Ministério da cura

No Dia do Médico, conheça o profissional que há três décadas tem inspirado outros a integrar medicina e missão
Dorival se especializou em infectologia e cursou mestrado na mesma área. Além disso, buscou formação teológica para ampliar seu trabalho como médico-missionário. Foto: Ellen Lopes

Na infância, Dorival Duarte sempre sonhou vestir-se de branco, mas não imaginava que um dia todos os integrantes da família usariam jaleco e estetoscópio.

Natural de Castelo, um pequeno município localizado a pouco mais de 150 quilômetros de Vitória (ES), o médico capixaba cresceu na liberdade do campo, na propriedade rural dos avós. Ali ele morava e adorava a Deus, pois na “fazendinha do vovô Joaquim” funcionava a única igreja adventista do município.

Hoje, Dorival passa a maior parte do tempo na Liberdade, bairro da capital paulista onde fica o Hospital Adventista de São Paulo (HASP). Desde 2007 na direção clínica da instituição, sua trajetória começou ali em 2001.

Cursar medicina foi um sonho quase impossível que se tornou real graças a Deus. Foi Ele quem colocou essa vocação no jovem Dorival, abriu portas de maneira inesperada e concedeu-lhe a possibilidade de pagar os estudos vendendo livros.

Influenciado por Daniel, o irmão mais velho que se tornaria médico cirurgião e colega de trabalho no HASP, o caçula da família de seis filhos não desejava apenas estudar medicina. Seu grande sonho era graduar-se numa escola adventista, já que os quatro irmãos mais velhos haviam estudado no Edessa (Educandário Espírito-Santense Adventista) e falavam das boas experiências que tiveram no internato. Porém, nos anos 1970, assim como hoje, não havia uma instituição de ensino superior da denominação que oferecesse esse curso no país.

Para alcançar o objetivo, Dorival precisaria cruzar fronteiras. Ele estava disposto a pagar o preço e fez um voto. Ao completar 21 anos, a mãe havia lhe dado uma Bíblia de presente. No ano seguinte, enquanto fazia o ano bíblico pela primeira vez, ele anotou a data na contracapa do livro sagrado: 09/07/1978. O registro foi acompanhado de uma oração. Se Deus lhe concedesse a oportunidade de estudar Medicina numa universidade adventista, aceitaria o primeiro chamado que surgisse para servir em instituições de saúde da igreja.

Algum tempo depois, Dorival soube que o decano da Escola de Medicina da Universidade de Loma Linda (EUA) estaria na Igreja do Botafogo, no Rio de Janeiro, numa apresentação do quarteto americano The King’s Heralds. Sem hesitar, ele foi ao local, conversou com o professor e soube que seriam necessários cerca de 22 mil dólares anuais para custear o curso. Para se ter uma ideia das cifras, hoje esse curso custa 220 mil reais anuais, algo em torno de 18 mil reais por mês, sem contar despesas com moradia, alimentação e livros.

O sonho teria que esperar. Mas nem tanto, pois Dorival recebeu do mesmo professor a informação que mudaria sua vida: ele poderia estudar no México a um custo bem menor. Por isso, em 1980, Dorival embarcou para a Universidade de Montemorelos, onde estudar Medicina hoje custa 13,5 mil dólares anuais, incluindo alimentação e moradia. Nas férias, o jovem capixaba também fazia o dever de casa. Vendia livros em Porto Rico, na Califórnia (EUA) e no Brasil para pagar os estudos.

Dorival Duarte trabalha no HASP há 17 anos, e desde 2007 é o diretor clínico da instituição.

Ao concluir a graduação, Dorival cumpriu a promessa feita nove anos antes. Em 1987, quando estava no segundo ano da residência médica, o Hospital Adventista Silvestre, no Rio de Janeiro, o chamou para ser médico de dedicação exclusiva. Ele aceitou imediatamente porque sabia a origem do convite feito pelo doutor Gideon da Costa Marques, então diretor da instituição. Toda a vida profissional de Dorival foi dedicada ao Hospital Silvestre e ao Hospital Adventista de São Paulo, onde há 11 anos ele exerce a função de diretor clínico.

Dorival se especializou em infectologia na Universidade Nacional Autônoma do México (Unam) e cursou mestrado na mesma área na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Além disso, buscou formação teológica para ampliar seu trabalho. “Estudei várias matérias do curso de estudos teológicos que o Unasp oferece, sem nenhuma pretensão pessoal, apenas para ampliar conhecimentos”, conta. No entanto, em reconhecimento pelas três décadas de serviços prestados à organização, a igreja decidiu ordená-lo ao ministério. “Sou profundamente grato por essa distinção”, afirma.

Desde o início de sua trajetória, esse casamento entre medicina e teologia fez dele um médico-missionário. As palavras de Ellen G. White resumem sua visão: “O ministério evangélico é necessário a fim de dar permanência e estabilidade à obra médico-missionária; e o ministério necessita da obra médico-missionária para demonstrar a operação prática do evangelho. Nenhuma das duas partes da obra é completa sem a outra” (Testemunhos Seletos, v. 2, p. 527).

O ministério de Dorival também não seria completo sem outro casamento, com sua esposa Sônia. Quando se conheceram, ambos cursavam Medicina na Universidade de Montemorelos. Casaram-se em 1988, no Rio de Janeiro, logo depois de terem concluído a residência médica: ela em pediatria e ele em clínica médica. Natural do Peru, Sônia se especializou em neonatologia e dedicou praticamente toda a vida profissional ao cuidado de recém-nascidos em UTIs. Nas palavras de Dorival, Sônia também exerce a profissão “com muita competência num envoltório de amor a seus pequenos pacientes e a seus pais”.

O amor que Dorival e Sônia nutrem um pelo outro e pela profissão também influenciou os filhos: Dorival Jr., de 28 anos, e Rafael, de 25. O pai menciona os filhos com orgulho. Dorival Jr. é cirurgião-geral e cursa especialização em urologia. Rafael, o caçula, irá concluir Medicina no fim do ano. Além de seguir a profissão dos pais, os filhos mantêm o mesmo espírito missionário deles. Quando cursou Medicina na PUC-SP, o filho mais velho ministrou estudos bíblicos a uma colega de classe, Tábata, que aceitou o batismo e, posteriormente, se casou com ele.

Dorival se sente um homem realizado, mas nunca deixou de sonhar. Nos últimos anos, trabalhou pela implantação de uma agremiação de médicos adventistas. Assim, em 2013, com o apoio da família e de outros profissionais, foi um dos fundadores da Associação dos Médicos Adventistas (AMA), entidade que realizou seu 4º congresso nacional no início de julho e que tem inspirado e motivado médicos adventistas a, assim como ele, aceitar o chamado para o ministério de restaurar vidas de maneira completa.

MÁRCIO BASSO GOMES é jornalista

(Perfil publicado na edição de julho de 2018)

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