Os traumas de infância e os reflexos na saúde mental

Estudos mostram que situações traumáticas na infância podem desenvolver não apenas problemas emocionais, mas também físicos na vida adulta
Foto: Mizina/Adobe Stock

Há muito tempo a saúde mental ficou no escuro. Devido ao estigma associado ao tema, ele se tornou um tabu social. Porém, nos últimos anos os defensores da saúde mental têm trabalhado arduamente para trazer esse tópico aos olhos do público. Celebridades, atletas e outras figuras públicas estão, pela primeira vez, revelando seus problemas emocionais.

Reconhecendo a saúde mental como um tema importante, nós, como sociedade, somos capazes de entender as questões e preocupações em um sentido mais profundo. Além disso, podemos trabalhar para oferecer apoio e assistência àqueles que sofrem de doença mental.

Em uma apresentação recente à Associação Adventista de Pesquisadores de Assuntos Humanos (AHSRA, na sigla em inglês), David Williams, professor de saúde pública e sociologia na Universidade Harvard, reforçou que a saúde mental é uma parte importante da saúde geral, ênfase que os adventistas têm dado ao longo de sua história.

Outro ponto enfatizado por ele foi que muitos problemas de saúde têm origem nas Experiências Adversas na Infância (ACEs, na sigla em inglês), decorrentes de abuso psicológico, físico ou sexual; negligência emocional ou física; uso de álcool ou drogas pelos pais, perda de alguém, depressão, violência doméstica ou a prisão de um familiar.

Um estudo publicado em 2016 no American Journal of Preventive Medicine mostrou que, embora mais da metade (52%) das crianças e adolescentes norte-americanos cheguem aos 17 sem sofrer experiências traumáticas, 25% deles enfrentam pelo menos uma experiência adversa na infância. Ainda mais preocupante foi a constatação de que quase o mesmo número (23%) experimenta dois ou mais episódios.

A mesma pesquisa revelou que, quanto mais ACEs a criança experimenta, maiores são as chances de se tornar uma pessoa deprimida quando adulta. Na verdade, as crianças que sofrem cinco ou mais experiências traumáticas têm cinco vezes mais probabilidade de apresentar depressão na fase adulta do que aquelas que não experimentam nenhuma.

No entanto, a adversidade da infância não está associada apenas a futuros problemas de saúde mental, mas também a complicações físicas. Pesquisas mostram que crianças que experimentam cinco ou seis ACEs são quase duas vezes mais propensas a sofrer doenças cardíacas do que crianças que não experimentam ACEs. Por sua vez, aquelas que sofrem sete ou oito ACEs são quase três vezes e meia mais propensas a sofrer doenças cardíacas do que as que não passaram por grandes traumas na infância.

Por outro lado, estudos adicionais revelaram que o apoio emocional e instrumental na infância está associado à menor desregulação biológica na meia-idade. Além disso, experiências positivas na infância estão indiretamente associadas à saúde cardiovascular ideal, por meio da educação e do apoio social.

Como a igreja pode responder a tudo isso? O doutor Williams acredita que um “ministério de saúde abrangente deve incluir a promoção da saúde mental como parte de uma vida abundante”. Não podemos simplesmente nos concentrar em ministrar à saúde física das pessoas e negligenciar sua saúde mental.

Embora não possamos desfazer o dano causado no passado, podemos “transformar nossas comunidades religiosas de fontes de conflito e crítica em fontes de amor, alegria, encorajamento e esperança”, conforme sugere o professor Williams. Ele acredita que, ao fazer isso, criamos um lugar seguro para aqueles que estão desesperadamente necessitados de salvação, amor e cura.

Como igreja, é hora de remover o estigma associado à doença mental. Precisamos abrir nossas portas para os necessitados e mostrar-lhes o amor transformador e a bondade de nosso Deus. [Equipe do Escritório de Arquivos, Estatística e Pesquisa da sede mundial adventista / publicada no site da Adventist Review]

Veja também

Menos é mais

Apesar da pressão da sociedade consumista atual, o que possuímos não deve nos possuir nem nos definir.