Recomeço

Brasileiro que lidera a Universidade Adventista de Moçambique (UAM), instituição devastada pelo ciclone Idai, fala sobre a reconstrução do campus, a extensão dos danos e a ajuda humanitária adventista no país de fala portuguesa
MÁRCIO TONETTI
Brasileiro que serve a igreja em Moçambique desde 2016 afirma que a devastação provocada pelo ciclone levou a liderança da denominação a repensar a localização da universidade adventista africana. Crédito: arquivo pessoal

Além do desafio de servir em outra cultura, o pastor Heraldo Lopes terá pela frente a difícil tarefa de reconstruir a Universidade Adventista de Moçambique (UAM). A instituição, localizada na cidade de Beira, teve a maior parte da sua estrutura danificada pelo ciclone Idai, um dos mais devastadores que atingiram o sul da África nos últimos 20 anos. Nesta entrevista, o missionário brasileiro descreve o cenário pós-desastre e fala sobre as maiores necessidades da população e da igreja.

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Qual foi a extensão dos danos provocados pelo ciclone?   

Estima-se que somente no país de língua portuguesa haja 1,85 milhão de pessoas em necessidade de ajuda humanitária. O número de mortos em Moçambique já passa de 700. Mais de 100 centros de refugiados foram abertos e cerca de 500 mil pessoas perderam tudo o que tinham. A cidade de Beira foi 90% destruída. No caso da Universidade Adventista de Moçambique, localizada nessa região portuária, todas as construções foram danificadas.

A instituição ainda está com as atividades interrompidas?

Fechamos a universidade por pelo menos 15 dias. Para que as perdas não sejam maiores, vamos improvisar lugares e retomar as aulas no início de abril. Senão corremos o risco de perder estudantes, o que seria ainda pior.

Qual é o plano para reconstruir o campus?

Temos duas linhas de pensamento: reparar o que pudermos da UAM atual e procurar um novo lugar para construir uma nova UAM.

Templos e outras instituições adventistas também foram destruídos?

Todas as igrejas e escolas que estavam na área atingida pelo ciclone foram devastadas, inclusive a sede administrativa adventista local. Somente uma escola adventista onde também funciona uma igreja se manteve de pé.

Parte das ofertas missionárias deste trimestre seria destinada para a ampliação da faculdade de Nutrição. Esses recursos terão que ser direcionados para atender necessidades mais urgentes?

Os recursos das ofertas serão usados da melhor maneira possível para atender o plano previsto, bem como as necessidades urgentes. Levamos quatro anos para reestruturar a UAM e agora foi tudo embora. Mas vamos recomeçar. Precisamos de doações e orações.

Quais são as maiores necessidades da população e da igreja no momento?

A população precisa especialmente de alimentos, remédios e material de construção, já que milhares de famílias ficaram sem teto. A igreja igualmente necessita de recursos para reconstruir os prédios que foram destruídos.

De que maneira pessoas de outras partes do mundo podem ajudar?

Foi definido que as doações para a reconstrução da Universidade Adventista de Moçambique serão contabilizadas e processadas pela Associação Geral, por meio do Departamento de Missão Global. Qualquer pessoa e igreja podem dar sua contribuição. É possível fazer doações diretas em dinheiro através do seguinte endereço: gm.adventistmission.org/giving. Para isso, é preciso seguir os seguintes passos: (1) Clique na opção “Donate”; (2) depois, no menu intitulado “My donation is for*”, clique na opção “Other – Put details in comments below”; (3) abaixo de “Payment Information”, preencha o campo “Comments” com a seguinte informação: “Mozambique Adventist University Storm Relief – Cyclone IDAI”; (4) por fim, insira os dados do doador. A ADRA internacional também está captando recursos (para saber como doar através da ADRA, clique aqui).

Como a agência humanitária adventista respondeu ao desastre?

Assim que a comunicação foi restabelecida, a ADRA se dispôs a ajudar não apenas a universidade, mas também a comunidade local. Quando ocorrem desastres assim, a agência humanitária adventista sempre é uma das primeiras a chegar.

Você já havia se deparado com uma catástrofe dessas proporções?

Nunca! A realidade aqui é pior do que as notícias apresentam. Sobrevivemos por milagre. O fato de o ciclone ter retornado com força ainda maior entre uma e quatro da manhã tornou a situação mais dramática. Não tem como descrever a força dos ventos, o som assustador, as coisas indo embora e, no nosso caso, o prédio da Reitoria desabando sobre nós. Ainda bem que os estudantes não se feriram. Continuamos sem eletricidade e abastecimento de água. Todas as residências de pessoas que trabalham na instituição foram destruídas. Flexibilizamos o horário para que eles possam trabalhar na limpeza da UAM e recuperar suas residências também. Estamos dormindo no chão, em pequenas salas que sobraram. O que eu disser aqui não será suficiente para descrever a realidade. Foi o maior ciclone da história e nós estávamos no meio dele.

Quais são seus planos para a Universidade Adventista de Moçambique nos próximos anos?

Consertar os danos e procurar um novo local, pois o atual não é o melhor conforme pudemos perceber. Além disso, pretendemos criar novos cursos e formar muitos missionários para cumprir a missão em Moçambique e no mundo.

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