Vida dedicada à música

Morre, aos 89 anos, Flávio Garcia, influente pastor e maestro que tornou a música adventista conhecida e prestigiada fora do meio religioso
Foto: Herbert Ferreira

“Com quem você iniciou seus estudos em música, maestro Flávio?” O que responderia Flávio Garcia, maestro que regeu o Coral Carlos Gomes e a Associação Coral Adventista de São Paulo (ACASP), que fez parceria com o mundialmente célebre maestro brasileiro Eleazar de Carvalho e se apresentou junto à Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo?

Talvez ele pudesse responder que iniciou e aprimorou os estudos com seus professores do curso de Educação Musical, o qual ele concluiu em 1952, ou com aqueles professores do curso de Canto, concluído em 1962, ou então com os de Composição e Regência, concluído em 1972.

A busca pelo aperfeiçoamento emoldurou suas habilidades musicais e seu empenho ao ensino e prática de música erudita. Logo seu trabalho ganhou reconhecimento no meio musical paulista. Não foram poucas as vezes em que ele e o Coral Carlos Gomes participaram de concertos junto com orquestras sinfônicas e grandes maestros nacionais e internacionais, levando a prática musical dos adventistas a alcançar alta consideração para além do meio religioso. Como diz o violonista e doutorando em música Felipe Garibaldi, “uma das maiores lições que o maestro Flávio Garcia nos deixa é a transposição das fronteiras religiosas/denominacionais através de um trabalho de excelência na música”.

Voltando à pergunta inicial, Flávio Garcia poderia ter dito que o início dos estudos nem foi tão importante, pois relevante mesmo teria sido sua passagem como diretor do Conservatório Musical Adventista (atual Academia Adventista de Arte – ACARTE), sediado no Unasp, campus São Paulo. Foi ali que ele se tornou um farol que iluminaria os passos musicais de futuros regentes e compositores da Igreja Adventista, como Lineu Soares, Flávio Santos, Marcelo Martins, Wanderson Paiva e Williams Costa Jr. Aliás, Flávio Garcia não só ensinou música como também acolheu jovens músicos que chegavam ao Instituto Adventista de Ensino (IAE, atual Unasp-SP) para estudar música: “Fui de Recife para São Paulo com 18 anos. Queria fazer faculdade de Música, mas não tinha onde ficar nem o que comer. O maestro Flávio me acolheu e me deu casa e comida para que eu pudesse estudar. Conseguiu um quartinho no prédio do dormitório masculino do IAE. Meu primeiro trabalho como músico foi ensaiar os alunos de canto do maestro Flávio e de sua irmã, Helena Garcia. Depois, comecei a fazer arranjos para o Coral Carlos Gomes. Eu o admirava muito, observava o que fazia, especialmente como maestro”, relata o pastor Costa Jr.

Outro de seus alunos é o maestro Turíbio de Burgo, que se lembra do mestre com afeição: “Durante os anos em que ele foi meu professor, recebi o fundamento de meu modo de pensar, sentir e fazer música”.

Mais uma vez voltando à pergunta inicial, talvez o maestro Flávio pudesse citar que foi iniciado na música pelas mãos de Walter Wheeler Junior, regente do Coral do Colégio Adventista Brasileiro (primeiro nome do atual UNASP-SP), do qual Flávio Garcia fazia parte como um jovem tenor. Foi ali, ainda aos 19 anos, que ele recebeu o convite para substituir o maestro americano. Desde 1949, Flávio não parou mais de reger nem de influenciar regentes. Como conta o compositor e maestro Cleiton Schaefer, “em 1995, quando assumi o Coral Jovem do IAE (hoje Jovem Coral do UNASP-SP), o maestro Flávio me concedeu aulas particulares de regência. Naqueles poucos meses de aulas com ele, pude conhecer melhor a pessoa de caráter, consagrada e generosa que ele era”.

“Enfim, maestro Flávio, com quem você iniciou seus estudos em música?” A essa pergunta o maestro costumava responder simplesmente: “Iniciei meus estudos em música com a minha mãe”. O segundo dos quatro filhos do casal Ana e Jerônimo Garcia nasceu em 20 de maio de 1929, na cidade de São Paulo, e cresceu tanto a ponto de se tornar um gigante da música sacra. Mas o maestro brasileiro dos acordes iniciais da música adventista em nosso país fazia questão de dizer de onde vinha seu apreço pela música. Depois de uma vida dedicada à música, o maestro Flávio Garcia faleceu dia 7 de maio, aos 89 anos de idade.

Os músicos e cantores que o tiveram como regente, professor e/ou que trabalharam com ele, não importa a época, relembram a importância dele na sua formação: “É, com certeza, uma grande perda. Sua vida serviu de inspiração para muitos, e eu sou um deles” (Cleiton Schaefer). “Temos uma imensa dívida com ele. Primeiro, porque sem ele a música na Igreja Adventista não seria o que é hoje. Segundo, porque sua influência é tão grande que quem não estudou nem trabalhou com ele deve ter estudado ou trabalhado com alguém que o conheceu pessoalmente” (Elias Tavares, violista e professor de música). “O maestro Flávio foi uma inspiração, não apenas como músico, mas principalmente como cristão” (Turíbio de Burgo). “Agora que ele descansa, fica o legado de um idealista, um músico extraordinário” (Williams Costa Jr.).

Entre as tantas lições que é possível aprender com sua trajetória musical, fica também a percepção de quanto é importante ser um professor dedicado e quanto é relevante ter pais que sejam uma influência benéfica e sadia para a prática musical dos filhos. Como diz o músico Luciano Bérgamo, “o maestro Flávio foi um símbolo de dedicação ao ensino. Devo a ele a vivência musical da minha família, pois meu pai, quando jovem, cantou no coral que ele regia. O maestro lhe ensinou o amor pela música que meu pai transmitiu a todos nós em casa”.

JOÊZER MENDONÇAdoutor em Musicologia (Unesp) com ênfase na relação entre teologia e música na história do adventismo, é professor na PUC-PR e autor dos livros Música e Religião na Era do Pop e O Som da Reforma: A Música no Tempo dos Primeiros Protestantes

SAIBA +

Leia também o perfil do maestro Flávio Garcia publicado na edição de setembro de 2018 da Revista Adventista

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