A prova dos dez

Entenda o significado dos períodos de dez dias mencionados na Bíblia
FERNANDO DIAS
Há uma razão bíblica para a igreja haver proposto dez dias especiais de oração e consagração a Deus. Foto: AdobeStock

Nos últimos anos, a agenda da igreja na América do Sul tem enfatizado a campanha “10 Dias de Oração e 10 Horas de Jejum”. Alguém pode perguntar: “por que dez dias?” Há uma razão bíblica para a igreja haver proposto dez dias especiais de oração e consagração a Deus. A Bíblia menciona dez vezes diretamente e três indiretamente um período de dez dias (Gn 24:55; Nm 11:19; 1Sm 25:38; Ne 5:18; Jr 42:7; Dn 1:12, 14, 15; At 25:6; Ap 2:10; ver também Lv 16:29; Lv 23:24-27; At 1:3, 5; 2:1). Dessas, quero destacar quatro períodos especiais de dez dias mencionados na Bíblia.

No calendário do santuário do Antigo Testamento, dez dias se estendiam desde a Festa das Trombetas até o Dia da Expiação (Lv 23:24-27). No primeiro dia do sétimo mês, ou mês de etanim ou tishrei, que, em nosso calendário, equivale geralmente a setembro ou outubro, os sacerdotes no templo israelita tocavam trombetas de prata anunciando que todo o povo deveria se preparar para o Dia da Expiação, que seria dez dias depois. “Os rabis chamavam o tempo entre a Festa das Trombetas e o Dia da Expiação de ‘dez dias de arrependimento’. Esses dias davam ao antigo povo de Deus a oportunidade de se preparar para o ‘juízo’ ou ‘julgamento’ que – segundo se acreditava – ocorria no Dia da Expiação” (Leslie Hardinge e Frank Holbrook, Levítico e Vida, Lição da Escola Sabatina do 1o trimestre de 1989, p. 90). Nessa ocasião, aqueles que não haviam se arrependido eram exterminados por Deus, mas os que haviam se arrependido tinham todos os seus pecados perdoados definitivamente. Dez dias de provas seguidos de grandes recompensas para os fiéis. Nesse caso, a recompensa do perdão.

O segundo período de dez dias foram os dez dias em que Daniel, Hananias, Misael e Azarias, os quatro príncipes hebreus cativos em Babilônia, foram provados quanto à alimentação (Dn 1:12-15). A fim de convencer a Melzar, cozinheiro-chefe da corte do rei de Babilônia, de que era vantagem permitir que não comessem a comida que era servida na mesa do rei, os quatro se submeteram a uma prova durante dez dias. Os resultados foram surpreendentes. Eles passaram no teste e provaram para si e para os pagãos que a fidelidade a Deus leva ao sucesso: “No fim dos dez dias, a aparência dos jovens era melhor, e eles estavam mais robustos do que todos os jovens que comiam das finas iguarias do rei” (Dn 1:15). “O Senhor recompensou com aprovação a firmeza e renúncia desses jovens hebreus, e Sua bênção os acompanhou” (Ellen G. White, Fundamentos da Educação Cristã, p. 80). Dez dias de provas seguidos de grandes recompensas para os fiéis. Nesse caso, a recompensa da saúde e da inteligência.

No livro de Atos (1:3), conta-se que Jesus Cristo, quarenta dias depois de ter ressuscitado, quando almoçou pela última vez com os apóstolos, prometeu que eles seriam “batizados com o Espírito Santo dentro de poucos dias” (v. 5). Naquele mesmo dia, Jesus foi para o Céu. Os discípulos e familiares de Jesus desceram o Monte das Oliveiras, entraram em Jerusalém, foram até o cenáculo e ali “perseveravam unânimes em oração” (v. 12-14). Eles ficaram reunidos orando até o dia do Pentecostes (2:1), que acontecia 50 dias após o primeiro domingo depois da Páscoa, e, portanto, dez dias depois de Jesus ter feito a promessa do batismo do Espírito Santo e haver ascendido ao Céu. Depois de dez dias de oração, a igreja recebeu o batismo do Espírito Santo. Nós chamamos esse evento de “chuva temporã” (Jl 2:23).

Ellen G. White escreveu sobre esses dez dias entre a partida de Cristo para o Céu e o recebimento do Espírito Santo: “Durante dez dias os discípulos oraram antes de vir a bênção pentecostal. Foi necessário todo esse tempo para levá-los à compreensão do que significava oferecer oração eficaz, aproximando-se cada vez mais de Deus, confessando os pecados, humilhando o coração diante de Deus e pela fé contemplando a Jesus e se transformando à Sua imagem. Ao vir a bênção, encheu todo o lugar onde estavam reunidos, e, dotados de poder, saíram para fazer trabalho eficaz pelo Mestre” (E Recebereis Poder, p. 153). Dez dias de provas seguidos de grandes recompensas para os fiéis. Nesse caso, a recompensa do poder do Espírito Santo.

Finalmente, no Apocalipse, na mensagem de Jesus Cristo à igreja de Esmirna, há uma mensagem que também fala de dez dias. “Não tenha medo das coisas que você vai sofrer. Eis que o diabo está para lançar alguns de vocês na prisão, para que vocês sejam postos à prova, e passem por uma tribulação de dez dias. Seja fiel até a morte, e eu lhe darei a coroa da vida” (Ap 2:10).

Jesus Cristo mandou uma mensagem para a igreja de Esmirna. A cidade de Esmirna existe até hoje, e fica na Turquia, mas na época era uma cidade grega. Localizada ao lado leste do mar Egeu, na província da Ásia, Esmirna era uma cidade rica e pagã, que tinha uma igreja pobre, muito perseguida, porém fiel a Deus. Essa mensagem para a igreja de Esmirna tem três aplicações. Ela serviu (1) para a igreja da cidade de Esmirna na época em que o Apocalipse foi escrito; (2) aplica-se também a todas as igrejas que existiram durante o período profético da igreja de Esmirna, entre os anos 100 e 313; e (3) também se aplica de modo mais amplo a todas as igrejas de qualquer época e lugar, a todos os leitores da Bíblia, inclusive a nós hoje.

OS DESAFIOS DA FIDELIDADE

“Não tenha medo das coisas que você vai sofrer.” A mensagem de Jesus é clara. O cristão não deve ficar dando espaço para o medo em sua vida. Os cristãos de Esmirna tinham suas provações. Nós temos as nossas dificuldades e os nossos problemas. Você não precisa ter medo se ficar doente. Não precisa ter medo se as pessoas parecem ter abandonado você. Não precisa ter medo de que os conflitos o derrotem. Jesus diz: “Conheço a tribulação pela qual você está passando” (Ap 2:9). Sim, Jesus conhece tudo o que você passa. Ele sofreu como você. Ele sofreu por você. Ele sofre com você.

Os irmãos da igreja histórica de Esmirna, na Ásia Menor, passaram por muitas perseguições e dificuldades. “Eis que o diabo está para lançar alguns de vocês na prisão, para que sejam postos à prova”. Essa profecia de Jesus se cumpriu na igreja de Esmirna.

O “pastor” da igreja de Esmirna na época em que o Apocalipse foi escrito chamava-se Policarpo. Ele foi um dos que foram presos durante uma perseguição aos cristãos. “Os perseguidores, tendo chegado tarde da noite, descobriram que ele já fora para a cama no alto da casa. Ao saber que os perseguidores haviam chegado, desceu e dirigiu-lhes a palavra com semblante alegre e agradável, de modo que eles, que nunca o haviam visto, ficaram maravilhados. Ele imediatamente ordenou que uma mesa fosse posta, exortou-os a comer com apetite e pediu que lhe concedessem uma hora para orar sem ser molestado.

Depois de terminar as orações, nas quais fez menção de todas as pessoas com quem entrara em contato na vida, chegada a hora de partir, eles o puseram sobre um jumento e o trouxeram para a cidade. Policarpo foi escoltado pelos guardas até o estádio. Lá, em meio a um ruído tão forte que poucos conseguiam ouvir alguma coisa, uma voz veio do céu dizendo: ‘Seja forte, Policarpo, e comporta-te como um homem!’ Ninguém viu quem falou, mas muitos ouviram a voz. Quando ele foi trazido ao tribunal, houve um grande tumulto no instante em que a multidão percebeu que Policarpo estava preso. O procônsul perguntou-lhe se ele era Policarpo. Ao ouvir a confirmação, ele o aconselhou a negar a Cristo, dizendo-lhe: ‘Jure, e eu o porei em liberdade; renegue a Cristo’.

Policarpo respondeu: ‘Há oitenta e seis anos eu O sirvo, e Ele nunca me faltou. Como então blasfemarei meu Rei, que me salvou?’

E depois disse ao procônsul: ‘Eu sou um cristão, e, se deseja aprender a doutrina cristã, marque um dia, e então poderá me ouvir.’

“Se não mudar de ideia, você será queimado vivo”, disse o procônsul.

Então Policarpo disse: ‘Faça tudo o que lhe agradar’.

O procônsul mandou o arauto proclamar três vezes no meio do estádio: ‘Policarpo confessou que é cristão.” Mal essas palavras foram proferidas, toda a multidão de Esmirna, com fúria violenta se pôs a gritar: ‘Este é o pai dos cristãos e o destruidor dos nossos deuses, que ensinou muitos a não oferecer sacrifícios e a não adorar. Então puseram-se a gritar que ele deveria ser queimado vivo. O povo imediatamente apanhou lenha. Quando quiseram amarrá-lo na fogueira, Policarpo disse: ‘Deixem-me como estou. Não é preciso prender-me, pois aquele que me dá forças para suportar o fogo também me fará permanecer na fogueira sem eu quiser fugir. Disse ele então: ‘Ó Pai, eu Te bendigo por me teres considerado digno de receber o meu prêmio entre os mártires. Assim que ele proferiu a palavra ‘amém’, os oficiais acenderam o fogo.” (John Foxe, O Livro dos Mártires). Isso aconteceu num sábado, dia 23 de fevereiro do ano 155.

“… E passem por uma tribulação de dez dias”. Esse trecho tem três interpretações. Pode se referir (1) às dez perseguições que os imperadores romanos pagãos decretaram aos cristãos (Nero, 67; Domiciano, 81; Trajano, 108; Marco Aurélio, 162; Sétimo Severo, 193; Maximino, 235; Décio, 249; Valeriano, 257; Aureliano, 274; Diocleciano e Galério, 303-313). Outros (2) entendem que “a tribulação de dez dias” se refere a dias proféticos, sendo cada dia equivalente a um ano, e se cumpriu na última grande perseguição da igreja antiga, promovida pelos imperadores Diocleciano e Galério durante dez anos, de 303 a 313. E também pode se referir (3) a um período de provação em que o cristão fiel é desafiado a manter sua obediência a Deus, assim como Daniel, Hananias, Misael e Azarias foram provados durante dez dias, mas, pela graça de Deus, passaram no teste.

Profeticamente, uma provação semelhante nos aguarda. Semelhantemente aos cristãos de Esmirna, nós também vamos passar por uma grande tribulação. Muitos de nós seremos perseguidos, presos e mortos. Mas a mesma mensagem que Jesus falou para a igreja de Esmirna, ele também fala para nós: “Não tenha medo das coisas que você vai sofrer!”

“Ninguém que recebe a Palavra de Deus está isento de dificuldades; mas, quando vem a aflição, o verdadeiro cristão não se torna inquieto, sem confiança nem desanimado. Embora não vejamos o resultado definido das circunstâncias, ou não percebamos o propósito das providências de Deus, não devemos rejeitar nossa confiança. Lembrando-nos da terna misericórdia do Senhor, lancemos sobre Ele nossos cuidados e esperemos com paciência a salvação. Pela luta a vida espiritual é fortificada. Provações bem suportadas desenvolverão a resistência do caráter. O perfeito fruto da fé, da mansidão e do amor amadurece frequentemente melhor debaixo de tempestades e trevas” (Ellen G. White, Parábolas de Jesus, p. 60, 61).

Na cidade de Esmirna eram realizados jogos atléticos. Os vencedores das provas de atletismo ganhavam uma coroa feita de folhas de louro. Em grego, a língua em que o Novo Testamento foi escrito originalmente, há duas palavras para coroa: diadema, que é a coroa de ouro usada pelos reis, e stephanos, a coroa de folhas de louro usadas pelos vencedores. Em Apocalipse 2:10 a palavra usada para coroa é stephanos, a coroa dos vitoriosos. Mais uma lição de grego: segundo especialistas, uma tradução melhor para o final do verso 10 é: “e Eu lhe darei a coroa, que é a vida.” Grandes recompensas virão para quem for fiel a Cristo, e a maior delas é a vida.

Hoje é o momento de treinar nossa fidelidade. Em breve virá a perseguição. Mas quem estiver com Jesus Cristo ganhará a coroa da vitória, a vida eterna.

FERNANDO DIAS, pastor e editor da Casa Publicadora Brasileira, está cursando mestrado em Teologia

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