90 anos depois

Ao longo da história, a igreja na Europa enviou missionários para a África e Ásia, mas hoje o adventismo no continente está se voltando para os desafios dentro de suas próprias fronteiras
Raafat Kamal (no centro), presidente da Divisão Transeuropeia, Audrey Andersson, secretária executiva, e Nenad Jepuranovic, tesoureiro, durante a celebração dos 90 anos desse território administrativo da igreja no continente. Foto: Victor Hulbert

Há três coisas essenciais para uma boa festa: convidados, um bolo e um bom discurso. Os líderes da Divisão Transeuropeia descobriram que tinham todos os três em abundância quando se reuniram para uma comemoração de 90 anos na tarde de sábado, 18 de maio.

O doutor David Trim, historiador e diretor do departamento de Arquivos, Estatísticas e Pesquisa da sede mundial da igreja retornou à sua alma mater, o Newbold College, para apresentar uma palestra com um título intrigante: “Tornar-se Europeia: A Divisão Transeuropeia depois de 90 anos”.

Para entender o título, você precisa entender o histórico.

Em agosto de 1928, líderes adventistas europeus, juntamente com líderes da sede mundial da igreja, se reuniram no Seminário Marienhoehe, perto de Darmstadt, na Alemanha, para traçar um futuro para a Europa. Na época, havia apenas uma Divisão (nome dado às sedes continentais da igreja) na Europa. No entanto, a visão do continente era voltada para a missão e, além do evangelismo dentro do seu próprio território, estava enviando missionários para a África, Ásia e outros lugares. Havia uma forte consciência de que, para o avanço da missão, essa única Divisão precisava se dividir. Isso aconteceu no dia 31 de dezembro de 1928, quando a Divisão Europeia deu lugar às Divisões Central, Sul e Norte-Europeia.

Mapa da antiga Divisão Norte-Europeia em 1929, ano em que passou a se chamar Divisão Transeuropeia. Imagem: General Conference Archives

Ao longo de nove décadas de existência, a então Divisão Norte-Europeia passou por várias mudanças de nome, de território e de foco. Também viveu a Grande Depressão, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria, a mudança do colonialismo para a independência em seus territórios tradicionais de missão e, com ela, um crescimento forte e vibrante na liderança nacional nesses mesmos territórios.

No entanto, apesar de tudo isso, a missão sempre esteve no centro. Durante o primeiro conselho de inverno, a liderança da nova sede administrativa declarou: “Nos comprometemos com Deus a fazer todo o esforço para levar a mensagem do advento a muitos milhões nos países da Divisão Norte-Europeia, incluindo seus grandes campos missionários”.

Esses territórios fora da Europa estavam principalmente na África Ocidental, onde, ao longo dos anos, os adventistas europeus apoiaram mais de mil missionários. A igreja lá cresceu forte enquanto, em anos mais recentes, a “igreja-mãe” europeia passou a enfrentar o crescente secularismo e materialismo. As taxas de crescimento em casa diminuíram, exceto para aqueles países, como as Ilhas Britânicas, que viram uma imigração significativa.

O que está claro é que o adventismo europeu, e particularmente o adventismo escandinavo e britânico, historicamente tiveram um impacto significativo no crescimento da igreja em grandes áreas do mundo. Hoje o foco mudou. Realinhamentos territoriais significam que a região administrativa que hoje é conhecida como Divisão Transeuropeia não tem mais um território de missão fora de si mesmo. Hoje o foco está em construir uma missão na Europa.

Missionários britânicos enviados pela igreja no período de 1907 a 1927. Imagem: General Conference Archives

Para ilustrar isso, Trim observou que “Europa” sempre esteve no título, mas que, nos primórdios da Divisão Transeuropeia, a paixão pela missão se concentrou na África e depois na Ásia. Esse fato foi evidenciado pelas mudanças de nome da sede administrativa, que já foi chamada de Divisão Norte-Europeia África Ocidental. Mesmo depois que passou a se chamar Divisão Transeuropeia, o campo manteve conexões com a missão no Sudão do Sul, Oriente Médio e Paquistão. Porém, na última década esses territórios também foram realinhados em outros lugares. Assim, pela primeira vez em sua história, a Divisão Transeuropeia se tornou apenas europeia. A missão está agora concentrada principalmente na Europa e na miríade de desafios que o continente enfrenta hoje.

Revisando uma história repleta de estatísticas, Trim colocou a seguinte questão: “O crescimento da igreja nos campos missionários ocorreu às custas do evangelismo nos países de origem?” Com uma lição desafiadora para hoje, ele perguntou: “Será que esforço para traduzir o adventismo para a linguagem cultural da Europa foi o mesmo empregado na África?” Trim observou que a igreja institucional organizada não investiu tanto na tradução do idioma americano para o contexto europeu. Segundo ele, algo que contribuiu para isso foi a visão de que a Europa já era cristã.

David Trim, diretor do Departamento de Arquivos, Estatística e Pesquisa da igreja mundial: O adventismo na Europa precisa ser mais relevante em seu próprio contexto. Foto: Victor Hulbert

Em última análise, a palestra foi sobre a missão. As grandes questões para Trim foram: “Os adventistas europeus do século 21 são capazes de se ajustar às mudanças? A Divisão Transeuropeia pode simplesmente ser europeia? A igreja ali pode aprender a prosperar em meio ao secularismo, à apatia e aos “ismos” que parecem cercá-la?”

Talvez, conforme sugeriu Trim, o adventismo europeu precise concentrar suas energias em ser tão fluente na cultura europeia quanto foi no passado em outros campos missionários. Ou seja, o adventismo deve concentrar verdadeiramente suas energias em ser europeu.

VICTOR HULBERT é pastor e atua como líder do departamento de Comunicação da Divisão Transeuropeia (Com colaboração de Helen Pearson)

(Publicada originalmente no site da Divisão Transeuropeia)

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