O ser de Deus

Teólogo argentino explica como uma visão distorcida sobre a divindade pode afetar nossa fé
ANDRÉ VASCONCELOS
Foto: ACES

Como é Deus? Durante séculos, os teólogos tentaram responder a essa pergunta por meio da filosofia dualista (teísmo clássico). Hoje, muitos procuram respondê-la através da filosofia moderna (teísmo aberto). Mas será que esses métodos são capazes de nos dar uma resposta satisfatória? Nesta entrevista, o pastor Marcos Blanco, editor-chefe da ACES (editora adventista da Argentina), responde a essa questão destacando a necessidade de uma hermenêutica fundamentada em princípios bíblicos, a fim de obtermos uma compreensão equilibrada sobre Deus e a realidade. Esse foi o tema de sua tese de doutorado, defendida recentemente no Instituto Adventista Internacional de Estudos Avançados, nas Filipinas.

Como o teísmo clássico e o teísmo aberto entendem o ser de Deus?

 Ronald Nash menciona que o teísmo clássico sustenta oito pressuposições filosóficas sobre Deus: “(1) realidade pura, (2) imutabilidade, (3) impassibilidade, (4) atemporalidade, (5) simplicidade, (6) necessidade, (7) onisciência e (8) onipotência”. Por outro lado, o teísmo aberto rejeita energicamente muitas dessas pressuposições, como a atemporalidade, a imutabilidade e a impassibilidade. Essa nova visão acerca de Deus causou um profundo impacto nas teologias protestantes e evangélicas.

Quais são as limitações dos métodos utilizados por ambas as escolas de pensamento para compreender a existência e os atributos da Divindade?

 A principal limitação metodológica dessas escolas é que as duas estão fundamentadas em pressupostos filosóficos sobre Deus e a realidade. O teísmo clássico desenvolveu uma elaborada metodologia que tem como ponto de partida a “teologia natural”, que pode ser vista como a tentativa humana de compreender Deus por meio da realidade, independentemente da revelação divina. Já o teísmo aberto, influenciado pela filosofia moderna, vê a realidade unicamente como temporal.

De que forma a analogia canônica pode ser usada para interpretar as descrições bíblicas de Deus?

 A analogia é um recurso que nos permite evitar essas duas posições extremas. Ou seja, ainda que uma expressão se aplique a Deus e aos seres humanos, não há uma equivalência total de significado (univocidade) entre eles, nem uma disparidade completa (equivocidade). Na analogia canônica, é a própria Bíblia que define em que sentido Deus pode experimentar a realidade.

Quais são os perigos de utilizar pressupostos filosóficos para interpretar as Escrituras?

 A filosofia tem sua origem na mente corrompida do ser humano. Ao utilizá-la para interpretar as Escrituras, estamos deixando que pressuposições estranhas ao texto bíblico se tornem o filtro interpretativo das verdades divinas. Se quisermos compreender essas verdades assim como Deus nos revelou, devemos deixar que a própria Bíblia estabeleça os princípios hermenêuticos que nos guiarão no processo de interpretação.

Como uma visão equivocada da doutrina de Deus pode afetar nossa religiosidade?

 O conceito de atemporalidade, por exemplo, levou o reformador Calvino e outros cristãos a elaborar a doutrina da predestinação, a qual pode afetar profundamente nossa experiência de salvação. Se acreditarmos que Deus é imutável, também teremos que acreditar que nossas ações não afetam Suas ideias e emoções. Por outro lado, quando nos aproximamos das Escrituras com as pressuposições bíblicas adequadas, descobrimos um Deus que Se interessa pelos nossos problemas, sofre conosco e interfere historicamente para nos salvar.

(Esta entrevista foi publicada originalmente na edição de junho de 2019 da Revista Adventista)

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