Mestre das letras

Com pena hábil e espírito franciscano, Rubens Lessa, que faleceu neste sábado, foi um dos ícones do adventismo nos últimos 40 anos

(Perfil publicado na edição de julho de 2014 da Revista Adventista, por ocasião de sua aposentadoria)

Quando Rubens da Silva Lessa estava num simples quarto de pensão na cidade de Goiás, em dezembro de 1959, não imaginou que seria, por quatro décadas, um dos influenciadores do adventismo brasileiro. O que o então jovem colportor conseguiu perceber naquele dia era que Deus o estava chamando para o ministério pastoral.

Essa convicção brotou em seu coração depois da leitura de Isaías 6:1-18. Lessa, que nunca havia pensado em ser pastor, respondeu ao convite divino com humildade semelhante à do profeta Isaías. Não que até ali ele tivesse desdenhado a ideia de servir a Deus profissionalmente. Ao contrário, sempre o inspirou a dedicação de seu pai, José Lessa, um colportor de carreira, posteriormente ordenado pastor. O que Rubens não enxergou era que seria capacitado para um trabalho tão sagrado.

Impulsionado por essa nova convicção, Lessa escreveu alguns versos. No papel, ele expressou o compromisso que passava a assumir. Mal sabia que a habilidade de cativar por meio da escrita o consagraria. Muitos de seus 340 editoriais na Revista Adventista foram lidos, relidos, citados e colecionados. Por meio deles, Lessa se dirigiu às ovelhas de seu rebanho com histórias recortadas do cotidiano para apresentar conselhos sempre pertinentes.

FORMAÇÃO

A decisão de ser pastor o levou a cursar o período equivalente ao atual Ensino Médio no Educandário Nordestino Adventista (ENA). Ali, no extinto internato da cidade de Belém Maria, PE, ele também estudou os dois primeiros anos do seminário teológico, curso que concluiu em São Paulo, no antigo Instituto Adventista de Ensino (IAE).

Mas as grandes lições de vida ainda estavam por vir. Seus cinco primeiros anos de ministério, passados no Norte do Brasil, moldaram a simplicidade do seu estilo. Seu contato inicial com a realidade dos ribeirinhos da Amazônia o impressionou por toda a vida. Ao preparar a Revista Adventista, Lessa sempre pensou na utilidade daquele conteúdo para a dona Maria e o seu João.

A simplicidade no texto e na vida foi sua marca. Na escrita, ele optou por esse estilo não por pobreza de vocabulário nem por ignorância das regras de sua língua materna, pois isso lhe sobrava. Escolheu esse caminho porque acreditava que sua mensagem precisava chegar a todos. Apesar de ter cursado um mestrado em Teologia, iniciado na Inglaterra e concluído nos Estados Unidos, é refratário ao academicismo. Desaprova a reverência aos títulos acadêmicos e nunca se encantou com os modismos teológicos que agitaram o adventismo do primeiro mundo. Amante das letras, vê mais beleza e proveito na poesia do que nas teorias.

NA EDITORA

Desde cedo, Lessa demonstrou interesse pelo texto. Apreciava a literatura brasileira e sonhava ser escritor. Nos tempos de escola, escreveu crônicas, poemas e editou jornais estudantis. Em agosto de 1956, dezesseis anos antes de chegar à Casa Publicadora Brasileira, foi publicada sua primeira matéria na Revista Adventista: o relato de um curso de colportagem em Uberlândia, MG. Em sua passagem pelo ENA, ele deixou sua contribuição com a letra do hino da então Sociedade MV.

Já estudando em São Paulo, Lessa traduziu em versos a celebração do cinquentenário do IAE, poema registrado na Revista Adventista de novembro de 1965. Foi também no internato paulista que ele colaborou para o jornal O Colegial. No fim da década de 1960, por mais duas vezes Lessa publicou artigos sobre moral e comportamento na Revista Adventista.

O chamado para a editora veio no início da década seguinte, depois de Lessa ter trabalhado como pastor distrital em Macapá e ter sido diretor dos departamentos de jovens, comunicação e saúde da Igreja Adventista em Belém. Quando chegou a Santo André, na antiga matriz da CPB, ele era pastor ordenado, casado com a professora Charlotte e pai das duas primeiras filhas: Cláudia e Márcia.

Eram tempos de profissionalização na Redação. Da equipe de apenas sete editores, Lessa, Ivo dos Santos Cardoso e Azenilto G. Brito foram os primeiros a cursar Jornalismo. A formação na conceituada Faculdade Cásper Líbero resultou num texto mais direto e dinâmico das revistas da época. Cinco anos depois, em janeiro de 1978, ele assumiu a função de redator-chefe, cargo que exerceu por 36 anos, superando o lendário Luiz Waldvogel.

Como líder do setor, Lessa testemunhou momentos históricos da editora: a mudança de Santo André para Tatuí e a instabilidade financeira dos tempos de inflação alta, na década de 1980; a profissionalização da área de recursos humanos e produção, nos anos 1990; e a modernização do parque gráfico e a expansão sem precedentes da década de 2000, que fizeram da CPB a maior editora adventista do mundo.

“Sempre me senti pequeno para esse trabalho”, confessou para os funcionários da editora por ocasião de sua despedida na capela da instituição, no início de junho. Ele, que sempre demonstrou mais inclinação para as letras do que para a gestão, creditou o êxito do seu trabalho à equipe que escolheu a dedo ao longo de mais de 30 anos.

Por dominar a língua portuguesa e zelar por seu bom uso na oralidade e na escrita, Lessa foi criterioso em sua seleção. Indicações de líderes, professores e amigos o ajudaram a enxergar agulhas no palheiro, mas o “quem indica” nunca foi determinante para a contratação. Ele prezou pela competência e perfil denominacional dos candidatos.

Com o olhar aguçado de um técnico de futebol, ele se valia das entrevistas e testes para observar quais “jogadores” dominavam os fundamentos do “esporte” e apresentavam talento para ser desenvolvido com o treino e a prática. Cercar-se de pessoas competentes e comprometidas com a missão adventista possibilitou que ele exercesse outra marca de sua liderança: a confiança no trabalho da equipe.

LIDERANÇA

Ter escalado um bom time é um dos legados da gestão de Rubens Lessa: uma equipe de editores quase seis vezes maior do que a que havia quando ele ingressou na editora. Esse plantel, formado em sua maioria por jovens talentos, tem pela frente o desafio de manter a relevância do material produzido pela CPB em tempos de convergência digital, excesso de informação e declínio do hábito de leitura reflexiva.

Se no início dos anos 1970 a formação acadêmica básica era sinônimo de profissionalização, hoje se espera mais de uma instituição que tem o conhecimento como matéria-prima. Com o crescimento da Igreja Adventista e o desenvolvimento da sua comunicação institucional, cabe à CPB, mais do que nunca, oferecer livros e revistas que analisem o adventismo e que projetem seus desafios e oportunidades no futuro. Para tanto, a formação e a função dos novos editores terão que ser estrategicamente pensadas.

Lessa deixou o cargo, mas não a vocação. Com a experiência de 77 anos de vida e com saúde de fazer inveja aos mais jovens, ele não planeja ficar parado. “Não tenho vocação para a rede e a cama”, gracejou, ao mencionar que pretende prestar serviços de editoração para a sede sul-americana da Igreja Adventista, escrever e colaborar para o plantio de novas igrejas. No entanto, Lessa garante que a maior parte do seu tempo passará com a esposa, as três filhas e os dois netos – razão principal para ter solicitado a aposentadoria.

“Não pensemos em vantagens, mas no privilégio de servir a Deus”, costumava aconselhar o experiente obreiro, que dedicou quase 47 anos ao pastorado, sendo 41 deles à CPB. Conhecido por chegar mais cedo, sair mais tarde e trabalhar nas férias, o ministério na editora foi sua vida. E a ela se dedicou tanto que talvez tenha pecado pelo excesso.

Lessa também apresentou a virtude da discrição. Fazia questão de fugir dos aplausos e, quando recusava elogios, não era por falsa modéstia. Mesmo assim, aceitou receber o reconhecimento pela contribuição de seu trabalho por meio da Comenda do Sesquicentenário da Revolução Sorocabana de 1842 e do título de cidadão tatuiano. No uso do dinheiro também rejeitou a ostentação e o desperdício. Ficou conhecido pelo fato de não aceitar todos os benefícios a que tinha direito e a usar com o máximo de economia os recursos da editora. Tinha em mente que a motivação legítima para o serviço a Deus é o senso de missão e não as vantagens temporais.

A liberalidade e o desapego dos bens materiais, ele também exercitou na vida pessoal. Ajudou anonimamente inúmeras famílias e investiu tempo e dinheiro para colaborar com igrejas pequenas. Seu espírito franciscano serve de reflexão para o apelo consumista de nossos dias.

Com a aposentadoria dele e de sua geração, uma era se finda na CPB. Um ciclo se fecha para dar início a outro. No entanto, assim como foi em toda a história do povo de Deus, existem homens e mulheres para cada tempo. O bastão continuará a passar de mão em mão, até que a igreja cruze a linha de chegada. E, assim como Lessa afirmou, confiante, os maiores avanços da causa de Deus ainda estão no porvir. “Vocês ainda verão os grandes eventos finais da missão de Deus,” projetou.

WENDEL LIMA é editor associado da Revista Adventista.

SAIBA +

O legado de Rubens Lessa

“Trabalho incansável e dedicação total à causa de Deus foram duas marcas da vida dele. Somente na eternidade, seus frutos poderão ser devidamente mensurados.” Pastor Rubem M. Scheffel, redator-chefe interino enquanto Lessa estudou no exterior

“Ele granjeou a confiança dos líderes por ser fiel aos princípios da igreja, não transigindo com ideias liberais. Seus editoriais, com talento literário e linguagem franca, influenciaram uma geração. Não era perfeito, como ninguém é, mas Deus o usou e o recompensará.” Pastor Wilson Sarli, diretor-geral da CPB em dois períodos

“O pastor Lessa sempre esteve no passo da igreja, nem à frente, nem atrás dela. Alguém que mostrou comprometimento com a missão por meio de sua lealdade e trabalho intenso.” Pastor José Carlos de Lima, diretor-geral da CPB

“Ele mostrou compromisso institucional e pessoal com as iniciativas da igreja. Sua vida é uma inspiração, sua busca foi pela excelência e sua dedicação, sem limites. Há líderes que dão uma contribuição e outros que deixam um legado. Ele usou as palavras para edificar a igreja e ajudou a torná-la mais espiritual, comprometida, sólida e unida.” Pastor Erton Köhler, presidente da Igreja Adventista para a América do Sul

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