A profecia dos 1.260 anos

Entenda por que a relação entre Igreja e Estado é mais importante para a compreensão desse período profético do que os eventos militares
NICHOLAS P. MILLER
Os eventos decisivos dos momentos finais dos 1.260 anos devem ser compreendidos primordialmente por eventos legais, não militares. Crédito da imagem: William Krause

O período profético de “um tempo, dois tempos e metade de um tempo” (Dn 7:25) tem sido compreendido historicamente pelos adventistas como um período de 1.260 anos que ocorreu durante a Idade Média. Antes da Revolução Francesa, os pensadores cristãos expressaram uma série de pontos de vista de quando foi o início e o fim desse período. Mas, com a ascensão de Napoleão e o exílio e cativeiro do papa pelo general francês Berthier, houve um momento raro de uma quase unanimidade profética entre os expositores protestantes, que declararam que esse período terminou em 1798 d.C. Depois disso, era uma questão de voltar na linha do tempo para descobrir o ponto de início, que seria 538 d.C. (Ernest R. Sandeen, The Roots of Fundamentalism, 1978).

No entanto, com a diminuição do choque e da clareza dos eventos da década de 1790, alguns estudiosos não conseguiam ver um evento decisivo em 538 d.C. que correspondesse à clareza do exílio e morte do papa na prisão. Alguns concluíram que o início foi marcado quando o terceiro chifre de Daniel 7 foi arrancado, fato ocorrido quando Belisário, general de Justiniano, venceu os ostrogodos, em 538.

O problema era que essa “derrota” aparentava um pouco anticlimática, pois envolvia a quebra do cerco ostrogodo a Roma, por Belisário. O evento foi apenas uma etapa de um conflito em curso que continuou por pelo menos duas décadas. Na década de 540, os ostrogodos reconquistaram Roma e foi necessário expulsá-los outra vez. Os ostrogodos só foram completamente vencidos em 553 d.C. Então, o que tornou a batalha de 538 profeticamente tão mais importante e decisiva que as vitórias similares na década de 540 e a batalha final de 553?

A falta de uma resposta clara fez com que alguns argumentassem que o ano 538 não tinha significado inerente, e que ele foi escolhido simplesmente devido à relação conveniente com o fim decisivo em 1798. Isso levou alguns estudiosos, inclusive adventistas, a deixar de ver a profecia dos 1.260 anos como tendo uma aplicação histórica literal, passando a enxergá-la como um número simbólico. Essa abordagem também ganhou terreno em relação a alguns outros períodos de tempo proféticos, como os encontrados na quinta e sexta trombetas de Apocalipse 9.

Neste artigo, argumento que, em vez de considerar os eventos militares, devemos considerar a criação e dissolução das estruturas legais. Creio que essa abordagem jurídica ofereça uma base mais segura para o assunto, e talvez para outros períodos de tempo proféticos.

ABORDAGEM TRADICIONAL

Os pioneiros do adventismo adotaram a profecia como parte da herança historicista. A maioria dos expositores proféticos relacionou o tempo do início dos 1.260 anos com vitórias militares de Roma, até que os três chifres de Daniel 7:8, 20 e 24 foram finalmente arrancados pelo chifre pequeno. Isso é demonstrado em vários trabalhos escritos, a exemplo da obra intitulada Daniel and the Revelation (Daniel e o Apocalipse), de Uriah Smith, e o Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia sobre o livro de Daniel.

Os escritos de Ellen G. White são uma exceção. No livro O Grande Conflito, ela escreveu: “No século VI o papado se tornou firmemente estabelecido. Fixou-se a sede de seu poderio na cidade imperial e declarou-se ser o bispo de Roma a cabeça de toda a igreja. O paganismo cedera lugar ao papado. O dragão dera à besta ‘o seu poder, e o seu trono, e grande poderio’ (Ap 13:2). E começaram então os 1.260 anos da opressão papal preditos nas profecias de Daniel e Apocalipse (Dn 7:25; Ap 13:5-7). Aqui, Ellen White se concentrou no momento do empoderamento da autoridade legal.

No entanto, alguns estudiosos adventistas começam a pensar nos 1.260 anos em termos de períodos de tempo gerais ou até simbólicos, não estando preocupados excessivamente com o início específico do tempo do fim. Essa mudança pende para uma posição simbólica ou idealística em relação aos períodos de tempo do Apocalipse, começando a desconectar o Apocalipse da história atual. Esse método seria muito diferente da abordagem sobre as profecias de Daniel e Apocalipse expressa pelos nossos pioneiros, ou apresentada no livro O Grande Conflito.

OUTRA INTERPRETAÇÃO

Um estudo cuidadoso de Daniel 7:24-26 e algumas passagens proféticas relacionadas revelam que os eventos decisivos dos momentos finais dos 1.260 anos devem ser compreendidos primordialmente por eventos legais, não militares. Uma vez que esse quadro legal seja compreendido e reconhecido o seu devido peso, torna-se mais claro como o evento de 538 está relacionado ao evento de 1798. Em síntese, o Código Justiniano, concluído em 534, “promulgou como lei o cristianismo ortodoxo”, colocando o papa como cabeça formal da cristandade; ordenou que todos os grupos cristãos se submetessem à sua autoridade e deu a ele o poder civil de sentenciar à morte os hereges (Will Durant, The Age of Faith, p. 112).

No entanto, esse código não foi legalmente promulgado, nem sancionado até o fim do cerco a Roma, em 538. Belisário, o general de Justiniano, tinha entrado na cidade sem oposição, no fim do ano 536, mas pouco depois os ostrogodos voltaram e sitiaram Roma. Aproximadamente um ano depois, o cerco foi quebrado e Belisário assumiu o controle de Roma e de seus arredores. Só então o código que atribuía poderes ao papado pôde ser realmente executado por Belisário, além das fronteiras de Roma.
A Guerra Gótica continuou até 553, quando, finalmente, os ostrogodos foram expulsos.

Porém, essas batalhas e cercos posteriores não anularam o sistema do poder papal que havia entrado em vigor em 538. Mesmo quando Roma caiu outra vez no poder dos godos, estes não controlaram o papado, que na época já estava atuando fora de Roma. Em sua tese doutoral, o teólogo Jean Zukowski afirmou que, “depois de 538, o papado nunca mais foi submetido ao controle dos reis ostrogodos” (p. 160). Estabelecido como cabeça da cristandade pelo Código Justiniano, o sistema papal passou a ter o controle sobre a vida e a morte dos hereges. Esse decreto permaneceu em vigor no Ocidente por mais de mil anos, dando grande impulso nas revoluções dos séculos 11 e 12. Ele formou a base legal de muitos estados modernos. Sua influência se estendeu até as revoluções dos séculos 18 e 19, quando o código e seu caráter religioso foram explicitamente rejeitados.

Essas revoluções seculares começaram com a Revolução Francesa, que levou à captura e ao exílio do papa Pio VI pelo general Berthier, em 1798. Nesse caso, a substituição do Código Justiniano, de cunho religioso, pelo Código Napoleônico, de cunho secular, também foi mais importante que o evento político-militar da captura e exílio do papa. Esse código secular foi implementado pelo famoso projeto de lei número 8, de 15 de fevereiro de 1798, no qual o general Berthier declarou Roma como república independente. Consequentemente, foi suprimida qualquer outra autoridade temporal, emanada do antigo governo papal.

Creio que esse foco nos fatos legais, e não nos acontecimentos militares, é justificado e até requerido pelas passagens bíblicas ao redor do período dos 1.260 anos. Embora o fato de os três chifres terem sido arrancados seja realmente importante e ligado ao surgimento do chifre pequeno, o texto bíblico não enfatiza a questão militar como fator decisivo no tempo da profecia dos 1.260 anos. Ao contrário, o verso-chave é Daniel 7:25, onde diz que os santos “lhe serão entregues nas mãos, por um tempo, dois tempos e metade de um tempo”. O momento-chave relacionado ao período de tempo não é algo realizado pelo chifre pequeno para conquistar ou se afirmar; mas o foco está no tempo em que foi “dada” certa autoridade e domínio ao chifre pequeno. Essa profecia seria mais bem cumprida por um ato legal outorgando outra autoridade, que foi exatamente o que o Código Justiniano fez.

Assim, a igreja de Roma recebeu autoridade por uma combinação de eventos legais, eclesiásticos e militares. Os godos permaneceram em Roma e na Itália antes da chegada de Belisário, em 536. O papa Silvério havia sido escolhido pelo rei godo Teodato. Por sua vez, Justiniano escolheu a dedo o diácono romano Vigílio para ser o papa. Em 537, Belisário enviou o papa Silvério para o exílio e colocou Vigílio em seu lugar. O papa Vigílio foi o primeiro com lealdade inquestionável a Justiniano e a seu novo código, que se tornou efetivo pela primeira vez.

Há um paralelo claro e simétrico com o período de 1.260 anos, se considerarmos que ele começa com o exílio do papa e sua substituição por outro escolhido a dedo pelo imperador sob os auspícios de um novo código legal (o Código Justiniano), e termina com o exílio do papa e o código religioso sendo substituído por uma norma secular (o Código Napoleônico).

ENFOQUE LEGAL

A história das relações entre Igreja e Estado é extremamente útil para a compreensão da profecia. A remoção dos três chifres representa um processo histórico durante o período de 470 a 550 d.C. Mas as sanções legais podem oferecer um limite de tempo mais preciso. Por essa razão, creio que a Bíblia, quando lida com períodos históricos na profecia, com frequência focaliza os decretos legais. Visto pelo prisma legal, o evento de 538 então se destaca como um verdadeiro suporte para o evento de 1798.

Considerar uma estrutura legal de interpretação profética não é sugerir que a visão tradicional dos eventos miliares e batalhas sejam irrelevantes, mas que a relevância desses eventos é principalmente a de ajudar a demarcar o início e o fim dos regimes governamentais e legais. Ela oferece uma interpretação da profecia mais unificada, historicamente fundamentada no mundo real. Não seria esse um enfoque apropriado para um Livro e um Deus menos preocupado com a força e coerção, e mais com as demonstrações entre as formas de governo com base nos princípios contrastantes do amor e poder?

NICHOLAS P. MILLER, PhD, é professor de história da igreja no seminário teológico da Universidade Andrews (EUA)

“Este artigo foi publicado originalmente na edição de janeiro de 2019 da Revista Adventista/Adventist World)

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