Missão no Quênia

Como a experiência de servir no território africano mudou a caminhada de um jovem com Deus
Rogério (primeiro da direita para a esquerda) foi um dos 15 voluntários brasileiros que participaram da missão no território africano organizada pela Maranatha Brasil. Foto: Beatriz Balog

Desde minha infância, a palavra “maranata” tem sido um gatilho para a quase que instantânea e, muitas vezes, impensada resposta: “O Senhor logo vem!” Sendo adventista de berço, há quarenta anos tenho aguardado a promessa da Sua vinda. Meu bisavô faleceu convicto de que Jesus retornaria em sua geração. Incomodava-me a percepção de que, aos poucos, minha mente havia sido dessensibilizada da urgência em anunciar a volta de Jesus. Eu sentia que precisava de uma experiência transformadora em minha vida cristã, mas não sabia como isso poderia acontecer nem por onde começar.

Ao assistir ao programa “Maranatha – Histórias de Missão”, na TV Novo Tempo, o Espírito de Deus começou a mostrar a resposta para minha necessidade de renovação espiritual. O trabalho humanitário desenvolvido pela Maranatha ao redor do mundo parecia ser exatamente o que faltava em minha caminhada com Deus. Conversei com minha esposa e ela aceitou o desafio de participarmos de uma missão no Quênia. Honestamente, eu não sabia distinguir até que ponto estava entusiasmado com a missão ou com nossa primeira viagem para o continente africano, com todas as suas peculiaridades culturais. Mas, como diz um antigo ensinamento do Talmude, às vezes é preciso começar a fazer o que é correto mesmo que não seja com as intenções certas, pois, ao longo do caminho, Deus dará as intenções certas enquanto praticamos o que é correto.

Quando chegamos ao nosso ponto de encontro, onde conheceríamos todos os demais voluntários, ficamos impactados com o carinho e a alegria com que fomos recebidos, não apenas pelos líderes da missão, mas por todos os voluntários. Era como se fôssemos velhos amigos, apesar de tê-los conhecido naquele momento.

As primeiras instruções detalhadas sobre a missão foram dadas e começamos a entender que Deus havia nos proporcionado uma experiência que ficaria marcada para sempre em nossa vida.

No Quênia, assim como em boa parte da África, por volta dos nove anos de idade, a menina passa por um ritual de mutilação genital para, em seguida, ser entregue a um homem entre 50 e 60 anos de idade, que será seu marido mediante o pagamento do dote para a família. Esse processo de mutilação genital é mais frequente na tribo Massai. Ele é feito “a sangue frio”, sem anestesia nem higiene, o que faz com que inúmeras meninas morram em decorrência de um processo infeccioso. Alguns relatos chegam a citar a utilização de caco de vidro ou “qualquer coisa que possa fazer o corte”, na ausência de uma faca. O mais assustador é que esse procedimento de mutilação é executado pela mulher mais idosa da tribo.

Tínhamos a missão de construir banheiros para a escola adventista no distrito de Kajiado. Essa escola recebe meninas que fugiram de suas tribos para não passarem pela mutilação. Ela também recebe muitas meninas que, apesar de já terem sofrido essa brutalidade, encontraram na escola adventista uma oportunidade de receber amor e carinho e reconstruir a vida, além dos estudos. De imediato, fomos tomados pela certeza de que Deus nos chamou para aquele lugar não apenas com o propósito de construir paredes, mas para reconstruir vidas. Não sabíamos ainda tudo o que imediatamente se passaria nos dias seguintes, mas já tínhamos a certeza de que nunca mais seríamos os mesmos a partir daquele momento.

Apesar de eu e outros integrantes da equipe não possuirmos o menor conhecimento nem experiência na área de construção civil, o suporte da Maranatha foi mais do que suficiente para que começássemos a dar os primeiros passos rumo ao objetivo de construir os banheiros. Todos os dias acordávamos animados para o trabalho, não somente com o avanço da construção, mas, principalmente, com o carinho que recebíamos das crianças e a amizade que se aprofundava cada vez mais entre o grupo de voluntários. Toda e qualquer adversidade que se apresentasse era rapidamente superada com o pensamento de que a missão era maior do que todos nós e estava acima de qualquer necessidade individual. A dor daquelas meninas se tornou a nossa dor e pudemos compreender um pouco de como Deus nos vê em meio a esse mundo de pecado e sofrimento. Nada mais nos importava, exceto, cumprir a missão. Esse senso que tomava conta de todos nós me fez refletir sobre as oportunidades em que, infelizmente, não me permiti ser usado inteiramente por Deus. A missão nos mostra muito mais do que a realidade de quem é ajudado. Ela é capaz de mostrar a nossa própria realidade.

Ao final de cada dia, após o jantar e um merecido banho para renovação de nossas forças, nos reuníamos em um culto. A cada noite duas pessoas eram convidadas para falar sobre sua caminhada com Deus e o motivo que a levou a participar da missão, entre outras coisas. Como pudemos amadurecer e fortalecer nossa fé em Deus ouvindo as experiências e relatos de cada voluntário e percebermos como Deus guia nossa vida em todo o tempo e de formas inusitadas!

O objetivo de construir os banheiros foi atingido. No dia da inauguração das edificações, entregamos kits escolares e de higiene pessoal para cada menina, além de roupas, sapatos e brinquedos, entre outros artigos. Essas doações se tornaram possíveis graças à bondade de dezenas de pessoas que também participaram de forma indireta em nossa missão no Quênia. Não há palavras para traduzir a emoção de vê-las recebendo os kits e beijando os cadernos com tanta alegria e gratidão.

Nossa missão no Quênia chegou ao fim, mas as sementes plantadas em nosso coração através dessa experiência produzirão frutos para a eternidade! Hoje, quando ouço alguém dizer a palavra “Maranata”, tenho consciência da minha responsabilidade em apressar a volta do Senhor. Mais do que ansiar pela eternidade, compreendi que a eternidade começa aqui na Terra quando nos colocamos nas mãos de Deus para que Ele realize Sua obra através de nossas vidas.

ROGÉRIO GENTIL é membro da Igreja Adventista Central de São Caetano do Sul (SP) e trabalha como consultor na área de aplicativos de software e gestão corporativa

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