Longa semeadura

Conheça a trajetória do pastor que oficiou 700 casamentos, realizou mais de 100 campanhas evangelísticas, levou milhares de pessoas a Cristo
Márcio Basso Gomes
De tudo o que o pastor Campolongo fez, a nota tônica de sua vida foi o evangelismo. O apresentador do primeiro programa evangélico veiculado pela TV brasileira descansou neste domingo, 24 de fevereiro

1962. O Brasil conquistou seu segundo título mundial de futebol, em Santiago, no Chile. No mesmo ano, o presidente João Goulart, sancionou a lei que instituiu o 13º salário, e o filme O Pagador de Promessas ganhou a Palma de Ouro em Cannes.

Sem dúvida, foi um ano de importantes conquistas nacionais. Mas não foram apenas essas. Outras duas marcaram para sempre a comunicação cristã no país: o surgimento do Quarteto Arautos do Rei e do primeiro programa evangélico da TV brasileira, Fé Para Hoje (para ver o vídeo do primeiro programa, clique aqui).

Em 25 de novembro de 1962, a extinta TV Tupi, em São Paulo, exibiu pela primeira vez a atração, que seria veiculada mais tarde em cidades como Rio de Janeiro, Brasília, Goiânia, Porto Alegre, Salvador, Curitiba, Belém e Londrina.

Posteriormente, o programa, que teve a participação de atores da TV Tupi encenando histórias bíblicas, foi transmitido por outras três emissoras: Bandeirantes, Record e Gazeta, até estrear na Novo Tempo, no dia 7 de abril de 2015 (terças-feiras, 23h30).

O orador e pioneiro desse ministério, que abriu as portas do meio televisivo para a Igreja Adventista do Sétimo Dia no Brasil e na América do Sul, foi o pastor Alcides Campolongo, um intrépido e ousado evangelista, que, com voz mansa e trabalho persistente, conduziu multidões aos pés de Cristo. Nascido no dia 13 de janeiro de 1925 na cidade de Itápolis, no interior paulista, ele esteve desde criança ligado à comunicação. Um de seus melhores amigos, o humorista Ronald Golias, trabalhou na alfaiataria da família Campolongo em São Carlos, onde o pastor mora atualmente. Golias chegou a frequentar, quando garoto, um grupo adventista na cidade do centro-leste paulista. Antes do falecimento do ator, em 2005, Campolongo o visitou algumas vezes, levando esperança ao amigo.

MÉTODO SÓLIDO

Formado em teologia em 1948 pelo então CAB (Colégio Adventista Brasileiro), hoje Unasp, Campolongo tinha um método sólido de pregar Cristo. Suas séries de evangelismo público duravam de 6 a 12 meses e incluíam instrução e confirmação dos novos adeptos. Seis meses eram dedicados às reuniões noturnas, geralmente realizadas quatro vezes por semana. Depois, era consolidada a guarda do sábado. Só então os novos fiéis eram conduzidos às igrejas locais, onde continuavam a receber atenção de qualidade.

Seria injusto prosseguir sem ressaltar o papel fundamental de sua principal colaboradora: Neide Aparecida Patrizzi Campolongo. Companheira de vida e ministério, foi pioneira ao lado do esposo no programa Fé para Hoje.

Ela conta que o esposo e o pastor Roberto Rabello, pioneiro do ministério evangélico de radiodifusão no Brasil (A Voz da Profecia, lançado em 1943), eram amigos íntimos. Segundo Neide, veio de Rabello o convite para participar do programa, feito “nos moldes americanos”. Inicialmente apreensiva e sentindo-se impotente diante do novo desafio, foi intimada por Rabello. “A senhora não quer ajudar seu esposo?”, inquiriu o dono de uma das vozes mais conhecidas na era de ouro do rádio nacional (anos 40 e 50). Relutante, ela aceitou. E não se arrependeu.

Neide lembra que, embora fosse pouco habilitada para tão grande responsabilidade, seguiu os passos que Deus tinha para o casal. E seu apoio não se restringiu à TV. Esteve ao lado do esposo de maneira ativa em muitas séries evangelísticas. Nos dias da semana em que não havia reuniões, Neide usava seus dotes culinários. Ela ensinava receitas sem carne, introduzia a soja e ensinava a tirar leite do grão. Rindo, ela se lembra de quando as mulheres faziam o leite de soja e davam para o pastor Campolongo provar. Esse não era um de seus alimentos prediletos, mas ele tomava com “alegria” o “delicioso líquido”.

Após as conferências e inicial consolidação dos fiéis, o casal se retirava aos poucos, sem despedidas tristes. A transição era feita de forma lenta e quase imperceptível. Os novos adventistas eram assimilados suavemente em seus novos lares.

Outro capítulo importante da vida de Campolongo foi a implantação de cursos contra o tabagismo no Brasil. Quando ele e a esposa foram pela primeira vez a uma assembleia da Associação Geral da Igreja Adventista, em 1962, realizada em São Francisco (EUA), participaram de um curso em um cinema sobre como deixar de fumar. Ele trouxe a ideia e uma apostila com a proposta, e começou a realizar os cursos, mas depois passou a capacitar pessoas para que dessem sequência ao trabalho, enquanto ele se dedicava ao evangelismo. O trabalho com dependentes, em parceria com o médico Ajax César da Silveira, rendeu-lhe o título de Cidadão Paulistano.

LEGADO

Um de seus legados é a ênfase no evangelismo, incluindo as pregações na semana do Calvário, embora a iniciativa não tenha surgido com ele. A solidez da obra de evangelismo feita por Alcides e a esposa foi fundamental para a consolidação do adventismo em São Paulo e a fundação de igrejas tradicionais como Casa Verde, Tucuruvi e Água Rasa.

Entre os frutos do labor de Campolongo está o atual evangelista da Divisão Sul-Americana, o pastor Luís Gonçalves, convertido em uma série realizada em Sorocaba, interior de São Paulo. Católico praticante e atuante (chegou a ser coroinha), Gonçalves, ainda jovem, assistiu a uma conferência e se interessou pela Igreja Adventista. Mais tarde, foi convidado para fazer parte da equipe do evangelista.

De tudo o que o pastor Campolongo fez, a nota tônica de sua vida foi o evangelismo. No começo do ministério serviu como auxiliar do pastor Osvaldo Azevedo, que dirigia uma série de evangelismo em Mogi das Cruzes (SP). Em seguida, foi indicado para trabalhar com o pastor Geraldo Oliveira, evangelista da Associação Paulistana na época. Após a saída de Geraldo, Campolongo assumiu as conferências. Foi também auxiliar do pastor Itanael Ferraz, e claro, fazendo evangelismo.

Campolongo ainda assumiu um distrito que abrangia as cidades de Jundiaí, Limeira e Piracicaba, indo mais tarde para Araçatuba, onde estabeleceu uma igreja como fruto de uma série de evangelismo. Dirigiu em seguida os departamentos de Evangelismo, Temperança e Comunicação da Associação Paulistana.

Quando se pesquisa sobre essa pessoa tão atuante, logo vem à mente a necessidade de comprovar tudo com números. A questão é que a cifra exata só Deus a tem. Contudo, para se ter uma ideia da grandeza do ministério de Alcides Campolongo, vale dizer que ele realizou mais de 700 casamentos, dirigiu mais de 100 campanhas evangelísticas e conduziu milhares de pessoas ao batismo.

Casados há 65 anos, ninguém melhor para definir Campolongo do que a esposa. “Escolhido de Deus!”, exclama Neide com amor e reconhecimento. Que venham outros obreiros no mesmo espírito, pois, parafraseando Cristo, “o campo é grande, mas poucos os evangelistas”.

MÁRCIO BASSO GOMES é jornalista

(Perfil publicado na edição de novembro de 2015 da Revista Adventista)

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