Louvor na igreja – parte 3: Quem é o protagonista?

Descubra cinco maneiras de levar a congregação a entender seu papel na adoração    
Joêzer Mendonça
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Cada vez mais, as igrejas têm utilizado equipes de louvor numerosas e bem ensaiadas, músicos tocando ao vivo e equipamentos mais sofisticados. A busca por maior qualidade na liturgia é muito bem-vinda. Porém, tendo em vista esse cenário, é preciso que todos os envolvidos reflitam sobre sua atuação musical e espiritual a fim de evitar que seja retirado o protagonismo do louvor das mãos da igreja. A equipe de música não deve ser a protagonista, pois esse papel cabe à congregação.

Vale lembrar a todos, especialmente ao líder de louvor ou regente congregacional, que a boa liderança musical não tem que ver com frases emocionadas, melhores cantores, alta tecnologia, DVD de sucesso, nem com você. Liderar ou ministrar o louvor congregacional tem que ver com uma única pergunta: “Como posso servir musical e espiritualmente à igreja?

Reforço dois termos que usei: serviço, e não prestígio pessoal; e “à igreja”, e não a um ou outro grupo específico. Os mais idosos, os mais jovens, o coral ou a equipe de louvor são apenas partes de um corpo cuja cabeça não é você. É claro que há situações em que o líder de música precisa apoiar programas com foco específico numa faixa etária e grupo, ou mesmo programas que integrem diversos segmentos da igreja, como as celebrações da Páscoa e Natal.

No entanto, o líder de música deve estar atento ao momento em que toda a congregação é convidada semanalmente a participar da música: o momento do louvor congregacional. Inclusive, deve estar atento para não menosprezar nem superestimar essa seção do culto. Como se subestima o valor do louvor congregacional? Quando não há preparação adequada, quando se usa o louvor para preencher as lacunas da falta de organização, quando não se permite à igreja ouvir a própria voz, quando não se dá atenção a uma criteriosa seleção de repertório. Por outro lado, como se superestima o louvor congregacional? Quando é muito longo, quando é o centro das atenções, quando se acredita que determinado estilo musical vai reavivar a igreja, quando há mais foco nos resultados musicais do que nos frutos espirituais.

Se ninguém gosta quando o momento do ofertório demora em longos discursos ou orações, então porque achamos que alguém gosta de um serviço de louvor longo e cheio de falas? Não seria por que estamos inclinados a transformar o louvor musical no centro das atenções do culto?

Note que, às vezes, ao iniciar o louvor, alguns dizem: “Agora chegou a hora de todos participarem”. Mas o ofertório também é um momento para todos participarmos, assim como as demais seções do culto. Por outro lado, se vamos todos participar do momento do louvor, então é hora de deixar a igreja cantar: “Nem sempre o canto deve ser feito apenas por alguns. Permita-se o quanto possível que toda a congregação participe” (Testemunhos para a Igreja, v. 9, p.143, 144).

Vou sugerir cinco ações para que isso ocorra:

  1. Escolha um repertório que a maioria das pessoas conheça. Nem sempre é hora de ensinar um hino pouco cantado. Pode parecer repetitivo para os cantores e músicos, mas para a congregação é a oportunidade de externar sua voz em uma melodia acessível e preferida. Saiba usar essa predileção em favor de uma adoração coletiva.
  2. Estude a acessibilidade da melodia que deseja usar. Hinos desconhecidos e/ou com letras difíceis causam estranhamento e não estimulam as pessoas a cantar. Se for usar canções de solistas ou quartetos, confira antes a extensão das notas da melodia (se tem notas muito agudas ou muito graves), pois, às vezes, essas canções têm melodia complicada para uma congregação inteira cantar, o que acaba inibindo a voz da igreja.
  3. Permita que a congregação ouça suas vozes. Subestimamos tanto as vozes da congregação que até deixamos alto o volume dos microfones, abafando o louvor coletivo. Talvez estamos tendo maior preocupação com o som que vai na transmissão do culto pela internet e menor preocupação com o som que a igreja vai fazer no culto presencial. Não deixe que a igreja apenas ouça a própria voz no último refrão, momento em que o líder de louvor diz: “Agora vamos ouvir só a voz da igreja cantando!” Experimentemos ouvir mais nossa voz misturada à dos nossos irmãos e irmãs cantando.
  4. Não confie no poder motivador dos estilos musicais tanto quanto no poder inspirador da comunhão pessoal. Em Adoração ou Show? (2006, p.127), Harold Best pergunta: “O estilo [musical] conduz as pessoas à verdadeira experiência da presença de Deus, ou é a experiência com Deus impulsionada pela fé, pela esperança e pelo amor que confere poder ao estilo que escolhemos?”
  5. Incentive a igreja a cantar após os sermões. Depois da Palavra falada por um, a Palavra cantada por todos. Na Bíblia, a adoração com música se dá imediatamente após os atos de Deus por Seu povo. Nesse sentido, a lembrança dos atos redentores de Deus no passado e de Sua bendita promessa para o futuro têm como resposta o louvor musical da congregação. Não estou dizendo que não haja mais mensagens musicais feitas por solistas ou grupos vocais, mas sim que haja mais momentos em que a igreja seja a protagonista do louvor.

JOÊZER MENDONÇA, doutor em Musicologia (Unesp) com ênfase na relação entre teologia e música na história do adventismo, é professor na PUC-PR e autor dos livros Música e Religião na Era do Pop e O Som da Reforma: A Música no Tempo dos Primeiros Protestantes

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