Um líder que tem pressa

Pastor Geovani Queiroz se aposenta depois de dirigir a igreja no nordeste por 14 anos e imprimir um forte ritmo de crescimento na região
Heron Santana
O pr. Queiroz foi homenageado nesta terça-feira no encerramento do Concílio Anual sul-americano. Foto: União Leste Brasileira

O sol estava perto da linha do horizonte, na tarde do sábado 29 de setembro de 2018, quando o pastor Geovani Queiroz subiu ao palco montado no Estádio Governador Roberto Santos, mais conhecido como Pituaçu, em Salvador (BA). Uma delegação o acompanhou, ocupando uma área de onde mais de 30 mil participantes do evento Tempo de Celebrar conseguiram perceber a diversidade de pessoas que ­ocupavam aquele espaço: havia representantes de tribos indígenas, de comunidades de ciganos, de assentamentos rurais e de povoados de difícil acesso.

O líder saudou os participantes que haviam formado caravanas de várias regiões da Bahia e de Sergipe. “A igreja chegou aonde nunca havia chegado”, disse, apontando para os representantes comunitários que estavam no palco. “Deus inspirou o projeto Santuários de Esperança para esse propósito. E nós estamos celebrando agora as conquistas de Deus neste lugar, porque eu declaro que esse projeto está encerrado.”

O que se seguiu foi o barulho de fogos de artifício, que chamaram a atenção nesse princípio de crepúsculo. Palmas e gritos de celebração tomaram conta das arquibancadas, enquanto uma música em tons triunfantes inspirava ainda mais as comemorações. Lançada em 2013, a campanha de abertura de mil igrejas no prazo de cinco anos chegava oficialmente ao fim com 946 igrejas plantadas até agosto. Outras 54 congregações devem se estabelecidas até o fim do ano. Dessas centenas de novas igrejas, 592 já foram organizadas, algumas dezenas construídas e outras compraram seu próprio terreno.

A alegria que tomou conta desse momento ganhou um contraste minutos depois, quando Geovani subiu novamente ao palco, dessa vez acompanhado por sua esposa e os administradores da União Leste Brasileira (ULB). Era esperado o anúncio da aposentadoria do pastor Ivo Vasconcelos, tesoureiro da ULB, depois de mais de 40 anos de dedicação ao controle das finanças da igreja. Porém, o que acabou surpreendendo a todos foi que o pastor Geovani também anunciou sua saída, após concluir 35 anos de ministério. “Saio feliz porque a igreja não me deve nada, nunca deveu nada para mim; eu é que devo tudo à igreja.”

ESTILO DE LIDERANÇA

A maneira surpreendente de anunciar a aposentadoria comunica muito sobre o estilo de liderança de Geovani Souto de Queiroz, um baiano nascido há 60 anos no Povoado de Quaraçu, em Cândido Sales, a 593 quilômetros de Salvador. A intensidade, o senso de urgência e a paixão pela missão e expansão do adventismo foram marcas do seu trabalho. Geovani sai de cena depois de liderar a denominação no Nordeste nos últimos 14 anos.

A nova região administrativa que ele ajudou a estabelecer foi resultado de um crescimento institucional, com o surgimento de novas sedes administrativas; uma expansão no alcance de municípios sem a presença adventista; o crescimento na estrutura educacional, com a instalação do Instituto Adventista Pernambucano de Ensino (IAPE); e o aumento da oferta de cursos de ensino superior na Faculdade Adventista da Bahia, com destaque para Odontologia, uma das principais conquistas da rede educacional adventista no Brasil.

Geovani nasceu em 20 de agosto de 1958. Filho de Geovani e Joana, sofreu uma perda muito cedo, com o falecimento do pai. Com uma família de 11 irmãos, Queiroz testemunhou o esforço da mãe em cuidar da casa e educar os filhos segundo os firmes princípios cristãos. Dona Joana, hoje com 91 anos, é uma lembrança recorrente de exemplo e de vitalidade missionária. Foi ao acompanhar a mãe na ministração de classes bíblicas que ele decidiu ser pastor. Com 13 anos, costumava brincar em um lago, simulando o batismo de seus amigos.

O sonho realizou-se em 1983, quando ele se graduou em Teologia no antigo Instituto Adventista de Ensino, atual Unasp, ­campus São Paulo. No internato, ele conheceu a paranaense Rosecler Linhares de Queiroz, com quem se casou e teve dois filhos: Jônatas (33) e Camila (30). A parceria com Rosecler foi além da constituição de uma família. Ambos formaram uma linha de frente para o trabalho da igreja, marcada especialmente por um senso de urgência missionário.

Geovani começou seu ministério como instrutor bíblico e pastor distrital na capital paulista. Ali foi diretor do Ministério Pessoal da Associação Paulista Sul. De lá saiu para ser nomeado presidente da Missão Mato-Grossense e não mais deixou de liderar regiões administrativas da igreja. Foi presidente da Missão Costa-Norte (Ceará e Piauí), da Associação Pernambucana, da antiga União Nordeste Brasileira (oito estados), sucedendo o pastor Helder Roger Cavalcanti, até assumir em 2012 a União Leste Brasileira.

VISÃO ESTRATÉGICA

Sua experiência no Nordeste o levou a desenvolver uma visão estratégica para a região. Em 2008, havia 650 municípios nordestinos sem presença adventista. Ele reuniu administradores, oficiais e líderes para apresentar o projeto Terra de Esperança. Com uma arquitetura financeira e um apelo missionário sem precedentes, voluntários foram desafiados a deixar sua cidade de domicílio para morar em municípios em que a presença adventista precisava ser estabelecida. O que gerações anteriores de adventistas fizeram ao longo de décadas, Geovani queria promover em apenas cinco anos!

A campanha se desenvolveu com traços típicos de sua liderança: agenda intensa de visitas para apresentar o plano e buscar apoio financeiro e logístico, e estratégias de marketing com base no senso de urgência e apelo simbólico. No lançamento do projeto, em Recife, por exemplo, o pastor Erton Köhler, líder da igreja na América do Sul, pregou em um púlpito de madeira construído em 1944 pelo pioneiro Luiz Calebe. O móvel foi levado de Caruaru, a cerca de 120 km da capital pernambucana, exclusivamente para esse momento. “Queríamos mostrar que o que estava acontecendo era um movimento semelhante ao que os pioneiros haviam realizado. Precisávamos avançar como eles avançaram”, observou.

Como presidente eleito da recém-criada ULB, Geovani percebeu que era preciso construir mais templos na região, especialmente nas localidades mais isoladas. “A igreja precisava chegar ao lugar em que essas pessoas estavam”, justificou Queiroz. Em pouco tempo estava estabelecido o projeto Santuários de Esperança: o desafio de plantar mil igrejas em cinco anos.

O lançamento da campanha seguiu o estilo arrojado do líder baiano. A apresentação foi realizada na Igreja de Dias D’Ávila, uma espécie de marco zero do projeto, localizada na região metropolitana de Salvador. O templo foi ­construído em cerca de 60 dias apenas para mostrar aos participantes do evento como seria o projeto. Geovani costumava repetir: “Bahia e Sergipe têm pressa.” Na sequência, cada pastor distrital recebeu uma maquete da igreja-padrão, com um marcante contorno do número sete na fachada do templo, e foi desafiado a assinar um compromisso com a campanha. Por sua vez, o projeto seria viabilizado pela participação financeira das Associações e União, em parceria com as igrejas locais.

O avanço do projeto foi empolgando membros e ministros. Até mesmo alguns pastores que mostravam insatisfação com o estilo de liderança de Geovani Queiroz passaram a observá-lo de forma diferente. “Quando vi o pastor Geovani visitando comunidades distantes apenas para o lançamento de uma pedra fundamental, quando o vi dedicando a vida com tanto desgaste físico para essa causa, concluí que o que move esse homem é uma loucura santa, um desejo irrefreável de levar o evangelho ao maior número de pessoas”, confessa Moisés Sales, pastor distrital em Santo Antônio de Jesus (BA). Anteriormente crítico do projeto, ele passou a se engajar na campanha, e dois templos foram estabelecidos em seu distrito.

Caracterizado pelo raciocínio simples e discurso de fácil compreensão, Geovani deixou marcas no modo de mobilizar os adventistas no Nordeste. Seu legado é de uma igreja que vislumbra um futuro de solidez institucional e paixão missionária. Para ele, nossa mensagem precisa ser pregada com pressa!

HERON SANTANA é jornalista e diretor do departamento de Comunicação da Igreja Adventista para a Bahia e Sergipe

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