Os novos críticos e dissidentes

Na era da internet, eles estão mais agressivos e menos razoáveis, afirma teólogo   
Marcos De Benedicto e Márcio Tonetti
Pr. Alberto Timm: “Dá a impressão que hoje a resposta mais fácil para desavenças pessoais é simplesmente postá-las na internet”. Foto: Adventist University of Africa

O fenômeno da dissidência está presente na história do cristianismo desde muito antes de a Reforma Protestante ter preparado o terreno para uma grande fragmentação. Hoje, para se ter uma ideia, estima-se que haja mais de 33 mil denominações cristãs, segundo a World Christian Encyclopedia. O próprio adventismo nasceu como um movimento “dissidente” dentro do protestantismo.

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O fenômeno da dissidência está presente na história do cristianismo desde muito antes de a Reforma Protestante ter preparado o terreno para uma grande fragmentação. Hoje, para se ter uma ideia, estima-se que haja mais de 33 mil denominações cristãs, segundo a World Christian Encyclopedia. O próprio adventismo nasceu como um movimento “dissidente” dentro do protestantismo.

Embora não se trate de um fenômeno novo, o perfil dos críticos e dissidentes parece ter mudado na era da internet. Afinal, eles estão mais agressivos e menos embasados teologicamente. Em vez de defender ideias, atacam pessoas e mancham reputações. O poder destrutivo dos críticos da igreja na atualidade é o tema de capa da Revista Adventista de março, que também fala do impacto que a dissidência causou ao longo da história do adventismo e oferece dicas de como lidar com aqueles que atacam a organização. A seguir, você confere na íntegra a entrevista com o teólogo Alberto Timm, uma das fontes citadas na matéria principal da edição impressa deste mês.

O senhor vê alguma mudança no perfil dos críticos e dissidentes?

O espírito é o mesmo mas as estratégias mudaram perceptivelmente. No passado, depois de perderem a confiança na igreja e em sua liderança, os críticos tendiam a abandoná-la e então criticá-la de fora. Hoje eles rotulam a igreja de apóstata e corrupta, mas querem ficar dentro e se ofendem se são disciplinados por ela. Isso tem causado um impacto muito maior porque as críticas externas tendem a nos unir, mas as internas nos dividem.

Hoje há uma banalização da crítica e da dissidência?

Existe a marcante vulgarização da cultura popular que se reflete em muitas músicas populares, nos acalorados debates políticos e na própria linguagem trivial usada pelas novas gerações. Parece que a mesma atitude de desconfiança e desrespeito para com as instituições sociopolíticas acaba sendo projetada também sobre a igreja e sua liderança. Hoje, as falhas de um líder específico são atribuídas de forma generalizada a todos os líderes da denominação. Não é sem motivo que o apóstolo Pedro advertiu contra os que, não conseguindo controlar suas próprias paixões, ‘menosprezam qualquer governo’ (2Pe 2:10)

Essa seria uma das diferenças, se compararmos com movimentos históricos (como a própria Reforma Protestante) que protestaram contra problemas reais?

A Reforma Protestante foi, antes de tudo, uma reforma hermenêutica de retorno às Escrituras e de restauração dos princípios bíblicos de interpretação da Bíblia (embasados na sola Scriptura e na totaScriptura). Também Guilherme Miller, fundador do movimento Milerita, enunciou claramente no prefácio dos seus livros os princípios de interpretação bíblica por ele usados. Isso é bem diferente da tendência moderna de simplesmente enunciar conceitos e sugerir interpretações do texto sagrado sem um critério mais sólido e consistente.

Como o senhor analisa o número de casos, a virulência dos críticos e as armas que eles estão usando?

Creio que todo ser humano tem o direito de expressar suas opiniões e discordâncias dentro de um espírito ético. Mas entendo que existe uma diferença entre a “admoestação” construtiva, para ajudar a pessoa a superar seus problemas, e a “crítica” destrutiva, para acabar com a sua reputação pessoal. O critério básico foi enunciado por Cristo em Mateus 18:15-17 (NVI): “Se o seu irmão pecar contra você, vá e, a sós com ele, mostre-lhe o erro. Se ele o ouvir, você ganhou seu irmão. Mas se ele não o ouvir, leve consigo mais um ou dois outros, de modo que ‘qualquer acusação seja confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas’. Se ele se recusar a ouvi-los, conte à igreja; e se ele se recusar a ouvir também a igreja, trate-o como pagão ou publicano.” Mas hoje, lamentavelmente, muitos críticos ignoram esse critério e postam seus desafetos na internet, para que todas as pessoas (membros e não membros) tenham acesso a tais informações. E tudo isso em nome da liberdade de expressão e do espírito democrático da época!

Em que sentido a internet alimentou esse problema? Nas redes sociais, as pessoas parecem ter ficado mais “corajosas” para criticar a denominação. Muitos (inclusive alguns líderes que continuam nas fileiras da igreja) são bastante ácidos em seus comentários.

Vivemos hoje na globalização das comunicações. Marshall McLuhan afirmou: “Gutenberg transformou todos em leitores. A Xerox transformou todos em publicadores.” Outros autores acrescentaram que os computadores pessoais transformaram todos em autores, e a internet transformou todos em editores e críticos. No mundo da internet e das redes sociais não mais existe um critério ético para a “seleção” de autores. Hoje qualquer pessoa pode postar suas frustrações pessoais, suas mágoas e difamações. Dá a impressão de que hoje a resposta mais fácil para desavenças pessoais seja simplesmente postá-las na internet.

Como o senhor vê a questão dos grupos ou ministérios independentes no contexto adventista? Há que se saber diferenciá-los?

Existem muitos “ministérios de sustento próprio”, que podem ser classificados em dois grandes grupos. Um deles são os “ministérios de apoio” que atuam em harmonia com a igreja e até têm representantes da própria organização em suas comissões diretivas. O outro grupo é formado pelos “ministérios independentes” que, como o próprio nome já diz, atuam independentemente da organização e competem com ela. Normalmente, em seu “discurso oficial”, esse grupo também alega estar apoiando a igreja; mas em sua “agenda oculta” acusa a denominação de apostasia e colocam a si mesmos como os verdadeiros guardiões da verdade.

Quais têm sido as consequências da crítica e da dissidência para esses grupos e indivíduos?

No capítulo 7 de Mateus, Cristo disse que “pelos seus frutos vocês os conhecerão” (v. 20) e também admoestou: “Não julguem, para que vocês não sejam julgados” (v. 1). Podemos avaliar as atitudes das pessoas à luz da Palavra de Deus; mas não temos o direito de avaliar suas intenções, que são uma prerrogativa de Deus. Alguns olham tanto para o lado negativo das pessoas e coisas que acabam desenvolvendo um amargo perfil crítico. Esse perfil, se não for superado pelo poder da graça divina, logo se transformará em uma “segunda natureza” (E. G. White, Testemunhos Para a Igreja, v. 5, p. 289). De acordo com Ellen White, tais pessoas “estão definhando espiritualmente” e, “a menos que se reformem, não haverá no Céu lugar para elas, pois achariam defeitos no próprio Senhor” (Ibid., v. 1, p. 145).

Como a igreja deve lidar com esses movimentos?

O problema deve ser tratado em dois níveis distintos. Em primeiro lugar, devemos indagar a nós mesmos quanto das críticas está fundamentado em problemas reais passíveis de ser resolvidos. Uma vez solucionados, devemos então lidar com os movimentos em si. Com um espírito conciliador, devemos esclarecer as dúvidas e dirimir as incompreensões que possam existir, dando-lhes a oportunidade de se reconciliarem com a igreja e sua liderança. Se continuarem nutrindo um espírito belicoso contra a igreja, eles são passivos de disciplina eclesiástica como qualquer outro dissidente.

VEJA UM RESUMO DA EDIÇÃO DE MARÇO NA ENTREVISTA A SEGUIR:

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