Um defensor no Céu

O dia 22 de outubro de 1844 entrou para a teologia adventista como a data em que Cristo inaugurou seu ministério de julgamento no Céu. Mas o que diz a evidência bíblica sobre o trabalho sacerdotal dele no santuário celestial? Entenda esse tema ainda debatido por adventistas e mal compreendido pelos cristãos em geral
ADRIANI MILLI
Cristo não se cansa de agir em favor da nossa salvação. Cada um de nós precisa se apropriar dessa realidade. Foto: Pearl / Lightstock

Cristo não se cansa de agir em favor da nossa salvação. Essa é a ideia básica de seu sacerdócio no santuário celestial após sua ascensão. Infelizmente, muitos pensam que, na atividade divina para a salvação humana, em sua ascensão, Cristo tivesse sido substituído pelo Espírito Santo, que foi enviado à Terra. Segundo esse pensamento, Cristo já fez tudo o que deveria ter feito para nossa salvação ao morrer na cruz. Para usar a analogia de esportes coletivos, Cristo estaria agora aguardando no banco de reserva do Céu, torcendo para que o Espírito Santo faça sua parte e as pessoas respondam positivamente.

Contudo, embora a Bíblia indique que o Espírito é o substituto de Cristo na Terra (Jo 14–16), as Escrituras ensinam que Jesus continua trabalhando para nossa salvação após sua ascensão, e esse trabalho se define por seu sacerdócio celestial. Cristo não é um mero espectador celestial que já cumpriu seu papel salvífico.

O ensinamento bíblico sobre seu sacerdócio revela um trabalho ativo em três etapas: (1) inauguração, (2) mediação contínua e (3) julgamento escatológico. Cada uma dessas etapas corresponde claramente à obra sacerdotal tipificada no Antigo Testamento.

ETAPA 1: INAUGURAÇÃO

O livro de Hebreus interpreta a ascensão do Cristo ressuscitado ao Céu como sua entrada no santuário celestial na condição de sumo sacerdote (4:14; 6:19, 20; 9:12, 24). Essa entrada marca (1) a conclusão da oferta sacrifical de Cristo e (2) o início de sua mediação contínua. Veremos as implicações desses conceitos.

Ao pensarem sobre o conceito de sacrifício, muitos se concentram na vítima que morre sacrificalmente. Nesse caso, a imagem desse conceito é a de um animal sendo imolado ou a de Cristo sendo crucificado. Do ponto de vista bíblico, não há nada de errado com essa imagem, desde que ela não seja a única. Uma expressão que nos ajuda na conceitualização de sacrifício na Bíblia é a oferta sacrifical. Em geral, uma oferta é oferecida a alguém. Nesse caso, a ênfase não está na vítima que morre como sacrifício, mas na pessoa (Deus) para quem o sacrifício está sendo oferecido. Essa noção de oferta sacrifical nos ajuda a observar um dado interessante sobre sacrifícios e sacerdócio em Levítico.

Embora o trabalho do sacerdote israelita pudesse incluir o ato sacrifical de imolar um animal (cf. Lv 4:4; 16:11, 15), essa não era sua atividade distintiva na oferta de um sacrifício. De fato, os próprios israelitas imolavam os animais que eles levavam para ofertas individuais (cf. Lv 1:1-5, 10, 11; 3:1, 2, 6-8, 12, 13, 22-24, 27-29). A rigor, a atividade exclusiva do sacerdote era o rito que ocorria após a morte do animal. Nas ofertas primariamente definidas pelo uso do fogo (por exemplo, holocaustos e ofertas pacíficas), somente o sacerdote queimava o animal (cf. Lv 1:7-9, 12, 13, 17; 3:5, 11, 16), produzindo tipologicamente um movimento vertical em que a fumaça do sacrifício ascendia para o céu e chegava a Deus como “aroma agradável” (Lv 1:9, 13, 17; 3:5, 16). No caso das ofertas pelo pecado, que eram primariamente definidas pela manipulação de sangue, somente o sacerdote manipulava o sangue (cf. Lv 4:5-7, 16-18, 25, 30, 34), produzindo tipologicamente um movimento vertical em que parte do sangue era colocado nas pontas do altar de sacrifício (Lv 4:25, 30) ou um movimento horizontal no qual parte do sangue era levado para dentro do santuário e aspergido perante Deus, diante do véu entre o lugar santo e o santíssimo (Lv 4:5-7, 16-18).

Assim, a atividade distintiva do sacerdote israelita não era imolar o animal, mas realizar o processo de oferecimento do animal sacrificado para Deus, tanto em um movimento tipológico vertical quanto horizontal. Verticalmente, a oferta chegava a Deus no Céu. Horizontalmente, ela chegava a Deus no santuário. Como essa tipologia apontava para Cristo, Ele apresentou seu sacrifício diante do Pai, cumprindo assim o movimento vertical (ascensão para o Céu; Hb 4:14; 9:24) e o horizontal (entrada no santuário celestial; Hb 6:19-20; 9:12, 24). Em sua ascensão, Cristo concluiu o oferecimento de seu sacrifício. Hebreus 8:3 e 4 indica que Cristo ofereceu seu sacrifício no santuário celestial. Obviamente, seu sacrifício foi terrestre, na cruz (Hb 9:26). Mas o oferecimento desse sacrifício é concluído por sua entrada no santuário (veja Hb 9:25, onde o oferecimento sacerdotal é realizado ao “entrar”).

Quanto ao início da obra de contínua mediação, o início do trabalho sacerdotal de Cristo no Céu ocorreu no contexto de outros “inícios” na história da salvação. Entre eles, podemos destacar o início do uso do santuário celestial pelo sacerdócio salvífico de Cristo (Hb 8:1-5; 9:11, 12, 24) e o início da nova aliança, mediada por sua obra sacerdotal no santuário celestial (Hb 7:22; 8:6, 8, 10; 9:15; 10:16; 12:24). De fato, a inauguração da aliança, do santuário e do sacerdócio reflete tipologicamente a formalização da aliança de Deus com os israelitas que saíram do Egito (cf. Êx 19:1-8; 24:7, 8; 32:10; Hb 9:18-20).

Essa aliança iniciou um conjunto de eventos que incluíram a construção e inauguração/consagração do santuário (cf. Êx 25-27, 30-31, 35-40; Nm 7; Hb 9:21) e a escolha e consagração dos sacerdotes (cf. Êx 28-29; Lv 8-9). No entanto, o santuário, os sacerdotes e os sacrifícios eram apenas “sombras” que tipificavam a realidade do sacerdócio de Cristo. O santuário terrestre apontava para o santuário celestial (Hb 8:5; 9:11, 24), os sacerdotes pecadores e mortais apontavam para o sacerdote sem pecado e imortal (Hb 7:16, 24, 26) e os inúmeros sacrifícios de animais apontavam para o único sacrifício de Cristo (Hb 10:1, 4, 11, 12).

Portanto, a característica básica da nova aliança é a presença das realidades do santuário celestial, do sacerdote perfeito e do único sacrifício. O trabalho desse sacerdote no santuário celestial, com base em seu único sacrifício, traz a realidade do perdão de pecados e da interiorização da lei divina no coração dos crentes (Hb 8:8-12; 10:16, 17). Essa realidade era vista em forma de promessa na tipificação do santuário terrestre e dos múltiplos sacerdotes e sacrifícios que mediavam o relacionamento de aliança do povo de Israel com Deus antes da vinda de Cristo.

ETAPA 2: MEDIAÇÃO CONTÍNUA

Em virtude da inauguração do sacerdócio Cristo, iniciou-se um processo de mediação contínua no santuário celestial. Na tipologia do sacerdócio israelita, essa mediação ocorria no trabalho diário dos sacerdotes no primeiro compartimento do santuário terrestre (Hb 9:6; 7:27). Contudo, ao passo que esse trabalho era caracterizado pelo oferecimento de vários sacrifícios (Hb 7:27), especialmente o da manhã e o da tarde (cf. Nm 28:3-8), a mediação contínua de Cristo não é acompanhada de sacrifícios, mas se fundamenta em seu único sacrifício. Essa mediação compreende basicamente as duas características centrais da nova aliança (Hb 8:8-12; 10:16, 17): (1) o perdão de pecados e (2) a interiorização da lei divina no coração dos crentes. Em outras palavras, a obra de justificação e santificação.

Em relação ao perdão, embora Cristo tenha morrido na cruz e apresentado seu sacrifício ao Pai na sua ascensão, o problema do pecado ainda não foi plenamente resolvido. Ainda vivemos neste mundo pecaminoso em que os crentes precisam lutar contra o pecado (Hb 10:36; 12:4). Infelizmente, nessa luta, ainda caímos em pecado. Mas, se pecamos, Jesus é nosso intercessor celestial para que sejamos perdoados (1Jo 2:1, 2). Deus nos justifica (não somos condenados) com base nessa intercessão (Rm 8:33, 34). Cristo é o sumo sacerdote que se compadece das nossas fraquezas (Hb 4:14) e misericordiosamente faz expiação dos nossos pecados (Hb 2:17). Ele vive para interceder por nós e, com base nessa intercessão, podemos ser salvos e nos achegarmos a Deus (Hb 7:25). Isso ocorre todas as vezes que confessamos nossos pecados em oração (1Jo 1:9). Logo, a mediação contínua de Cristo é especialmente a mediação de nossas orações, que são apresentadas por Ele diante do Pai para o perdão de nossos pecados.

Porém, se o Pai nos ama, por que necessitamos de um mediador para nossas orações? Por que Ele não perdoa diretamente? Em síntese, ao obtermos a justificação por meio de Cristo, Deus necessita ser não apenas justificador, mas também justo (Rm 3:26). Não basta Deus perdoar os pecadores. Ele precisa ser justo ao oferecer esse perdão. É exatamente por meio da intercessão de Cristo em nosso favor, com base na perfeição de sua vida e seu sacrifício em nosso lugar, que Deus pode ser justo ao nos perdoar. Foi o próprio Pai que deu seu Filho (Jo 3:16) e o estabeleceu como sacerdote mediador (Hb 5:4-6; 7:21) em nosso favor. Portanto, a morte e a intercessão de Cristo não ocorreram para que o Pai fosse convencido a ter misericórdia dos pecadores arrependidos. Antes, o Pai agiu como a autoridade diante da qual a intercessão de Cristo é apresentada, para que o processo legal de perdão de pecados seja justo.

Quanto à interiorização da lei divina no coração dos crentes, além do perdão dos pecados, a mediação contínua de Cristo atua para promover o crescimento do relacionamento dos crentes com Deus, no qual a vida deles se mantém alinhada à vontade divina. Nesse sentido, Cristo socorre aqueles que são tentados (Hb 2:18), dando-lhes força para que se mantenham fiéis a Deus. Ele media a ação divina que aperfeiçoa espiritualmente os crentes, para que estes façam a vontade de Deus (Hb 13:20, 21).

ETAPA 3: JULGAMENTO ESCATOLÓGICO

A conclusão do sacerdócio salvífico de Cristo será seguida por sua segunda vinda, que trará salvação aos que o aguardam (Hb 9:28). Essa vinda está associada ao juízo escatológico (Hb 9:27, 28), no qual o santuário celestial necessita ser purificado com o sacrifício de Cristo (Hb 9:23). Na tipologia do Antigo Testamento, no Dia da Expiação o santuário era purificado dos pecados dos israelitas (Lv 16:16-20) e, consequentemente, os próprios israelitas eram purificados de seus pecados (Lv 16:30). Esse dia funcionava como um julgamento coletivo e, portanto, devia ser um momento de contrição para cada pessoa (Lv 16:29). O perdão de pecados via mediação diária ocorria por meio da transferência desses pecados para o santuário ao longo do ano, ritualmente efetuada por meio do sangue dos sacrifícios que era levado para o santuário ou pela ingestão da carne dos sacrifícios por parte do sacerdote (Lv 6:26, 30). Era o Dia da Expiação que trazia purificação final e coletiva no calendário anual.

A compreensão do cumprimento tipológico do Dia da Expiação na obra sacerdotal de Cristo é, às vezes, dificultada pela interpretação por parte de alguns cristãos da entrada de Cristo no santuário celestial, por ocasião de sua ascensão, como sendo o cumprimento desse dia. O problema com essa interpretação é que Ele não resolve total nem coletivamente o problema do pecado ao entrar no santuário celestial no primeiro século da era cristã. Esse problema só será plenamente resolvido no julgamento escatológico, quando o santuário celestial será purificado de acordo com a tipologia do Dia da Expiação.

Como interpretamos, então, as passagens de Hebreus que parecem indicar que Cristo entrou como sumo sacerdote no lugar santíssimo em sua ascensão (6:19, 20; 9:12, 24, 25)? Não seria esse o cumprimento do Dia da Expiação? Não. Vamos explicar em três passos.

Primeiramente, ao compararmos diferentes versões de Hebreus 9:12 e 25, observamos que algumas mencionam “santo dos santos” (ARA) ou “lugar santíssimo” (NVI, NTLH), mas outras traduções mencionam “santuário” (ARC, ACF, BJ, TEB). O fato é que nessas duas passagens (como também em 8:2; 9:1, 8, 24; 10:19; 13:11), a expressão grega ta hagia é utilizada. Essa expressão normalmente se refere ao santuário como um todo. Portanto, a ênfase de Hebreus é que, na ascensão, Cristo entrou no santuário celestial.

Em segundo lugar, Hebreus compara a entrada de Cristo no santuário celestial (9:11, 12) com o início da aliança de Deus com o povo que saiu do Egito (9:18-21), que incluiu a inauguração do santuário com a apresentação de sacrifícios. Note que Hebreus 9:21 enfatiza que todas as partes e utensílios do santuário foram consagrados com o sangue de sacrifícios. Portanto, o Dia da Expiação não foi o único momento na tipologia do Antigo Testamento em que houve a entrada com sangue no lugar santíssimo. A inauguração do santuário também incluiu uma entrada com sangue ali. Assim, à luz do rito da inauguração, a entrada de Cristo no santuário como um todo (podendo incluir o lugar santíssimo) em sua ascensão não indica o cumprimento da tipologia do Dia da Expiação.

Em terceiro lugar, na comparação de Hebreus 9:24 e 25 da entrada de Cristo no santuário celestial (ascensão) com a entrada anual do sumo sacerdote no santuário israelita (Dia da Expiação), o que é comparado é o oferecimento do sacrifício. A diferença fundamental do sacerdócio de Cristo em relação ao sacerdócio israelita é que Ele ofereceu um único sacrifício (9:26; 7:27; 10:11, 12), ao passo que os serviços no santuário terrestre eram caracterizados por uma pluralidade de sacrifícios. Com efeito, todos esses sacrifícios (inclusive os do Dia da Expiação) se cumpriram no sacrifício único de Cristo, ocorrido na cruz e oferecido ao Pai na ascensão. Logo, o Dia da Expiação escatológico de Cristo se diferencia da atividade anual do sumo sacerdote israelita, especialmente no segundo compartimento do santuário, no sentido de que Cristo não oferece sacrifícios, mas purifica o santuário celestial com base em seu único sacrifício já oferecido.

O cumprimento profético do Dia da Expiação, em que o santuário celestial é purificado (Hb 9:23), teve início em 1844 (Dn 8:14). O significado dessa purificação é o julgamento divino caracterizado pela abertura de livros em um tribunal celestial (Dn 7:9, 10), e todos estão envolvidos nesse juízo que já teve início (Ap 14:6; veja os paralelos entre Dn 8:14, Dn 7:13 e Ap 14 em Ellen White, O Grande Conflito, p. 424-426). Felizmente, o cumprimento profético do Dia da Expiação desde 1844 também inclui o oferecimento de “perdão de pecados aos homens, mediante a intercessão de Cristo no lugar santíssimo” (ibid., p. 430). Ademais, o fato de que o julgamento escatológico já teve início significa que, em breve, Cristo virá para trazer completa salvação aos que o aguardam (Hb 9:28). Esse é o alvo final do seu sacerdócio.

Enquanto isso, seu trabalho sacerdotal continua no santuário celestial. Cristo não se cansa de agir em favor da nossa salvação. Cada um de nós precisa se apropriar dessa realidade!

ADRIANI MILLI, doutor em Antigo Testamento pela Universidade Andrews (EUA), é professor de Teologia no Unasp, em Engenheiro Coelho (SP)

(Artigo publicado originalmente na edição de outubro de 2016 da Revista Adventista)

SAIBA +

TEMA FUNDAMENTAL

Foto: William de Moraes

Ellen White nunca teve dúvida sobre a importância do santuário celestial para o plano da salvação. Esse é um tema que permeia seus escritos. Por isso, minimizar o papel do santuário na teologia adventista seria o mesmo que eliminar um de seus mais importantes pilares.

“O assunto do santuário foi a chave que desvendou o mistério do desapontamento de 1844”, ela escreveu em O Grande Conflito (p. 423). E completou: “O santuário no Céu é o próprio centro da obra de Cristo em favor dos homens. […] A intercessão de Cristo no santuário celestial em prol do homem é tão essencial ao plano da redenção como o foi sua morte sobre a cruz” (p. 488, 489).

Na opinião da mensageira, o conhecimento desse tema é indispensável: “A compreensão correta do ministério do santuário celestial constitui o alicerce de nossa fé” (Evangelismo, p. 221). “O assunto do santuário e do juízo de investigação deve ser claramente compreendido pelo povo de Deus” (O Grande Conflito, p. 488). “O significado da dispensação judaica não é ainda plenamente compreendido. Profundas e vastas verdades são prefiguradas em seus ritos e símbolos” (Parábolas de Jesus, p. 133). Embora a teologia adventista sobre o santuário tenha sido refinada ao longo dos anos, ainda existem tesouros a ser descobertos nessa área. (Marcos De Benedicto)

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