Pai que ama brinca

Além de um privilégio, divertir-se com os filhos é um dever da paternidade
TALITA CASTELÃO
O pai que não brinca esvazia o relacionamento com os filhos, não constrói confiança e sua função se reduz a estabelecer limites. Crédito da imagem: Fotolia

A figura tradicional do pai está cada vez mais em baixa. Se no passado ele era distante e inacessível, hoje há um apelo para que seja mais próximo e companheiro. E isso é muito bom para o desenvolvimento dos filhos. Porém, os papais precisam intencionalmente marcar presença, estabelecendo vínculos com os filhos e oferecendo a eles um modelo equilibrado de socialização. E isso ocorre especialmente por meio da brincadeira.

No passado, cuidar do filho era coisa da mãe. Era ela quem alimentava, vestia, brincava e fazia dormir. Todo esse contato, inevitavelmente, proporcionava uma ligação mais profunda com a criança. Mas o pai é importantíssimo na formação dos filhos. E, quando esse pai se envolve nas brincadeiras, todos na família saem ganhando.

A pedagoga Maria Lúcia Medeiros, coordenadora executiva do movimento Aliança pela Infância, destaca que, quando o pai brinca com os filhos, está na verdade impactando profundamente a criança. Há um reforço da afetividade, da confiança, do companheirismo e da cumplicidade. O vínculo entre eles se estreita e o pai se torna alguém efetivamente presente na vida, despertando a admiração e o desejo de imitação.

Contudo, o pai também ganha muito nessa relação. É claro que não é fácil encontrar tempo e energia para isso entre os compromissos e momentos de descanso, mas envolver-se em brincadeiras pode aliviar o estresse, ativar a imaginação e trazer leveza ao cotidiano.

O pai que não brinca esvazia o relacionamento com os filhos. Nesses casos, sua função se reduz a estabelecer limites. O problema é que todo pai precisa aprender a visitar o universo infantil para criar vínculos fortes. O vínculo é uma relação de troca que gera confiança. As crianças necessitam de uma ponte segura nessa trajetória.

Por isso, ao brincar, o pai deve ouvir e atentar para as necessidades dos filhos, sem julgamentos nem imposições, pois o que eles mais desejam é ter atenção e estabelecer comunicação. Nas brincadeiras também é possível exercitar as regras, negociar sua vez, ter controle emocional, aprender a se frustrar, assumir diferentes papéis, ter flexibilidade e desenvolver o respeito pelo outro. Tudo isso com a cumplicidade do olhar do pai.

Além de um privilégio, brincar com os filhos é um dever, mesmo que seja por 15 minutos diários. Vital Didonet, especialista em políticas públicas para a primeira infância e consultor da Unicef e Unesco, defende essa ideia e salienta que os pais também devem sugerir brincadeiras que não dependam da tecnologia. Eles podem construir brinquedos juntos, sair para uma atividade num parque ou praticar jogos de tabuleiro. O pai também pode envolver a criança em atividades cotidianas que podem até se tornar uma brincadeira, como lavar o carro, por exemplo.

Não importa a maneira, pode ser brincadeira simples ou elaborada. O que os filhos querem mesmo é estar com seu pai. Um pai inteligente não perderá essa fase especial da vida dos filhos. O tempo passa rápido e, sem perceber, as crianças crescem. Nem sempre é possível resgatar o vínculo perdido. Por isso, pai que ama brinca.

TALITA CASTELÃO é psicóloga clínica, sexóloga e doutora em Ciências

(Artigo publicado originalmente na edição de agosto de 2018 da Revista Adventista)

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