Missão atrás das grades

Como voluntários do ministério das prisões oferecem liberdade a detentos em todo o Brasil
Evento realizado no início do mês Faculdade Adventista da Amazônia (Faama) teve o objetivo de preparar os membros da igreja para a asssitência religiosa no sistema prisional. Foto: Ely Braga

Quando saiu do Piauí em direção a São Paulo, José Leal buscava apenas um emprego, mas as situações pelas quais passou o levaram ao mundo do crime. Assalto a bancos e o uso de drogas lhe custaram sete anos atrás das grades. Por diversas vezes, ele literalmente fugiu da realidade do presídio, até ser detido em Marabá, no interior do Pará.

A unidade prisional era visitada regularmente por Hermínio Barbosa dos Santos, voluntário que se deslocava até lá para falar sobre a liberdade encontrada na Bíblia. A mensagem chegou aos ouvidos de Leal, que ali fez um novo amigo. “Naquela situação em que eu estava, não conseguia acreditar que alguém pudesse me amar”, destaca.

LEIA TAMBÉM

Luz na prisão

Hermínio Santos e José Leal (à direita) foram convidados para compartilhar  experiências sobre a transformação de vidas nos presídios. Foto: Ely Braga

Já fora do sistema carcerário, José Leal seguiu os passos de Santos e atua no Ministério da Missão Prisional, ligado à Igreja Adventista do Sétimo Dia, da qual hoje é membro. No entanto, cerca de 725 mil pessoas permanecem presas em todo o Brasil, de acordo com uma pesquisa divulgada em setembro pela Pastoral Carcerária. A estrutura, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, tem capacidade para atender metade desse contingente.

Ruth Tesche, que do outro lado do País desempenha um trabalho semelhante há mais de 20 anos, quase desistiu de ser a “mãe”, como é chamada, para os encarcerados. Inicialmente, o objetivo era simplesmente levar cartas das crianças para os pais que cumpriam pena em uma penitenciária de Maringá, no interior paranaense, ou aguardavam uma decisão da Justiça.

“Eu não gostava de preso, tinha raiva de preso”, explica. Mas sua opinião começou a mudar quando entendeu que poderia ajudar a mudar a vida daquelas pessoas. Hoje, calcula já ter levado mais de duas mil pessoas ao batismo. E quando saem da penitenciária, os “meninos”, como ela carinhosamente os chama, são abrigados em sua casa, caso não tenham para onde ir. E de lá saem somente quando estão empregados e em condições de pagar o próprio aluguel. “A pessoa não consegue sobreviver se ela não é amada”, pontua a senhora que em breve completará 66 anos.

Caminho para a liberdade

José, Hermínio e Ruth fazem parte de um ministério que tem crescido em todo o Brasil, mas que ainda necessita de mais voluntários, como ficou claro no I Simpósio Nacional de Missão Prisional realizado pela Igreja Adventista no Norte do País. O encontro realizado de 2 a 4 de novembro na Faculdade Adventista da Amazônia (Faama), nas proximidades de Belém, trouxe diagnósticos e apresentou desafios aos participantes.

“Estamos trabalhando a questão da saúde mental, os termos legais do sistema penitenciário e a teologia, a fim de mostrar como atuar nos presídios e a preocupação bíblica com as pessoas encarceradas”, sublinha o pastor Ivanildo Cavalcante, diretor do departamento de Missão Global da Igreja Adventista para o norte do País.

Além das palestras, também foram oferecidas oficinas práticas sobre o processo de ressocialização. “A experiência religiosa restabelece o sentido da existência, ensinando questões essenciais ao convívio em sociedade, como a importância de amar o próximo, de ter humildade e de ser solidário”, ressalta a advogada Angélica Freitas. Ela pesquisou o papel da religião na reinserção social de quem está em busca da liberdade.

ANNE SEIXAS é jornalista e trabalha como assessora de comunicação da sede administrativa adventista para a região Norte do Brasil

ASSISTA AO VÍDEO

Veja também

Teste para a unidade

A igreja é uma família com espaço para diferenças de cultura e opinião, desde que não comprometam  a teologia, o estilo de vida e a missão.