Linhagem adventista

Pesquisador realiza trabalho missionário inédito com descendentes de família pioneira da igreja no Brasil

Michelson Borges

Casarão na rua do Cedro, 124. Em junho, prefeitura de Brusque (SC) tombou o imóvel que tem valor histórico para o adventismo no Brasil. Foto: Associação Catarinense

Heinrich Pöpper tinha apenas nove anos de idade quando sua família imigrou da Alemanha para o Brasil, em 6 de abril de 1869. Tempos depois, ele contou detalhadamente como foi essa aventura. O relato foi publicado pela Sociedade de Amigos de Brusque (Notícias de Vicente Só, nº 4, dezembro de 1987, p. 700-780).

Com 36 anos, Friedrich Andreas Pöpper, pai de Heinrich, era apenas um ano mais velho que Heinrich Christian Georg David Hort. Eles eram naturais, respectivamente, das cidades de Helmstedt e Hötensleben, distantes 16 quilômetros uma da outra, e haviam se conhecido poucas semanas antes da viagem. Com a situação difícil na Alemanha, ambos decidiram mudar-se para o Brasil em busca de melhores condições de vida. As duas famílias fizeram amizade também com os Bruns.

Três meses depois de zarparem do porto de Hamburgo, os tripulantes e passageiros puderam avistar ao raiar do dia a terra firme ao longe. A primeira parada foi na Colônia Santa Leopoldina, no Espírito Santo, mas os Hort, os Bruns e os Pöpper desembarcariam em Itajaí (SC), no dia seguinte. Dali seguiram para Brusque a bordo de canoas, avançando pelo rio Itajaí-Mirim durante mais oito dias. Ao todo, foram 16 semanas de muitas dificuldades e privações, desde que deixaram a Alemanha até chegar à Colônia de Brusque.

No sorteio dos lotes, os Pöpper e os Bruns acabaram sendo vizinhos, em Lajeado, cerca de três horas a pé da sede da Colônia. Por sua vez, os Hort morariam em Cedro Grande (para onde os Pöpper se mudaram mais tarde, em busca de terras mais produtivas, sendo seguidos depois pelos Bruns).

O CASARÃO DE HORT

A Colônia de Brusque é importante para caracterizar a comunidade camponesa do Vale do Itajaí-Mirim, no fim do século 19. Basicamente era um aglomerado com aparência semiurbana, inserido na área colonial. Fisicamente não se assemelhava nem um pouco às aldeias camponesas alemãs da época, mas, a exemplo delas, tinha um forte laço de coesão social.

Nas colônias, as vendas eram por excelência os lugares em que os moradores realizavam suas atividades sociais e econômicas. Esses estabelecimentos comerciais ocupavam posição de destaque, não tanto pelo volume do comércio, mas pelo fato de serem pontos de reunião para os vizinhos, o local das conversas e de entrega de correspondência.

Assim que tomou posse de seu terreno, David Hort procurou estabelecer seu comércio e construiu entre 1875 e 1880 um amplo casarão colonial de dois pavimentos, cerca de oito quilômetros do atual centro de Brusque. O local era estratégico, pois ficava próximo do ponto de parada dos barcos no rio Itajaí-Mirim. A família morava no andar de cima e embaixo ficava a venda.

Foi nessa venda que, no fim do ano 1880, o primeiro pacote de literatura adventista foi aberto no Brasil. As dez revistas Stimme der Wahrheit (Voz da Verdade) foram despachadas da editora da igreja nos Estados Unidos para Carlos Dreefke. Depois disso, muitos outros impressos e livros foram enviados ao Brasil, fazendo com que várias famílias se interessassem pela mensagem adventista (veja o documentário Homens de Fé).

Adolfo Hort e sua família. Filho mais novo de David, ele testemunhou a abertura do pacote de revistas no comércio do pai

A esposa de David, Anna Dorothee, e o filho mais novo, Adolfo, tornaram-se adventistas anos depois, e o casarão Hort acabou sendo vendido sucessivamente para outras famílias. Assim, um dos principais marcos do adventismo no Brasil, ainda de pé em Brusque, não pertence à Igreja Adventista nem a adventistas.

No dia 4 de junho deste ano, a prefeitura de Brusque publicou no Diário Oficial do município o decreto de tombamento do casarão, localizado na Rua do Cedro, 124. Isso faz com que os proprietários atuais não possam alterar a estrutura sem prévia autorização da prefeitura. Esse foi o grande e primeiro passo para a preservação desse importante patrimônio histórico relacionado ao adventismo.

O NOVO PIONEIRO

A história do adventismo no Brasil é outro patrimônio que precisa ser preservado e divulgado. Quem tem feito um grande trabalho nesse sentido é o pedagogo e administrador joinvilense Emir Schmitt, de 63 anos. Bisneto do pioneiro Adolfo Hort, Emir tem realizado um ministério específico em favor dos descendentes dessa família pioneira.

Ele explica que a ideia de organizar a árvore genealógica dos Hort nasceu em 1995, por ocasião das comemorações do centenário da Igreja Adventista no Brasil (cuja primeira congregação foi organizada na cidade catarinense de Gaspar Alto, pelo pastor Frank Westphal). “Na década de 1990, eu exercia cargos administrativos, como funcionário da igreja, e fui homenageado várias vezes por ser descendente da família Hort. Mas eu me sentia mais preocupado com os demais descendentes do que feliz por ser homenageado como pertencente à família de pioneiros”, revela.

Movido por esse sentimento, Emir se valeu dos recursos oferecidos pela internet e se entregou a uma pesquisa que já dura mais de duas décadas, graças à qual conseguiu levantar informações de 3.035 descendentes. “Esse resgate da história se transformou em um impressionante ministério, pois pude ver a partir desse trabalho uma série de interações, restauração de relacionamentos, comemorações, vitórias, conversões e reconversões à mensagem adventista”, comemora.

Uma percepção clara a partir desse trabalho deixa evidente a importância de preservar e contar a história dos pioneiros. A maioria dos descendentes de David Hort que mantiveram o legado histórico está firme na fé e alguns até são servidores e/ou líderes da igreja; vários são pastores e professores. Os descendentes de Hort que pouco preservaram a história da família estão, em sua maioria, distantes dos princípios defendidos pela igreja. E os que ignoraram completamente sua herança espiritual vivem totalmente distantes dos princípios adventistas.

“O lado bom desse trabalho é ver que muitos dos descendentes que não conservaram a memória histórica, quando ficam sabendo desse rico legado, mostram-se surpresos e decidem retornar às origens”, diz Emir. A história de Hanelore Blume, trineta de David Hort que vive em Itaiópolis (SC), é um exemplo das idas e vindas entre os descendentes dos pioneiros. Batizada na adolescência, teve seus altos e baixos espirituais, casou-se com um homem que não é adventista e chegou a ter seu nome removido do rol de membros. Posteriormente foi rebatizada e encontrou no “programa das madrugadas com Deus” (Seminário de Enriquecimento Espiritual) a força para se firmar na fé. Suas duas filhas foram criadas nos princípios adventistas. A mais velha se prepara para o batismo e a mais nova, que foi batizada na adolescência, hoje está afastada. Por sua vez, os netos de Hanelore também receberam influência espiritual da avó e chegaram a ser batizados; porém, no período da faculdade, deixaram a igreja.

O trabalho de Emir e de outros que procuram valorizar a história adventista no Brasil está em harmonia com o conselho de Ellen White em Conselhos aos Idosos (p. 25): o resgate da memória desses pioneiros servirá de aprendizado e inspiração para que as gerações atuais façam a missão avançar para além de novas fronteiras.

MICHELSON BORGES é pastor, jornalista, editor e autor do livro A Chegada do Adventismo ao Brasil, cuja edição atualizada será lançada em breve

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  • Francinete Martins da Costa

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