Da resistência ao testemunho

Após décadas resistindo a um contato com os adventistas, Ana foi milagrosamente convencida e, aos 96 anos, contabiliza ter levado mais de 100 pessoas ao batismo
Ana Barbosa: seu “caminho para Damasco” foi mais longo que o de Paulo, mas sua dedicação missionária pós-conversão lembra um pouco a do apóstolo. Foto: Arquivo pessoal

A vida de Paulo é um roteiro hollywoodiano perfeito, porque aventuras, reviravoltas, sofrimento, desafios, eventos sobrenaturais são componentes que dão um tom fictício completo à biografia de um dos maiores nomes do cristianismo. Isso mostra como as situações atípicas e surreais são eficientes em ganhar nossa atenção e fascínio.

O fato é que essa lógica de valorização do atípico, incomum, modifica nossa maneira de observar o cotidiano. O dia a dia acaba passando despercebido, por ser mecânico e enfadonho. Assim, acabamos ignorando a bênção divina que existe na manutenção da rotina. A vida é o cotidiano e é nele que Deus Se manifesta como Diretor do “longa-metragem” da nossa existência.

Nesse processo, assim como fez com Paulo na estrada para Damasco, às vezes Ele adiciona o improvável para nos mostrar que o clímax da nossa trajetória ainda está por vir. Basta entendermos as evidências do Seu chamado. Experiência semelhante teve Ana Barbosa. Relutante, ela teve que contemplar o milagre para finalmente permitir que o Senhor fizesse dela uma evangelista.

Nascida em 1922, no vilarejo português de Arcozelo, a 15 km da cidade do Porto, Ana por muito tempo demonstrou forte resistência à mensagem adventista. A indisposição era tamanha que certo dia ela chegou a brigar com uma amiga por ela ter tocado no tema. Contudo, as circunstâncias da vida mudam, e nós podemos mudar com elas também.

EMIGRAÇÃO E O MILAGRE

Em 1959, Ana emigrou para o Brasil com a família (o marido, Augusto, e os filhos Adelina, Domingos e João Luiz na barriga). Pouco tempo depois de chegar aqui, ela teve uma surpresa: seu irmão, Manuel Lopes, foi batizado na Igreja Adventista. Novamente ela ouviu falar desse grupo religioso que lhe trazia maus sentimentos. Como demonstração de seu desconforto e insatisfação, Ana não compareceu à cerimônia. Um claro “boicote” à decisão do irmão.

No entanto, o tempo foi passando e, como um grande roteirista, Deus interveio, introduzindo o fator surpresa em sua mecânica rotina, na tentativa de captar a atenção dessa filha teimosa. Um grande baque desestabilizou a família: o pai recebeu um diagnóstico de câncer no esôfago em estágio terminal. O pai de Ana se entregou nas mãos de Deus e convidou uma amiga adventista para que fosse orar por ele. Aquela amiga clamou pela cura do homem, e as palavras de fé proferidas por ela ecoam até hoje na memória dos familiares.

Passaram-se seis meses, um ano, dois, cinco anos e o pai permaneceu vivo, com saúde. Após 15 anos ele morreu de velhice, por causas naturais. Evidentemente o ocorrido intrigou muitos de seus familiares que, aos poucos, foram se interessando pela mensagem e pelo povo adventista. Ana ainda relutava, mas a atuação de Deus por meio daquele milagre havia sensibilizado ela também. Estudou mais sobre a doutrina bíblica do sábado e em 1964 ela decidiu ser batizada. Seu “caminho para Damasco” foi mais longo que o de Paulo, mas sua dedicação missionária pós-conversão lembra um pouco a do apóstolo.

EM TODO TEMPO E EM QUALQUER LUGAR

A rotina mecânica obteve novo sentido por causa de seu empenho missionário. São inúmeras as histórias de pessoas que foram positivamente influenciadas por Ana. Ela passou a dedicar as tardes de sábado e alguns dias da semana para ministrar cursos bíblicos e distribuir folhetos. Entre tantos relatos, Ana se recorda muito bem de um episódio. Certa mulher enfrentava a resistência do marido para conseguir estudar a Bíblia com Ana. Ele, inclusive, ameaçava matar a esposa. Ana orou muito por aquela família. Passaram-se os dias e ela corajosamente retornou àquela casa. Para sua surpresa, o homem estava no portão aguardando Ana e seu marido com um tronco de madeira em mãos. Ele apenas os avisou que fossem embora se não quisessem apanhar.

Prudentemente, Ana se afastou e começou a orar. De repente, o homem passou a esboçar mais serenidade e a se distanciar. Ele largou o pedaço de madeira e liberou a entrada da casa. Não era um simples “efeito especial”. Da mesma forma que Deus usou Seu poder para livrar Paulo e Silas da prisão, Ana crê que o Senhor enviou um anjo para preservá-los. Mais do que isso, para ajudar aquela família a ser transformada. Todos foram batizados!

Por esse e outros motivos, Ana procurou não perder nenhuma oportunidade de falar sobre o amor de Deus, fosse em clínicas médicas, com os familiares, no supermercado, no cabeleireiro. Por onde passava, ela praticava, de fato, o “ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16:15), verso bíblico que norteia seu ministério. Ela entendeu que não precisava esperar por circunstâncias surpreendentes para testemunhar. Essa era a percepção de Paulo também, de levar a mensagem em todo tempo e em qualquer lugar.

FRUTOS DO TESTEMUNHO

Ana ajudou na construção da Igreja de Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo. Por sua influência, inúmeras pessoas passaram a adorar nesse local. Foto: Arquivo pessoal

O empenho missionário de Ana a levou a colaborar com sua comunidade religiosa. A tradicional Igreja de Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo, contou, literalmente, com sua mão de obra. Voluntariamente ela ajudou na construção do local de reuniões e conduziu inúmeras pessoas para que ali fossem adorar.

Anos e anos de dedicação, e o trabalho missionário ainda permanece vivo em sua rotina, mesmo aos 96 anos de idade e com limitações de audição e locomoção. Em 54 anos de adventismo, Ana levou mais de 100 pessoas ao batismo. No fim de 2017, ela colheu seu fruto mais recente: sua funcionária, que colabora nas atividades domésticas, também decidiu seguir Jesus.

“Conheci a Igreja Adventista há 40 anos por meio da irmã Ana, minha mãe espiritual. Ela foi à nossa casa ajudar na limpeza, após uma grande enchente na região. Mulher linda, temente a Deus e supercarinhosa”, resume Neide Prado, na área de comentários do Portal Adventista, embaixo da postagem de uma notícia sobre Ana Barbosa. “Agradeço a Deus por ter conhecido a Igreja Adventista por meio dela”, declarou também Lúcia Helena, na mesma página virtual.

Para Ana, cada relato desses vale tanto quanto um Oscar. São evidências de que sua coroa da justiça está guardada, pois, assim como Paulo, ela tem combatido o bom combate e guardado a fé.

THIAGO BASÍLIO é jornalista, mestre em Divulgação Científica e Cultural pela Unicamp e professor do curso de Jornalismo do Unasp

*As informações deste texto foram extraídas de um relato escrito por Ana Lúcia Ivo, neta de Ana Barbosa.

(Perfil publicado na edição de junho de 2018)

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