Mudança para a cidade

De origem rural e norte-americana no século 19, hoje a Igreja Adventista precisa falar (e ser ouvida) no cenário urbano do século 21 
WENDEL LIMA
Crédito da imagem: Guilherme Silva e Adobe Stock

As cidades são lugares em que a cultura floresce e a civilização alcança seus pontos mais altos de complexidade e sofisticação. Onde a densidade e diversidade de interações supostamente incentivam inovações de todas as formas. […] Nas cidades a civilização se desenvolveu primeiro”, analisa Patrick le Galès, diretor da escola de estudos urbanos do Sciences Po, instituição francesa especializada em ciências sociais.

Não são somente os teólogos e missiólogos que estão com o olhar sobre as cidades. Antes deles, muitos estudiosos de outras áreas já procuravam entender um fenômeno que tem mudado radicalmente o mundo nos últimos 200 anos: a urbanização. E se no passado a atenção esteve mais sobre as cidades europeias e norte-americanas, arquétipos da revolução industrial, agora as metrópoles do chamado sul global, onde o cristianismo mais cresce, também passam a ser estudadas.

Esse crescimento demográfico é muito dinâmico e tende a se intensificar, segundo a ONU. Se há dez anos, pela primeira vez na história, nosso mundo era mais urbano do que rural, até 2050 perto de 70% da humanidade estarão vivendo nas cidades. Isso desafia completamente a ação missionária cristã, cujo objetivo é concluir a evangelização global (Mt 28:18-20), mas é um desafio especial para o adventismo (Ap 14:6-12), que nasceu num contexto rural norte-americano do século 19 e hoje precisa falar, e ser ouvido, no cenário urbano do século 21.

TENSÃO HISTÓRICA

Nem sempre a missão nas cidades esteve na nossa lista de prioridades. Na verdade, apesar de o adventismo ter experimentado sua expansão no contexto urbano, inclusive no Brasil, parece que mantivemos um discurso depreciativo em relação à urbe. Estar nas metrópoles pode não ter apagado do imaginário adventista o ideal de viver no campo, seja por desejarmos mais saúde e qualidade de vida, vermos na cultura urbana uma ameaça para a moralidade ou ainda por temermos que a futura perseguição contra o povo de Deus comece pelas grandes cidades.

Porém, se dependesse de Ellen G. White, que testemunhou o profundo impacto do processo de industrialização e urbanização vivenciado pelos Estados Unidos de sua época, a Igreja Adventista já teria avançado mais nas aglomerações urbanas. De acordo com o teólogo R. Clifford Jones, a pioneira se incomodava com a letargia da liderança denominacional em propor uma estratégia para as metrópoles emergentes, como Nova York, pois ver as cidades sendo alcançadas pela mensagem adventista era quase uma obsessão da profetisa (Enciclopédia Ellen G. White [CPB, 2018], p. 904).

Na verdade, assim como outros autores de seu tempo, a pioneira adventista tinha uma visão ambivalente sobre as ­cidades. Apesar de ter escrito muito a respeito da evangelização das metrópoles, ela também promoveu a vida no campo como a melhor opção para a saúde e a espiritualidade dos adventistas (Testemunho Para a Igreja, v. 7, p. 87), pois assim eles evitariam ser contaminados com o crime, o caos, a corrupção e os problemas sanitários das cidades da época.

Ela também escreveu que, idealmente, as instituições adventistas de saúde, educação e editoriais deveriam ser estabelecidas no interior ou no subúrbio dos grandes centros. Desse modo, os funcionários das instituições poderiam se deslocar até as metrópoles para participar da evangelização (Evangelismo, p. 76), tendo como base de apoio nas cidades as igrejas, os restaurantes vegetarianos e as livrarias (centros de influência). Segundo o historiador George Knight, existem 22 referências a esse modelo de evangelização, o que Ellen White chamou de “postos avançados” (Enciclopédia Ellen G. White, p. 756).

A pioneira também entendeu que essa orientação podia ser flexibilizada conforme a necessidade. Pragmática, ela entendia que a missão vem primeiro. Além disso, tinha o bom senso de reconhecer a distância entre o ideal e o real. Por isso, chegou a recomendar que escolas fossem estabelecidas nas grandes cidades para atender os mais pobres (Testemunhos Para a Igreja, v. 9, p. 201). Também aconselhou que algumas famílias se mudassem para metrópoles, a fim de que fizessem um trabalho pessoal com seus vizinhos (Testemunhos Para a Igreja, v. 9, p. 128; Serviço Cristão, p. 180), e que as igrejas servissem de “memoriais de Deus” nos centros urbanos (Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 358). Ela também chegou a elogiar o trabalho do pastor Stephen Haskell e sua esposa, Hetty, em Manhathan como um modelo para outras metrópoles (Evangelismo, p. 385-386).

Conforme o teólogo Denis Fortin pontuou, foi por causa de uma leitura seletiva a respeito dos escritos de Ellen White que se cristalizou no adventismo uma visão “idílica dos benefícios morais e sociais da vida no campo”. Para ele, esse discurso antiurbano é bem exemplificado pelo livreto Country Living (1946), compilação póstuma da pioneira publicada em português como Vida no Campo (1966). Segundo Fortin, esse livreto foi um dos mais influentes na igreja, causando profundo impacto na filosofia de educação, vida familiar e métodos de evangelismo dos adventistas (Enciclopédia Ellen G. White, p. 1361).

Ao longo da história do adventismo, a tensão campo-cidade pode ser verificada em documentos da igreja, artigos das revistas denominacionais, na mudança de instituições de regiões metropolitanas para o interior e na restrição da frequência dos membros a espaços de entretenimento que tiveram sua origem e/ou desenvolvimento na cultura urbana. Além disso, num momento ou outro da história do adventismo, grupos ou movimentos surgiram defendendo que já era a hora de deixar as cidades. Alguns deles, nem todos, encontraram a motivação para isso numa visão distorcida a respeito da reforma de saúde, do conceito de santidade e das profecias bíblicas.

MUDANÇA NO DISCURSO

Nas últimas décadas do século 20, é possível perceber uma mudança no discurso denominacional, no sentido de assumir uma postura mais equilibrada e pró-ativa em relação a um mundo que continua a migrar para as cidades. Essa ênfase vai ficar ainda mais clara no anos 2010. Numa conferência sobre evangelização das cidades, em setembro de 2013, G. T. Ng, secretário mundial da denominação, afirmou que já era o momento de a igreja resolver sua relação de amor e ódio com as metrópoles.

Publicações, eventos, projetos experimentais e investimentos apontam para uma nova fase ou “onda da missão urbana adventista”, conforme definiu Gary Krause, diretor do escritório da Missão Adventista da sede mundial da igreja. O documento “It’s Time” (2011) vai nessa direção. Ele admite a tensão histórica e propõe que a igreja atue de maneira mais abrangente do que vinha fazendo, investindo em treinamento acadêmico e prático, mapeamento, alocação de recursos e pessoas e acompanhamento dos projetos missionários.

Outro exemplo dessa ênfase foi a publicação do livro Ministério Para as Cidades (2012). A obra, também uma compilação dos escritos de Ellen White, reflete a preocupação da igreja em tentar “equilibrar” a visão adventista sobre as metrópoles (p. 8). O livro trata de estratégias missionárias, de exemplos bíblicos de como Deus lidou com as cidades, da importância do plantio de igrejas e da integração entre pregação e promoção da saúde preventiva.

O passo seguinte às publicações foi fazer uma radiografia da presença adventista nas grandes cidades. O historiador David Trim e o missiólogo Rich McEdward apresentaram esse panorama num artigo do Journal of Adventist Mission Studies em 2014. Usando a base de dados do demógrafo Thomas Brinkoff (citypopulation.de), os autores catalogaram cerca de 500 cidades que tinham mais de um milhão de habitantes. O número atual passa de 575 metrópoles. Segundo o levantamento, enquanto 24% da população global viviam nessas cidades, apenas 13% dos adventistas estavam ali.

O artigo também destaca que todas as metrópoles em que a presença adventista é mais expressiva são de cultura predominantemente cristã. Essas cidades se concentram na América Latina e África subsaariana. Em 119 metrópoles havia menos de 125 adventistas e em 42 delas menos de dez membros. Os pesquisadores sabiam que a presença da igreja na Janela 10/40 era pouco representativa, mas não tanto. Nesse desafio demográfico encaixam-se também várias cidades europeias. O estudo serviu de base para o planejamento estratégico da igreja (2015-2020), em que a missão urbana aparece como prioridade (leia mais aqui).

A partir desse levantamento, as 13 Divisões da igreja fizeram seus próprios mapeamentos. O desafio brasileiro foi publicado na Revista Adventista de dezembro de 2015 (p. 23). No caso do Brasil, foram listadas 39 cidades com mais de 500 mil habitantes (hoje já são 46 municípios com esse perfil). Em 2015, a média nacional era de um adventista para cada 136 habitantes, mas 66% das cidades mapeadas tinham uma concentração de membros inferior à média geral. Em São Bernardo do Campo (SP) havia um adventista para cada 925 habitantes e em Campinas 89% dos bairros não tinham igreja. Incluir no mapeamento as cidades com mais de meio milhão de habitantes foi uma boa escolha, pois, segundo o IBGE, 57% dos brasileiros (119 milhões) vivem em apenas 6% dos municípios do país (317). Logo, há uma concentração crescente de pessoas também nas cidades de médio porte.

Nos últimos anos, eventos têm sido realizados para promover a reflexão e a troca de ideias sobre missão urbana. Em setembro do ano passado, a Universidade Andrews (EUA) sediou um congresso envolvendo acadêmicos e gente que está na linha de frente. O desafio urbano foi pensado a partir de perspectivas históricas, teológicas e metodológicas. Foram abordados tópicos sensíveis e atuais como a relação entre missão e justiça social, acolhimento de imigrantes e tensões raciais. As apresentações do congresso serão publicadas num livro (algumas plenárias estão disponíveis aqui).

Skip Bell, professor do seminário teológico local e organizador do evento, ao falar sobre a tensão histórica campo-cidade no adventismo, disse: “Não podemos ser a igreja do museu. A igreja do futuro estará na cidade. Meus netos e seus filhos estão ou estarão na cidade.” Em um dos devocionais, Todd Stout, pastor de uma igreja adventista que tem alcançado os milennials de Nova York (adventhope.org), lembrou: “Não amamos a estrutura física das cidades, mas as pessoas. As cidades vão passar, as pessoas não.”

Por sua vez, num sermão eloquente, Carlton P. Byrd, disse que orar não é o bastante para a igreja na cidade, pois as pessoas estão cansadas de uma religião que não dialoga com a realidade atual. “A igreja não pode ficar silenciosa diante da pobreza física, social e espiritual do mundo. Todos podemos servir a Deus servindo ao próximo”, afirmou o pastor sênior da Igreja da Universidade de Oakwood.

NA LINHA DE FRENTE

Aqui no Brasil, dezenas de pastores envolvidos na missão urbana se reuniram nos dias 27 a 30 de março, em Cotia (SP), para conhecer iniciativas que estão ocorrendo nas grandes cidades. Nesse evento promovido pela sede paulista da igreja, assim como em outros sobre evangelização das cidades, o discurso recorrente foi a necessidade de ampliarmos nossa visão missiológica. Entende-se que a igreja é chamada a usar métodos variados, não se restringindo ao evangelismo público; que ela deve conhecer a comunidade em que está inserida para servi-la melhor, cooperando assim para a shalom (paz, bem-estar, prosperidade) da cidade (Jr 29:7); e que precisa se enxergar como um centro de influência, a ponto de estar comprometida em atender de modo integral as necessidades humanas.

O pastor Emílio Abdala, organizador do encontro Mission to the Cities, realizado em março, ressaltou que a missão urbana exige diversidade de métodos por causa da própria natureza plural das metrópoles. Ao falar sobre o livro A Cidade de Nova York: Um ­Símbolo, lançado no evento e que apresenta uma compilação de escritos de Ellen White e comentários de John Luppens, Abdala destacou que os pioneiros também tiveram seus erros e acertos na missão urbana.

Ele relembrou que Ellen White elogiou a ênfase social do trabalho que John Harvey Kellogg fez pelos marginalizados de Chicago, mas que reprovou o médico por ele deliberadamente não ter apresentado a mensagem adventista. Por outro lado, a pioneira viu na abordagem mais equilibrada de Stephen Haskell, utilizada em Nova York, um modelo que poderia ser replicado. Abdala explicou, por exemplo, que em 1904 havia 13 pequenos centros de influência adventistas na Big Apple, incluindo restaurantes vegetarianos.

Centro de influência em Itajaí (SC). Espaços como esse resgatam a visão inicial dos adventistas sobre missão urbana. Foto: David Gregório

“Implementar um centro de influência é algo caro; por isso, é melhor fazer da igreja um centro de influência. O problema é que nossos prédios não são pensados para servir à cidade”, avaliou o pastor Marcelo Coelho, que coordena o Espaço Vida e Saúde, em Itajaí (SC), e que apresentou um dos cases do evento. Inaugurado em 2016, o centro de influência que ele lidera inclui restaurante vegetariano, livraria, loja de produtos naturais, academia ao ar livre, escola de culinária, horta orgânica e igreja. A área de 2,5 mil m2 está no centro da cidade, que tem 212 mil habitantes e a maior renda per capita do estado.

Diariamente, cerca de 120 pessoas almoçam no restaurante. É por meio desse primeiro contato que boa parte dos clientes tem acesso às várias atividades e cursos oferecidos no espaço, como grupos de mães, aulas de inteligência emocional e colônia de férias e culinária para crianças. Mais de 600 pessoas já foram atendidas no centro de influência e 50 delas decidiram ser batizadas.

“Um centro de influência é uma plataforma de implementação do método de Cristo, em que a igreja desenvolve seus talentos de maneira voluntária para alcançar a comunidade na qual está inserida”, define Marcelo. Para ele, o “novo” sobre o qual falamos hoje é um “retorno” às nossas origens. Como a manutenção de espaços como esses é custosa, ele acredita que a melhor opção em larga escala para a igreja seja construir e/ou adaptar seus templos para que funcionem como centros de influência.

Se a história do adventismo em relação às cidades foi marcada por tensões e receios, alguns justificáveis e outros não, hoje as tendências demográficas indicam que o contexto urbano é a grande (talvez última) fronteira da missão. E, se acreditamos que a missão é de Deus e Ele é o maior interessado em redimir a população das cidades, devemos ouvir Seu chamado para colaborar nessa tarefa urgente, imprevisível e transformadora. Ele fez esse convite há mais de cem anos por meio de Sua mensageira Ellen White, e Sua voz continua a ecoar.

WENDEL LIMApastor e jornalista, cursa o mestrado em Ciências da Religião na Umesp e é editor associado da Revista Adventista

(Este artigo foi capa da edição de junho de 2019 da Revista Adventista)

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