesar de a pesquisa ser muito extensa para ser explicada aqui, em resumo, Keysers diz que essas ­células do cérebro interpretam o que alguém estiver assistindo como: “suas ações se tornam minhas ações”. Em outras palavras, nosso cérebro interpreta o que é visto na televisão e videogames como se nós estivéssemos realizando a ação. Como escreveu Ellen White, pioneira adventista, “pela contemplação somos transformados” (O Lar Adventista, p. 330).

Portanto, qual é a resposta? Tomar as armas de todos talvez não resolva o problema. Sugiro que, em vez de nos entreter com games violentos e assistir a filmes dessa natureza, devemos ocupar nosso pensamento com coisas boas, amáveis, nobres e verdadeiras (Fp 4:8). Além disso, deixemos que nossas crianças experimentem as bênçãos de servir ao próximo. Leve seus filhos para ajudar a limpar a casa de um idoso ou para ser voluntários num albergue para desabrigados.

Já é tempo de a humanidade dar as mãos para propagar o bem na vida dos outros. Ao fazer isso, criaremos um mundo melhor para nós e nossos filhos.

SUSAN ALLEN é coordenadora do doutorado em Enfermagem na Universidade Andrews (EUA)

(Publicado na edição de julho de 2018 da Revista Adventista/Adventist World]

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