Duzentos anos de “Noite Feliz”

Fatos e mitos sobre a origem de um dos hinos de Natal mais conhecidos
Joêzer Mendonça 
Foto: Adobe Stock

Na véspera de Natal de 1818, o órgão da pequena cidade austríaca de Oberndorf ficou sem condições de uso, levando ao desespero o jovem padre Joseph Mohr. Ao ver que a missa de Natal seria um fiasco logo em seu primeiro ano na paróquia, ele saiu para caminhar e chegou até uma montanha de onde vislumbrava toda a cidade. Ali, lembrou-se de um poema que havia escrito numa véspera de Natal dois anos antes, quando caminhava pelos bosques da região. Ele pegou o texto e correu até a casa de um professor e músico humilde chamado Franz Gruber e lhe pediu que colocasse música no poema.

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A música foi composta rapidamente e foi intitulada “Stille Nacht”. À noite, o coral da igreja cantou juntamente com toda a congregação aquele que viria a ser o hino de Natal mais conhecido do mundo: “Noite Feliz”. Dias depois, essa história foi contada ao técnico que havia consertado o órgão da igreja. Então, ele pediu para ouvir a música e, impressionado com a riqueza melódica da canção, decidiu ensiná-la em todas as igrejas por onde passava até que chegou aos ouvidos do rei da Prússia, Frederico Guilherme IV, que ordenou ao coro da catedral que a cantasse nos programas de Natal daquele dia em diante. Assim, a música chegou aos Estados Unidos…

A história é emocionante, mas nem tudo que contei acima é verdade. Esse relato bastante romantizado do cântico “Noite Feliz” está circulando nas redes sociais, mas agora vamos conhecer os registros da verdadeira história.

De fato, Joseph Mohr, que havia chegado a Oberndorf no ano anterior para auxiliar o pároco da cidade, tinha um poema que havia escrito em 1816 e Franz Gruber fez a música na véspera de Natal. Mas nem o coral nem a congregação cantaram “Noite Feliz” naquela noite. Na verdade, somente Mohr e Gruber cantaram – Gruber também tocou violão durante o dueto. Gruber era o organista da igreja de São Nicolau em Oberndorf, mas morava em Arnsdorf, onde ministrava aulas de música. Num manuscrito de Mohr, encontrado em 1995, ele não diz que escreveu os versos numa véspera de Natal, apontando somente o ano (1816) e o compositor da melodia (Fr. Xav. Gruber). Há um manuscrito do próprio Franz Gruber em que ele conta que o técnico Karl Mauracher levou uma cópia da música para a região do Tirol, onde morava. No entanto, não há registros de que Maurecher tenha levado essa música a outras igrejas e até à corte do rei.

Sabe-se apenas que os cantores da família Strasser adotaram “Noite Feliz” no seu repertório natalino, sendo que há documentos que comprovam que eles a cantaram em Leipzig, em 1832. Segundo o pesquisador Norbert Müllenmann, no texto “Silent Night revisited”, um editor de sobrenome Freise incluiu “Noite Feliz” numa coletânea de “Quatro Genuínas Canções Tirolesas”, publicada em 1833. Outra família de cantores do Tirol, os Rainers, apresentaram essa versão de “Noite Feliz” numa excursão que fizeram aos Estados Unidos em 1839.

Curiosamente, a versão publicada em 1833 é um pouco diferente do manuscrito de Franz Gruber, escrito para duas vozes. Ao se comparar as duas versões (veja abaixo em “Saiba+”), percebemos que atualmente cantamos a versão da coletânea editada por Freise em 1833, e não a versão propriamente original de Gruber.

Durante algum tempo, nos Estados Unidos, muitos acharam que “Noite Feliz” fosse uma música americana – talvez porque a antiga gravação do cantor Bing Crosby seja ainda hoje o terceiro single mais vendido na América. Durante o século 19, na Europa, creditou-se a autoria da melodia a um anônimo popular, a Mozart, a Beethoven, a Haydn (talvez por este ser o autor de uma peça orquestral com trechos que seriam adaptados posteriormente como o hino nacional da Alemanha, que seria adaptado como o hino “Grandes Coisas Mui Gloriosas”, mas isso é história que fica para outro dia).

Desde aquela época, conhece-se mais o intérprete da música do que seu autor… Mas agora que você já conhece a lenda e a história, cantar esse belo cântico, que permanece no topo das músicas natalinas há 200 anos, pode ter um significado ainda mais especial.

JOÊZER MENDONÇA, doutor em Musicologia (Unesp) com ênfase na relação entre teologia e música na história do adventismo, é professor na PUC-PR e autor dos livros Música e Religião na Era do Pop e O Som da Reforma: A Música no Tempo dos Primeiros Protestantes

SAIBA +

Para ver a partitura original manuscrita no site da Silent Night Association, clique aqui.

Veja a comparação musical das versões de “Noite Feliz” aqui.

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