Em volta da mesa

Quando pessoas se reúnem para comer e compartilhar a fé, a unidade da igreja é nutrida
Mais do que uma necessidade fisiológica individual, a alimentação tem que ver com a socialização e a formação da identidade cultural de um povo. Crédito da Imagem: Fotolia

Comer não é apenas uma necessidade básica. É também um saudável prazer. E quando comida e espiritualidade estão relacionadas, num contexto de formação de vínculos comunitários, a unidade da igreja sai ganhando. Prova disso é a importância que tem a reunião em torno da mesa em movimentos eclesiológicos que enfatizam o papel dos pequenos grupos.

Apesar de o ensino bíblico sobre o jejum ser claro, e tal prática apresentar vários benefícios físicos e espirituais, por muito tempo temos negligenciado a também direta relação entre alimentação e espiritualidade. Já estudei vários manuais para líderes de pequenos grupos e a maioria deles destaca Atos 2:42-47 como uma referência de vivência comunitária da igreja. O ponto é que costumamos enfatizar a oração e o estudo da Bíblia como elementos indispensáveis nas reuniões nas casas, mas ignoramos ou minimizamos a importância dos alimentos como fator agregador em nossos encontros.

Por isso, o objetivo deste artigo é destacar que as igrejas podem ganhar muito em unidade se realizarem mais encontros em torno da mesa. Afinal, não basta uma congregação ter pequenos grupos; esses agrupamentos precisam experimentar o nível de intimidade e engajamento que havia no começo do cristianismo. E compartilhar uma refeição favorece isso.

MAIS DO QUE ALIMENTO

Segundo a pesquisadora Heloísa Rodrigues, num artigo acadêmico sobre a relação entre alimentação e hospitalidade, “o ato de comer junto é uma forma de começar uma relação ou de mantê-la. Ao mesmo tempo em que a refeição satisfaz uma necessidade humana essencial, ela é fator fundamental no desenvolvimento da identidade cultural de uma sociedade. Dessa forma, o alimento para o ser humano ultrapassa as necessidades fisiológicas e exerce um papel muito mais amplo, fazendo parte da sua formação e caracterização” (revista Sinais, dezembro de 2012, p. 85-100). O “ritual” de comer com amigos, familiares e convidados em torno da mesa cria aproximação e reforça expectativas entre as pessoas do grupo.

Seguindo essa linha, alimentação e religião também têm muito que ver. No pensamento hebraico, por exemplo, que serviu de pano de fundo das Escrituras, a religiosidade estava relacionada às tarefas do cotidiano, não somente às que eram realizadas no templo ou em nome de Deus. Para os hebreus, especialmente no contexto de privação do deserto, “a bênção de comer e beber era ainda mais santificada, sendo considerada parte do plano divino”, explica Henri Daniel-Rops no livro A Vida ­Diária nos Tempos de Jesus (p. 228). O próprio princípio bíblico de temperança e cuidado com o corpo como templo do Espírito Santo já nos mostra a íntima relação entre alimentação e espiritualidade (1Co 6:19; 10:31).

Temos várias referências bíblicas sobre essa conexão. Por exemplo, o relacionamento perfeito entre Deus e a humanidade no Éden foi rompido após um teste relacionado à comida (Gn 3:6). Houve uma ceia para marcar a reconciliação de José e seus irmãos no Egito (Gn 43:16). O livro de Jó, típica literatura da era patriarcal e fortemente influenciado pela cultura de hospitalidade do Oriente, inicia falando da costumeira confraternização entre os filhos do protagonista (Jó 1:4) e encerra citando um banquete entre todos os amigos e irmãos do patriarca (Jó 42:11). Dessa mesma época, há o registro da hospitalidade de Abraão, que recebeu visitantes celestiais, incluindo o próprio Deus, a quem ofereceu uma refeição (Gn 18:5-8).

Por ocasião do êxodo do Egito, seguindo a orientação divina, o povo de Israel comeu em família ervas amargas, pão e carne na primeira Páscoa (Êx 12:8). Anos mais tarde, Deus instruiu que os recursos do povo fossem usados regularmente num banquete especial que incluísse os levitas, órfãos, viúvas e pobres (Dt 14:22-29). A pioneira adventista Ellen White confirma que essas solenidades anuais eram importantes para aproximar do povo os sacerdotes e levitas, a fim de que todo o Israel recebesse instrução e ânimo no serviço de Deus (Patriarcas e Profetas, p. 530).

No Novo Testamento, percebemos que continua a íntima relação entre alimentação e religião. Jesus comeu com os marginalizados (Mt 9:11; Mc 2:16), preparou uma ceia antes de sua morte (Mt 26:17-20) e serviu um desjejum aos discípulos para restaurar a liderança de Pedro e a unidade do grupo (Jo 21:9).

Merece destaque especial o texto de João 6:22-59, porque naquela ocasião, assim como na ceia, Cristo afirmou ser o pão da vida, ou seja, o alimento vital da humanidade. É em torno dele que a igreja pode experimentar real vivência comunitária. O texto ainda nos ensina três lições: (1) a essência da unidade vai além de compartilhar o pão material (Jo 6:27); (2) a multiplicação dos pães e peixes é feita num contexto de comunidade, de preocupação com a coletividade (Jo 6:32-34); e (3) Cristo relaciona comer a carne dele com a salvação (Jo 6:53, 54, 56-58). Vale lembrar que esse discurso não foi feito na ceia, mas por ocasião da multiplicação dos pães, numa refeição comum. O que nos faz entender que, quando nos desprendemos de nosso egoísmo para compartilhar o pão, a sociabilidade entre nós e Ele é alimentada.

A igreja cristã primitiva (At 2:42-47) também compartilhava o pão entre os irmãos. Novamente, esse ato não era apenas simbólico, como numa santa ceia, mas, provavelmente, uma atividade rotineira. O historiador Henri Daniel-Rops endossa essa ideia, afirmando que a expressão idiomática “partir o pão” na cultura judaica significava fazer uma refeição (p. 229).

Na visão do teólogo Wilson Paroschi, especialista em Novo Testamento, diferentemente de hoje, aquelas refeições não eram uma prática intencional com o objetivo de crescimento da igreja. Conquanto fosse uma cerimônia de profundo significado religioso, a santa ceia estava intrinsecamente ligada ao ambiente domiciliar e sua celebração era realizada em conexão com uma refeição comum. Portanto, havia um contexto cultural e histórico específico que favorecia essa prática (Teologia e Metodologia da Missão [Parma, 2011], p. 348). Porém, ao que parece, o hábito de compartilhar o pão acabou se tornando um poderoso instrumento para manter o senso de comunidade num dos momentos de maior intolerância contra o cristianismo.

QUEBRA DE BARREIRAS

É interessante observar que muitas mulheres brincam que conquistaram o esposo pelo estômago. O mesmo não poderia ocorrer na evangelização? Como igreja local, poderíamos promover interação em volta da mesa, de modo simples e espontâneo, mas com intencionalidade de aprofundar os relacionamentos. Isso ocorre porque compartilhar uma refeição quebra barreiras. Por ser um convite à amizade, comer junto em torno da mesa promove descontração entre as pessoas, deixando os participantes mais à vontade.

De acordo com a antropóloga Maria Maciel, a própria palavra “companheiro” em português, como ocorre também nas línguas francesa e inglesa, tem sua origem na ideia de pessoas que “compartilham o pão”. “Assim, a comensalidade, o ‘comer juntos’, é o momento de reforçar a coesão do grupo, pois, ao compartilhar a comida, compartilham também sensações, tornando-se uma experiência sensorial compartilhada”, completa a pesquisadora num artigo acadêmico publicado em 2001.

No pensamento oriental, essa ideia parece ser ainda mais forte do que na cultura ocidental. Henri Daniel-Rops afirma que “a mesa era um lugar de reunião de amigos” e que os convites para refeições feitos nos dias de Jesus eram geralmente para a noite, quando haveria mais tempo para o convívio (A Vida Diária nos Tempos de Jesus, p. 238). Além disso, os convidados comiam sentados ou deitados, apoiados sobre o cotovelo esquerdo e usando a mão direita para pegar a comida, sem talheres e no mesmo recipiente. Ou seja, era preciso ter afinidade ou desejar mais proximidade para dividir a refeição com alguém.

Entretanto, se o cristianismo começou com essa forte ênfase comunitária, por que essa característica parece ter se perdido ao longo do tempo? Teólogos como o norte-americano Russell Burrill, grande entusiasta do reavivamento da igreja contemporânea por meio dos pequenos grupos, acredita que, por volta do 4o século da era cristã, quando a igreja e o estado se uniram, o processo de institucionalização do cristianismo se intensificou (Como Reavivar a Igreja do Século 21, p. 12). Na visão de Burrill, programas religiosos semanais no templo têm sido mais enfatizados do que a experiência comunitária e de serviço fora da igreja, em atividades cotidianas.

Em seus livros, Burrill defende que o adventismo, movimento herdeiro de várias características do metodismo, tinha nas reuniões sociais (algo semelhante aos pequenos grupos de hoje) um dos seus elementos comunitários mais fortes. Nesse contexto do século 19, a pioneira adventista Ellen White já advertia quanto à glutonaria e aconselhava buscar uma vida mais saudável (Conselhos Sobre Regime Alimentar, p. 88). Portanto, uma lição que fica para nós é que o alimento não é um fim em si mesmo nas reuniões nas casas. Ele é uma ferramenta de socialização para fortalecimento da comunidade, e a temperança nunca deve ser negligenciada. O ponto é que, ao deixarmos de nos reunir num contexto mais informal, acolhedor e em torno de uma mesa, perdemos muitas oportunidades de estreitar laços, testemunhar da fé e até desenvolver hábitos alimentares mais saudáveis.

Não tenho dúvidas de que Deus acredita no papel de uma refeição compartilhada para a formação de comunidades. Em Apocalipse 19:6-9, lemos que, após o retorno de Jesus, as bodas do Cordeiro serão celebradas no Céu, com todos os salvos, em torno de uma mesa. Assim como na parábola de Lucas 15, em que uma refeição marcou a celebração pelo filho que estava perdido e foi achado, esse encontro histórico de toda a humanidade salva com seu Redentor se dará ao redor da mesa. Como não visualizar aqui o clímax da comunhão entre criaturas e Criador?

Em resumo, compartilhar uma refeição é uma ferramenta eficaz de socialização. Usada com temperança, ela pode colaborar para a unidade da igreja. Por isso, incentivo você, sempre que possível, fazer as atividades de seu grupo, ministério ou congregação em torno da mesa. Existe poder quando nos reunimos em nome de Jesus para participar de uma refeição. Experimente o impacto de compartilhar um pote de açaí, uma mesa de frutas, um patê com torradas ou um antepasto vegetariano. Quando abrimos a boca para comer, fica mais fácil abrir o coração e a mente. Bom apetite!

RAFAEL STEHLING, graduado em Administração e mestre em Teologia, é líder do Ministério Jovem na sede da igreja para a região sul do Espírito Santo

(Este artigo foi publicado originalmente na edição de fevereiro de 2017 da Revista Adventista)

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