Maestro incansável

Conheça a trajetória do músico que lançou as bases para a formação de várias gerações de artistas adventistas
Foto: Herbert Ferreira

A vida do pastor e maestro Flávio Araújo Garcia já ressoa há pelos menos 85 anos. Isso porque aos quatro ele começou a cantar com a mãe e não parou mais. Hoje, aos 89 anos, seu culto matinal inclui cantar cinco músicas sequenciais do Hinário Adventista do Sétimo Dia (HASD). Cantar foi a maneira que ele encontrou para lidar com as dores frequentes que sente nos membros do corpo depois que foi submetido a uma cirurgia na coluna em 2015. De lá para cá, ele já cantou dez vezes toda a coleção de 610 músicas do HASD.

Apesar de ter se destacado como um dos grandes influenciadores da música adventista no Brasil, o maestro Flávio não descuida de suas atividades pastorais. Recentemente, mesmo com as limitações causadas pela idade e a saúde debilitada, ele pregou num domingo de junho, às 4h45, no Culto da Mata, programa que reúne centenas de pessoas há anos num espaço de mata atlântica preservada, no campus do Unasp, em São Paulo.

Aliás, foi nessa instituição de ensino que ele passou a maior parte da vida, produzindo e ensinando música. Dono de uma memória surpreendente, datas, nomes e histórias são contadas por ele com precisão. Filho de Jerônimo Granero Garcia, importante pioneiro adventista no Brasil, Flávio nasceu no Bairro do Brooklin, na capital paulista, em maio de 1929. Na época, seu pai pastoreava na cidade de Socorro (SP).

Flávio se lembra também da viagem de trem em que a família mudou do interior paulista para o Rio Grande Sul, onde seu pai ajudou na construção da Igreja Central de Porto Alegre, no tempo em que trabalhou na cidade de Santa Maria (RS). O maestro não se esqueceu também do navio que os levou de mudança, três anos mais tarde, para o novo campo missionário do pastor Jerônimo Garcia: o Nordeste brasileiro. Já aos 11 anos de idade, em 1940, Flávio viria em definitivo para o então Colégio Adventista Brasileiro (CAB), atual Unasp, onde seu pai trabalharia como professor do seminário teológico e diretor da instituição.

VOCAÇÃO MUSICAL

O maestro e pastor, na verdade, queria ser médico. Ele até tirou as melhores notas do processo seletivo, mas desisitiu de disputar as etapas posteriores porque as provas foram realizadas no sábado. Envolvido com a música do colégio desde o início de sua trajetória estudantil, era um dos tenores do Coral Carlos Gomes quando, aos 19 anos, recebeu o desafio de reger o coral no lugar do maestro Walter Wheeler Jr.

Foi então que, além da formação para o ministério pastoral, ele passou a se dedicar ao aperfeiçoamento musical. Seu primeiro período como regente do principal coral da escola durou até março de 1949. Após uma rápida passagem como pastor de igrejas e escolas da capital paulista, ele voltou para o CAB com a responsabilidade de reger novamente o coral e ministrar aulas de música. Nessa época, concluiu o curso de Educação Artística e se dedicou a estudar canto orfeônico e outras especialidades vocais e instrumentais. Sua passagem pelo tradicional Conservatório Dramático e Musical de São Paulo lhe rendeu contatos com grandes músicos e maestros da capital.

No conservatório ele também aprendeu sobre fraseologia musical com a professora Sofia Melo de Oliveira. A técnica auxilia na correta compreensão e interpretação da intenção do autor ou compositor, dando pontuação específica para a linguagem musical conforme os princípios da harmonia e do ritmo. Segundo o maestro, o hinário adventista Cantai ao Senhor, lançado em 1956, é o único no mundo a usar essa técnica em sua versão com música. Flávio Garcia foi um dos responsáveis pela produção do material.

Em 1957, ele assumiu a direção do conservatório musical do campus, que mais tarde seria chamado de Academia Adventista de Arte (Acarte). Foi sob sua gestão que os prédios do conservatório e as salas anexas de ensaio foram construídos. Por causa de sua visão empreendedora, ele tambem investiu na compra de instrumentos e na qualidade do ensino musical.

Nessa época, Flávio estava se casando com Dilza. O casal não teve filhos. Porém, o companherismo na vida e na música lhes rendeu um ministério frutífero. Sua esposa havia concluído duas graduações em música pela PUC de Campinas quando chegou ao colégio para ser professora. Juntos eles percorreram o país, ministrando aulas técnicas e teológicas sobre música cristã. Dilza também foi pioneira no evangelismo infantil. Ela ajudou na elaboração de um hinário para crianças e na formação de esposas de pastor que desejavam atuar na área. Foi aluna dela, por exemplo, Zilda Azevedo, que mais tarde gravaria alguns LPs infantis. Dilza também preparou apostilas sobre evangelismo infantojuvenil para serem usadas por missionários na Europa e na África.

PAI DE UMA ESCOLA

Dos 25 anos que esteve à frente do Coral Carlos Gomes, Flávio Garcia guarda muitas memórias com precisão. Por exemplo, a produção e distribuição do disco de vinil Hinos Pátrios. O material teve grande adesão do público em geral e se tornou o disco mais vendido da história da instituição. A venda do LP servia também como fonte de renda para os alunos que o comercializavam e de recursos para o conservatório musical.

Sempre amigável, cortês e dedicado ao trabalho, Flávio mantinha bom relacionamento com os principais músicos e maestros da capital, o que possibilitou que o coral que regia se apresentasse em grandes teatros e salas culturais de São Paulo e do Brasil. Uma das parcerias mais duradouras foi com Eleazar de Carvalho, maestro brasileiro que estudou nos Estados Unidos e regeu algumas das orquestras mais importantes do Brasil e do mundo. Por diversas vezes, Garcia foi convidado por Carvalho a participar de concertos de temática sacra à frente do coral Carlos Gomes e, depois, com a Associação Coral Adventista de São Paulo (Acasp), grupo que o maestro adventista fundou e ensaia até hoje em sua própria casa.

Foram frequentes também as apresentações junto à Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e na TV Tupi. Antes de cada apresentação, Garcia tinha a oportunidade de testemunhar de sua fé ao orar com os músicos. A parceria com Eleazar de Carvalho se estendeu por 23 anos, até Carvalho falecer em 1996, vítima de câncer.

Para o pastor Jael Eneas, diretor geral espiritual do Unasp e pesquisador da história dos hinários adventistas, Flávio Garcia contribuiu para que a Igreja Adventista fosse respeitada no circuito paulistano de corais. O pesquisador entende que a história da música adventista pode ser dividida em grandes períodos, que vão de 1940 a 1990. O primeiro, sob a influência de Walter Wheeler Jr, teve forte inspiração no formato norte-americano. Por sua vez, seu sucessor, Flávio Garcia, elevou a produção adventista ao aproximá-la da música clássica brasileira da época. Na sequência, ele enxerga a contribuição do maestro Willians Costa Jr., pioneiro num estilo mais contemporâneo, que predomina até hoje na igreja.

“Quando Deus faz o chamado, se a gente executa a vontade Dele, só podemos receber bênçãos. É o que eu recebi até agora”, resume o maestro, que se mostra incansável no exercício de sua vocação. Apesar de dizer que tem o senso de missão cumprida, confessa que pede a Deus que lhe permita testemunhar sobre a volta de Cristo até que venha a descansar.

Descanso por enquanto é o que ele não tem. No último sábado de julho, regeu o Hino da Batalha durante o reencontro que reuniu ex-integrantes de várias gerações do Coral Carlos Gomes; entre eles, pessoas que influenciou e que ainda dão o tom na música adventista, como Flávio Santos, Lineu Soares, Wanderson Paiva, Marcelo Martins e Josué de Castro.

MURILO PEREIRA é jornalista

(Perfil publicado na edição de setembro de 2018 da Revista Adventista)

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