Religando ao corpo de Cristo

Ministério criado no Brasil com o objetivo de reconectar pessoas que deixaram de frequentar a igreja recebe destaque em congresso nos Estados Unidos
MARCOS PASEGGI
O projeto Roupão da Fé, que nasceu por iniciativa de um membro da igreja em São Paulo, têm inspirado ações semelhantes em outras regiões do Brasil e da América do Sul. Foto: União Central-Brasileira

Apesar do crescente número de pessoas que decidem se tornar membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia, a taxa de perda líquida da denominação ainda é alta: 4 em cada 10 novos membros deixam a igreja, de acordo com um relatório apresentado nesta semana pelo departamento de Arquivos, Estatística e Pesquisa (ASTR, na sigla em inglês) da Associação Geral.

O problema principal é que “muitas congregações têm um alto nível de conflito que parece afastar as pessoas”, conforme disse David Trim, responsável pelo setor, em sua apresentação no Nurture and Retention Summit, congresso realizado na sede mundial adventista, em Silver Spring, Maryland (EUA), no dia em 7 de abril.

Apesar disso, Trim explicou que a maioria dos adventistas do sétimo dia que deixam de frequentar a igreja não investem em outra comunidade de fé, e muitos continuam interessados no que está acontecendo na igreja. “Muitos estão esperando por nós para alcançá-los e amá-los com o amor do pastor e do pai em Lucas 15”, ele enfatizou, exemplificando com duas conhecidas parábolas de Jesus. “Mais de três quartos estão abertos para se reconectarem com a igreja, se a abordagem for feita da maneira certa”, frisou.

Por isso, a igreja ao redor do mundo tem tentado religar essas pessoas ao corpo de Cristo. Talvez, nenhuma região tenha tido mais sucesso nesse trabalho do que a Divisão Sul-Americana. De acordo com estatísticas da sede administrativa no continente, no período de 2014 a 2018, 154.202 ex-membros retornaram à igreja nos oito países que compõem esse território. Esse número representou 12,9% do total de batismos realizados no período. Na União Central-Brasileira, 18,2% dos batismos são, na realidade, rebatismos, de acordo com o pastor Emmanuel Guimarães, secretário do escritório da igreja para o estado de São Paulo.

Em sua participação no evento, ele explicou que esses números não são resultado do acaso, mas de sincera oração e planejamento cuidadoso. O pastor Guimarães contou que os líderes da igreja perguntaram aos membros rebatizados qual foi o fator decisivo para que eles retornassem. Segundo ele, a maioria dos entrevistados afirmou que foi saber que alguém estava orando por eles e encontrar pessoas que realmente demonstraram amor e cuidado.

Diante dessas respostas, a igreja buscou novos meios de alcançar quem deixou de frequentar nossos templos. Há alguns anos, por exemplo, um empresário de São Paulo teve uma ideia. Ao perceber que muitos que acompanhavam suas séries evangelísticas eram ex-membros, ele decidiu fazer-lhes um convite diferente para que voltassem. No fim de suas mensagens, o pregador entregava uma beca batismal gratuita com a seguinte sugestão: “Guarde isso para o dia em que você estiver pronto para voltar e ser rebatizado”. Guimarães disse que algumas dessas vestes ficaram guardadas por semanas, meses ou até um ano, esperando a decisão da pessoa.

O projeto foi adaptado para outras regiões, conforme relatou à Adventist Review o presidente do Divisão Sul-Americana, pastor Erton Köhler. Recentemente, uma sede administrativa da igreja no Brasil produziu 8 mil vestes batismais para serem entregues a ex-adventistas.

O programa, inicialmente chamado de Roupão da Fé, evoluiu para uma iniciativa mais intencional, disse o pastor Köhler. “Atualmente, muitos membros da igreja recebem uma beca batismal que eles podem embrulhar e personalizar como presente para um ex-membro em particular”, ele relatou. “Quando um membro da igreja faz uma visita ao antigo membro, ele entrega à pessoa a roupa batismal e lhe faz o convite para voltar”, acrescenta. O pastor Köhler também explicou que o objetivo é que, após o rebatismo, a pessoa que decidiu voltar para a igreja presenteie outra pessoa com a roupa batismal.

Ações intencionais

Os líderes da igreja concordam que qualquer iniciativa de resgate bem-sucedida requer planejamento cuidadoso e deliberado. Esse é o ímpeto do projeto Reencontro, implementado na América do Sul.

De acordo com o pastor Magdiel Pérez Schulz, assessor especial do presidente mundial da igreja, o programa inclui uma estratégia intencional para envolver os membros. “É necessário que os assistentes de treinamento, os diáconos e os anciãos sejam calorosos, amigáveis e nunca julguem quando os ex-membros começam a se religar à igreja”, ele enfatizou. Entre outras coisas, também inclui manter os membros ativos, envolvendo-os imediatamente na vida da igreja.

A região desenvolveu uma série de recursos, incluindo um panfleto para os membros, que explica em que consiste esse ministério, e cartões de convite personalizados. Além disso, em um sábado por ano é realizado um programa especial com ênfase no Reencontro. “O sermão desse dia geralmente fala de como é bom fazer parte da família de Deus”, conta o pastor Magdiel, que, durante cinco anos e meio, atuou como secretário da sede sul-americana. Para ele, todas essas ações têm levado muitas pessoas a dar uma segunda chance à igreja.

MARCOS PASEGGI atua na equipe da Adventist Review

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