Mutilação do corpo e da alma

Em cinco anos de atividade, centro especializado do Hospital Adventista de Berlim já atendeu 350 mulheres vítima de mutilação genital
Louise Schroeder
Em parceria com uma fundação e o governo da Alemanha, hospital adventista oferece assistência psicossocial e cirurgia restaurativa da genitália. Foto: Cornelia Strunz

Desde que foi inaugurado em 2013, o centro médico Flor do Deserto, localizado no Hospital Adventista Waldfriede, em Berlim, Alemanha, já atendeu 350 mulheres vítimas de mutilação genital. O nome do centro especializado em restaurar a qualidade de vida dessas mulheres que tiveram corpo e alma violentados é uma referência à autobiografia (1998) e ao filme (2009) que conta a história de superação da ex-modelo somali Waris Dirie.

Dirie falou para os 300 médicos e profissionais de saúde que participaram no dia 21 de junho, no hospital adventista, de um simpósio que discutiu inovações em coloprotologia. “Mais centros como esse precisam ser estabelecidos ao redor do mundo”, apelou a ativista, mutilada aos cinco anos de idade. Desde 2002 ela lidera a fundação Flor do Deserto, que trabalha com a conscientização sobre esse procedimento danoso e cruel, ao qual foram submetidas 250 milhões de mulheres, segundo a ONU.

O centro médico alocado no hospital adventista de Berlim foi o primeiro de três unidades especializadas em oferecer atendimento integral às vítimas. Em parceria com a fundação de Waris Dirie e o governo alemão, ali as mulheres recebem ajuda médica e cuidados psicossociais. O centro é dirigido pelo médico Roland Scherer. Ele e sua equipe procuram minimizar as consequências da mutilação, como dor crônica, cicatrizes, fístulas internas, lesões, incontinência urinária e fecal.

No centro médico Flor do Deserto são também realizadas cirurgias plásticas de reconstrução do clitóris e da genitália externa. “Não podemos reverter completamente a mutilação, mas podemos restaurar a qualidade de vida das vítimas”, ressalta Scherer. Essa cirurgia também diminui os riscos que mulheres mutiladas correm numa eventual gravidez e parto. O procedimento tem cobertura dos seguros de saúde, do governo da Alemanha e do próprio hospital. Esse suporte financeiro viabiliza também o atendimento a vítimas de outros países.

Os números mostram que a mutilação genital feminina não é um problema social somente dos países que, por razões culturais e religiosas, enxergam a genitália das mulheres como algo sujo. A questão se estende para as comunidades de imigrantes desses países que vivem na Europa e América do Norte. Segundo a organização de direitos humanos Terre Des Femmes, com sede em Berlim, cerca de 500 mil mulheres foram submetidas à mutilação genital na União Europeia.

Cornelia Strunz, médica coordenadora do centro, relata que a maioria das vítimas chega traumatizada à unidade hospitalar. Por isso, elas são encaminhadas para um acompanhamento psicossocial antes, durante e depois do tratamento. Para favorecer o acolhimento e a comunicação, duas interlocutoras africanas também trabalham na equipe: Evelyn Brenda, do Quênia, e Farhia Mohamed, da Somália. Além de servirem de tradutoras para a comunicação da equipe com as pacientes, ambas estão familiarizadas com culturas que praticam a mutilação de mulheres.

LOUISE SCHROEDER trabalha para a Divisão Intereuropeia da Igreja Adventista

(Publicada originalmente na edição de agosto de 2018 da Revista Adventista)

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