Disciplina positiva

Dez princípios de Ellen G. White que todos os pais e educadores deveriam conhecer e praticar
Ruth A. Edwards
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Quando se trata de educar os filhos, uma palavra que pode evocar emoções e controvérsias é a “disciplina”. Quer sejamos pais ou professores, agradecemos aqueles que têm a capacidade de administrar a disciplina com sabedoria e eficiência. A maioria das fortes opiniões pessoais que muitos de nós têm sobre o assunto da disciplina fundamenta-se em nossas próprias experiências em casa, na escola, com os vizinhos e com os outros. Algumas dessas experiências provavelmente tenham sido louváveis. Outras podem ter sido abomináveis. A partir dessas experiências, muitas vezes surgem convicções fortes e admiráveis, extremamente valiosas na interação com as crianças. No entanto, muitas vezes não as achamos totalmente adequadas para orientar uma criança de forma eficaz. Precisamos de mais ajuda.

No capítulo intitulado “Disciplina” do livro Educação, Ellen G. White discute a atmosfera em que a disciplina deve ser administrada e métodos eficazes de praticá-la. “O objetivo da disciplina é ensinar à criança o governo de si mesma. Devem ser ensinadas a ela a confiança e direção próprias. Portanto, logo que ela seja capaz de entendimento, deve alistar-se a sua razão ao lado da obediência. Que todo o trato com ela seja de tal maneira que mostre ser justa e razoável a obediência” (Educação, p. 287).

O objetivo da disciplina é treinar a criança para governar a si mesma, desenvolvendo o autocontrole e a autoconfiança. Queremos que nossos filhos ou alunos façam o que sabem ser certo e sábio quando não estamos lá para orientá-los. Para que isso aconteça, nós, pais e professores, devemos seguir algumas diretrizes. Ellen G. White sugere dez princípios que podem nos ajudar nessa nobre, mas difícil tarefa:

1. Incentive a confiança e fortaleça o senso de honra da criança. “Crianças e jovens são beneficiados se é depositada neles confiança. […] A suspeita desmoraliza, produzindo os mesmos males que se procura evitar. […] Leve os jovens a sentir que eles merecem confiança, e poucos haverá que não procurarão mostrar-se dignos dessa confiança” (p. 289 e 290).

2. Peça em vez de ordenar. “Aquele a quem assim nos dirigimos tem oportunidade de se mostrar leal aos princípios retos. Sua obediência é o resultado da escolha em vez de ser o da coação” (p. 290).

3. Estabeleça poucas regras, mas bem pensadas, e aplique-as. “Tudo que é impossível de ser mudado, a mente aprende a reconhecer e a isso adaptar-se; mas a possibilidade de condescendência suscita o desejo, a esperança e a incerteza, e os resultados são a irritabilidade, inquietação e insubordinação” (p. 290).

4. Não se comprometa com o mal. “A desobediência não deve ser tolerada nem no lar nem na escola. Não é o amor mas o sentimentalismo o que usa de rodeios com as más ações, procura pela lisonja ou suborno conseguir a submissão e finalmente aceita algum substituto da coisa exigida” (p. 290).

5. Não trate o pecado com leviandade. “Terrível é o poder do pecado sobre o malfeitor. O maior mal que se possa fazer a uma criança ou jovem é consentir que se fixe na escravidão dos maus hábitos” (p. 291).

6. Evite a censura contínua. “A contínua censura confunde mas não reforma. Para muitos e frequentemente os mais delicados, uma atmosfera de crítica destituída de simpatia é fatal aos seus esforços” (p. 291).

7. Saiba que a censura frequente resulta em desânimo. “Uma criança frequentemente censurada por alguma falta especial vem a considerar aquela falta como uma peculiaridade sua, ou alguma coisa contra a qual seria inútil esforçar-se. Assim se cria o desânimo e a falta de esperança, muitas vezes ocultos sob a aparência de indiferença ou arrogância” (p. 291).

8. Lembre-se da regra do Salvador de fazer aos outros o que você gostaria que fizessem a você (Lc 6:31). Essa “deve ser a regra de todos os que empreendem a educação das crianças e jovens. Estes são os membros mais novos da família do Senhor; herdeiros conosco da graça da vida. A regra de Cristo deve ser religiosamente observada em relação aos menos inteligentes, aos de menor idade, aos mais desatinados, e mesmo aos desencaminhados e rebeldes” (p. 292 e 293).

9. Não torne públicas as falhas e erros da criança. O professor ou pai deve “evitar quanto possível tornar públicas as faltas ou erros do discípulo” (p. 293).

10. Aprenda o autocontrole antes de tentar ensiná-lo aos outros. “Tratar apaixonadamente com uma criança ou jovem, somente despertará seu ressentimento. Quando um pai ou professor se torna impaciente e está em perigo de falar imprudentemente, fique em silêncio. Há um maravilhoso poder no silêncio” (p. 292).

“O objetivo da disciplina é treinar a criança para governar a si mesma, desenvolvendo autoconfiança e autocontrole”

Desenvolvendo o caráter

Nesses dez princípios, encontramos a estrutura para o desenvolvimento do autocontrole e a construção do caráter das crianças e jovens. Muitos métodos de disciplina, como ameaças e subornos, não desenvolvem o autocontrole. Então, qual abordagem devemos adotar? No mesmo livro, Ellen G. White afirma que o verdadeiro objetivo da repreensão é obtido quando: (1) a pessoa repreendida reconhece a falha; (2) se empenha em corrigir-se; (2) é levada a Jesus, a fonte de perdão e poder; (4) preserva o respeito próprio da pessoa e (5) inspira nela ânimo e esperança (p. 291 e 292).

Métodos eficazes e apropriados de disciplina

Como professora, muitas vezes lutei para encontrar formas eficazes e apropriadas de lidar com crianças que precisavam ser corrigidas. Eu tentei muitos dos métodos populares, mas não me satisfiz com nenhum deles. Até que, numa revista voltada para educadores, encontrei uma abordagem proposta pelo psiquiatra americano William Glasser que correspondia ao que estava escrito no livro Educação. Descobri que ela funcionava na sala de aula. Aqui está uma sinopse do que Glasser sugeriu: isole as crianças até que seus próprios sentimentos estejam sob controle. Em seguida, sente-se ao lado delas e, em uma voz amigável, faça três perguntas:

1. O que você fez? Não pergunte o que alguém fez ou quais foram as circunstâncias atenuantes. Fique com a pergunta “O que você fez?” até que ela assuma a responsabilidade por suas ações.

2. Ajudou você? As crianças estão incrivelmente dispostas a admitir que o mau comportamento não as ajuda.

3. O que você planeja fazer da próxima vez? Aceite o plano da criança sem tentar modificá-lo e incentive-a a pensar que seu plano funcionará.

Sempre adicionei orações ao método de Glasser. Ore com a criança, tanto pelo perdão quanto pelo poder para elaborar o plano proposto para lidar com situações semelhantes no futuro. A oração é apropriada, mas nunca force a oração de uma criança.

Quando esse método é usado, o reconhecimento da irregularidade e de que não funcionou é da criança, assim como o plano para melhorar também vem dela. Essa combinação geralmente resulta em sucesso.

Esperança e coragem vêm de nós adultos. Perdão e força vêm de Jesus.

COMO DEUS LIDA CONOSCO

Adultos cometem erros. Às vezes até planejamos um comportamento errado. Como Deus lida conosco?

Ele é bom; e Ele perdoa. Mas Ele tem que deixar as consequências se manifestarem para que não pequemos impunemente. Se eu comer demais, engordarei. Se fico acordada até tarde, durmo demais de manhã. Se eu desrespeito um membro da família, trago tensão para o círculo familiar.

O que quer que as pessoas semeiem, elas também colherão (Gl 6: 7). Consequências são diferentes de punição. Consequências acontecem; a punição é inventada. Pelo que entendi, Deus usa as consequências para nos ajudar a aprender, se quisermos; mas as consequências acontecem, quer aprendamos ou não. Elas são a colheita da nossa semeadura. Graciosamente, Deus com frequência nos permite ter um fracasso na colheita, para que possamos aprender e crescer. E durante esse tempo, em Sua bondade Ele protege nosso respeito próprio. Lembrar como Deus lida conosco nos dá um modelo ao lidar com nossos filhos.

RUTH A. EDWARDS, professora aposentada, vive no estado de Washington (texto publicado originalmente no site da Adventist Review)

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