Fidelidade no calor da batalha

Na data que marca os 80 anos do início da Segunda Guerra Mundial, relembre a história de pessoas que se mantiveram fiéis nas circunstâncias mais extremas 
Crédito da imagem: Bryan / Lightstock

O dia 1º de setembro de 1939 marcou o início do maior e mais destrutivo conflito da história. A invasão alemã da Polônia foi o evento-chave que gerou uma reação em cadeia que envolveu gradativamente as principais nações do mundo em uma guerra universal que teve duração de seis anos. Dois dias depois da ocupação germânica de Danzig, a Grã-Bretanha e a França declararam guerra contra a Alemanha. Logo depois, Austrália, Nova Zelândia, Índia, África do Sul, Canadá e União Soviética (esse país de forma tangencial) se envolveram no conflito. Em cerca de três anos, todos os principais países do globo estariam envolvidos na mais mortal conflagração de que se tem registro: a Segunda Guerra Mundial.

No entanto, esse era apenas um passo intermediário do plano de dominação completa da Europa, que já vinha sendo executado há vários anos pelo ditador alemão Adolf Hitler. Foi o segundo capítulo do que não ficou resolvido em 1918, e o Tratado de Versalhes, assinado vinte anos antes, foi a pólvora necessária para que os alemães se unissem contra a Europa. Nessa crise sem precedentes, dezenas de milhões perderam a vida e as marcas desse grande conflito permanecerão até o fim da história.

Um provérbio africano diz que, “quando dois elefantes entram em combate, quem sofre é a grama”. No contexto da Segunda Guerra Mundial, os adventistas, que prezam pela paz e o princípio da não combatência, eram, aparentemente, uma parte frágil. No entanto, desde as experiências de guerra de Guillherme Miller como tenente de milícia na batalha de Plattsburg, em setembro de 1814, ao desapontamento de 22 de outubro de 1844, e o episódio da Assembleia da Associação Geral de 1888, a crise, com várias faces e sob várias circunstâncias, tem sido um elemento constante e catalisador, no sentido de fortalecer, explicar e definir a história da Igreja Adventista.

Nesse sentido, a previsão dos últimos capítulos da história da igreja converge para o paradigma do conflito como fator determinante, sendo que, “o trabalho que a igreja tem deixado de fazer em tempo de paz e prosperidade terá de realizar em terrível crise, sob as circunstâncias mais desanimadoras e difíceis” (Ellen G. White, Testemunhos Seletos, v. 2, p. 164).

O capítulo 13 do livro de Apocalipse reflete o desfecho desse conflito através de um mecanismo biunívoco (besta que emerge do mar e besta que emerge da terra) engendrado pelo dragão (símbolo de Satanás) para coagir todos os habitantes da face da terra (Ap 13:16). Aquele que não deseja receber a marca da besta terá de passar por uma experiência excruciante que envolve privação econômica, motejo público e ameaça de morte (Ap 13:7,15,17).

Sendo assim, o capítulo 13 de Apocalipse se justapõe ao capítulo 3 de Daniel no que concerne à batalha que todo homem terá de enfrentar. A Bíblia não deixa dúvidas quanto à assertiva de que a lei dos homens se afastará gradual e progressivamente da lei de Deus e de que cada pessoa terá que decidir entre uma das duas leis (At 5:29). Em suma, haverá um último grande conflito entre a verdade e o erro, uma luta final relativa à lei de Deus, uma última batalha entre as leis dos homens e os mandamentos do Senhor, “entre a religião da Bíblia e a religião das fábulas e da tradição” (O Grande Conflito, p. 582).

Sob esse contexto, o objetivo deste artigo é apresentar alguns modelos históricos de fidelidade aos mandamentos de Deus e resiliência de adventistas que, durante a Segunda Guerra Mundial, se envolveram em episódios de conflito em pontos específicos do planeta, como microestruturas ilustrativas para entendermos, em parte, o desfecho do grande conflito bíblico-escatológico de Apocalipse 13. Nesse sentido, é necessário observar que os exemplos negativos relacionados a adventistas que falharam em não seguir os princípios preestabelecidos pela igreja em situações beligerantes, não serão citados (apesar de serem historicamente patentes) por não se enquadrarem no escopo da pesquisa.

A lei da guerra e a lei de Deus

No contexto da Segunda Guerra Mundial, houve circunstâncias em que a igreja como um todo, ou membros pertencentes a ela, tiveram que tomar decisões que confrontavam a ordem de prioridades da guerra com o que a lei de Deus estabelece como princípio. Essas situações ocorreram porque, de maneira geral, a guerra define a necessidade de matar, violar o sábado e odiar os inimigos, fundamentos diametralmente opostos ao quarto e ao sexto mandamento do decálogo e, mais especificamente, à ordenança de Cristo no sentido de amar os inimigos.

O combate travado entre 1939 e 1945 mergulhou a igreja em um estado de conflito generalizado, atingindo-a em várias partes do mundo. Na Alemanha de Hitler, que havia anexado a Áustria por meio do Anschluss, em 1938, não havia isenção militar para não combatentes. Isso significava que, todo adventista em condições de lutar, quer fosse alemão ou austríaco, seria coagido a portar armas e trabalhar no sábado. Nessa época e neste contexto, cada um teve que lidar com esse problema de maneira pessoal, contando com ajuda exclusivamente de Deus. Para um adventista do sétimo dia, nenhuma misericórdia ou consideração poderia ser esperada da parte de um nazista (A. W. Spalding, Origin and History of Seventh-day Adventists, v. 4, 1962, p. 256, 257).

Apesar disso, os adventistas da Alemanha nazista se tornaram notáveis na ajuda privada e individual dada aos judeus (não apenas os convertidos ao adventismo). Relatos históricos apresentam adventistas, quakers e testemunhas de Jeová arriscando a vida para salvar essas pessoas, “embora não tenha havido um reconhecimento público deste trabalho” (C. E. King, The Nazi State and the New Religions, v. 4, 1982, p. 101, 102). Em países como a Alemanha, durante as duas grandes guerras mundiais, essa tensão foi mais pungente. Aqueles que, em idade militar, lutavam para se manter fiéis ao quarto e ao sexto mandamento viviam sob constante ameaça de prisão ou morte.

Em 1939, o partido nazista induziu noventa por cento das igrejas adventistas da Romênia a fecharem as portas. Antes do fim da Segunda Guerra Mundial, três mil adventistas daquele país estavam presos, alguns com sentenças de vinte e cinco anos (Richard. W. Schwarz, Light Bearers to the Remnant, 1979, p. 437), e outros receberam a pena capital. Na Iugoslávia, muitos membros da igreja morreram como mártires em função da fé que professavam e, na Croácia, todas as igrejas foram interditadas, a Associação daquele local foi dissolvida e a obra evangelística foi estritamente proibida (Review and Herald, 17/01/1946, p. 17, 18).

No Japão, todas as igrejas adventistas foram fechadas, muitas propriedades institucionais foram confiscadas e o exército convocou todos os homens dessas congregações que estavam em condições militares (Spalding, p. 262). Na manhã de setembro de 1943, na cidade de Fukuoka, o pastor Masaichi Imamura foi levado de sua casa para o cárcere, deixando em casa, uma jovem mãe, duas crianças pequenas e um bebê recém-nascido. Um ano e meio depois, Imamura morreu na prisão  (para saber mais sobre a história do pastor Masaichi Imamura, clique aqui).

Nos campos de internação e prisões Filipinas, oitenta e sete missionários adventistas ficaram sob custódia dos japoneses (A. W. Spalding, Origin and History of Seventh-day Adventists, v. 4, 1962, p. 265). Nas Índias Orientais, missionários alemães foram presos por holandeses, sendo conduzidos pelos britânicos para campos de internação, primeiro em Cingapura, e depois na Índia (p. 264).

Na Coreia, Choi Tai Heun, ex-presidente da União Coreana, e o pastor Kim Nei Choon, foram presos, torturados e mortos, tornando-se os primeiros mártires adventistas daquele país (Review and Herald, 24/01/1946, p. 1, 17). Na ilha de Bornéu, localizada no sudeste asiático, G. B. Youngberg, pioneiro adventista na União Malaia, morreu em um campo de concentração japonês (Review and Herald, 08/02/1945, p. 24). Marie Klingbeil, missionária na Indonésia durante 18 anos, também foi morta em um campo de concentração (Review and Herald, 24/07/1958, p. 7).

Ao mesmo tempo, em muitas regiões da Europa, os adventistas perderam seus bens, mas a grande maioria sobreviveu aos bombardeios ilesa e intocada. Muitas vezes, as habitações dos adventistas eram as únicas que ficavam de pé. Em muitos lugares, quando os aviões bombardeiros se aproximavam, os vizinhos corriam para as casas dos adventistas e pediam refúgio. Eles diziam que estavam convencidos de que Deus tinha um cuidado especial sobre os adventistas por causa da consistência de suas vidas cristãs (Review and Herald, 17/01/1946, p. 17). Na França, uma bomba destruiu a casa de um jovem médico adventista, mas ninguém de sua família foi ferido (Review and Herald, 04/07/1940, p. 24).

Em 6 de agosto de 1945, uma bomba atômica devastou a cidade de Hiroshima. Nessa primeira catástrofe nuclear, dezenas de milhares de japoneses morreram de forma instantânea, mas, milagrosamente, nenhum dos quarenta e dois adventistas, registrados nos livros da igreja de Hiroshima, perdeu a vida (Missions Quaterly, 1º trim. de 1949, v. 38, p. 21).

Exemplos individuais de resiliência diante de grandes tribulações também foram registrados em vários lugares afetados pela Segunda Guerra Mundial. Pouco tempo depois da anexação da Áustria à Alemanha nazista, na primavera de 1938, A. Gratz, um aspirante austríaco ao ministério, recebeu em sua caixa de correio uma convocação militar. Dentro de alguns dias, em uma manhã de quinta-feira, ele se tornaria parte da Wehrmacht, as forças armadas do nazismo. A grande crise se aproximava do jovem adventista. Durante os sete anos de serviço que abrangeram o período da Segunda Guerra Mundial, diante de grandes dificuldades, ele guardou o sábado, tendo sido sentenciado em uma ocasião à morte por fuzilamento, ordem que foi milagrosamente revogada (The Youth’s Instructor, 20/05/1947, p. 3, 4; ver também a edição de 27/05/1947, p. 5, 6).

Franz Hasel, o personagem retratado no livro Mil Cairão ao Teu Lado

Com o início da Segunda Guerra Mundial, Franz Hasel, colportor alemão de 40 anos de idade, pai de três filhos, também recebeu uma carta de convocação e foi integrado ao exército nazista. Nos seis anos seguintes, Hasel fez parte da Companhia 699, batalhão responsável pela tarefa de construir pontes onde a Wehrmacht desejasse avançar. Em outras palavras, Hasel sempre estaria entre os primeiros alemães a entrar no território inimigo. Decidido a não matar ninguém, ele jogou a arma em um lago e, em seu lugar, carregava no coldre um revólver de madeira. A companhia 699 tinha 1,2 mil integrantes em 1939, mas, ao fim da guerra, apenas sete homens da unidade original sobreviveram, dos quais três nunca sofreram ferimentos. Um deles era Franz Hasel (Susi Hasel Mundy e Maylan Schurch, Mil Caira?o Ao Teu Lado, 2004, p. 10, 11, 34-36, 155).

No primeiro dia da Batalha de Hong Kong, em dezembro de 1941, o canadense C. E. Wood, arquiteto da Divisão Chinesa da Igreja Adventista, que permaneceu na cidade, viu trinta e dois grandes aviões bombardeiros passando sobre sua cabeça. Vários prédios foram destruídos por bombas que caíram ao seu redor em todas as direções e, durante os dezessete dias da batalha, de 8 a 25 de dezembro, ele se escondeu em uma garagem, e depois em um campo de refugiados.

Uma grande mansão, e também uma montanha, que estava próxima ao seu primeiro abrigo, foram bombardeadas, e estilhaços atingiram o prédio onde ele se escondia. No campo de refugiados, o seu segundo abrigo, ele viu uma bomba explodir enquanto o jantar era servido. A batalha terminou e Wood foi levado para o campo de internação Stanley, localizado ao sul da ilha de Hong Kong, onde permaneceu prisioneiro de janeiro de 1942 a setembro de 1943. Quando Wood já estava em segurança, distante do conflito, ele deu o seguinte testemunho: “Quando as bombas e os projéteis eram densos ao nosso redor, eu entendi o que Davi quis dizer no Salmo 4: ‘Em paz me deito e logo pego no sono, porque só tu, Senhor, me fazes repousar seguro’” (Review and Herald, 17/02/1944, p. 12-15).

Desmond Doss foi condecorado pelo então presidente norte-americano Harry S. Truman no dia 12 de outubro de 1945

Nas Ilhas Salomão, o pastor Kata Ragoso coordenou as igrejas e, ao mesmo tempo, arriscou a vida ajudando a resgatar aviadores aliados. Acusado de insubordinação pelos oficiais japoneses, Ragoso foi colocado diante de um pelotão de fuzilamento, mas, de maneira miraculosa, o oficial não conseguiu dar a ordem final, mesmo após três tentativas (R. W. Schwarz, Light Bearers to the Remnant, 1979, p. 436).

Todavia, foi na batalha de Okinawa que um adventista se tornou um dos maiores heróis da Segunda Guerra Mundial. Por cerca de doze horas, o paramédico Desmond T. Doss salvou setenta e cinco soldados feridos, carregando-os um a um, sob fogo de artilharia, morteiros e metralhadoras. Totalmente desarmado! Doss desceu soldado após soldado, até o último homem, para a base americana da Escarpa Maeda, uma parede de 120 metros que cercava a frente da ilha de Okinawa e que servia de quartel-general para os militares japoneses. Durante esse tempo, o único pensamento de Doss era uma oração: “Senhor, ajude-me a salvar mais um!” Um mês depois do fim da Segunda Guerra Mundial, Doss recebeu a Medalha de Honra, maior condecoração militar dos Estados Unidos (Review and Herald, 01/11/1945, p. 2).

Conclusão

“O relógio do tempo está prestes a badalar a hora mais solene de toda a história” (N. M. Butler, A World in Ferment, 1918, p. 249). “Uma grande crise aguarda o povo de Deus. Uma crise vai envolver o mundo. A mais terrível luta de todos os séculos está justamente à nossa frente” (Testemunhos Para a Igreja, v. 5, p. 711). Com estas palavras, em 26 de setembro de 1939, a comissão da União Pacífico Norte, introduziu o seu apelo às igrejas de seu campo, enfatizando a necessidade de aceleração na recolta para auxiliar os campos missionários dos países em guerra (North Pacific Union Gleaner, 26/09/1939, p. 1).

Entretanto, a parte inicial do capítulo 12 de Daniel demonstra que ainda “haverá um tempo de angústia, qual nunca houve, desde que houve nação” (Dn 12:1), diante do qual os eventos da Segunda Guerra Mundial e das outras grandes guerras são apenas uma versão em miniatura. Mas, para aqueles que lutam para permanecer fiéis a Deus, a promessa é: “Eu te guardarei da hora da tentação que há de vir sobre todo o mundo” (Ap 3:10).

FLÁVIO PEREIRA DA SILVA FILHO, mestre em Teologia Bíblica, é pastor e jornalista

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  • Adiel Lopes

    É de suma importância para o legado da igreja aproveitar o momento que se relembra o que ocorreu na segunda guerra mundial e também expor a verdade sobre fatos que nos envergonham na questão da liberdade religiosa e tolerância expondo também episódios como este: https://news.adventist.org/pt/todas-as-noticias/noticias/go/2005-08-15/europa-alemanha-austria-igrejas-apologize-por-acoes-durante-holocausto/
    Mais que garantir a verdade é bom que não se omita que também pessoas ligadas à organização da igreja trabalharam ou defenderam o nazismo na sua forma mais covarde, vergonhosa e contrária à vontade de Deus

    • Flávio Filho

      Bom dia, amigo. É bom verificar o escopo da pesquisa no parágrafo anterior ao tópico: “A lei de Deus e a lei da guerra”.