Quando vale a pena pagar o preço

Os irmãos John e Gabrielle Weidner tiveram destinos diferentes, mas uma atitude em comum: testemunhar de Cristo em meio ao horror da Segunda Guerra Mundial

Wilona Karimabadi

John Weidner recebendo a Medalha da Liberdade dos Estados Unidos, em 1946, na Holanda. Foto: Adventist Review Ministries Collection

A história a seguir tem duas partes. A primeira tem um final feliz, enquanto a outra não. No entanto, elas apresentam um denominador comum: é preciso ter coragem em situações difíceis, até mesmo diante daquelas com consequências terríveis como a morte. É para isso que Deus nos chama. E, se esse for seu caso, saiba que Ele não o deixará sozinho.

UM HOMEM MARCADO

John Henry Weidner nasceu em uma família holandesa adventista, na Bélgica, em 1912. Seu pai era pastor e professor de grego e hebraico no que é agora a Salève Adventist University, na fronteira entre a França e a Suíça, próximo a Genebra. Quando criança, Weidner passou grande parte do tempo escalando as montanhas ao redor do seminário, conhecendo minuciosamente aquele campus pitoresco.

Na época, mal sabia ele que estava adquirindo um conhecimento que seria muito importante para o trabalho que faria anos mais tarde. Após completar parte dos estudos ali, Weidner estudou Administração e Direito em Genebra e em Paris. Ele acabou entrando para a indústria têxtil, sendo bemsucedido na capital francesa e no interior do país.

Em junho de 1940, a população de Paris estava fugindo da cidade devido à aproximação do exército alemão. A União Franco-Belga da Igreja Adventista tinha sua sede na capital francesa, onde Gabrielle, a irmã mais nova de Weidner, trabalhava como secretária do presidente.

Contudo, surgiu a necessidade de mudar a sede da União para o sul da França, e Wedner ajudou na transferência. Naquela época, ele trabalhava próximo a Lyon, e foi ali que se envolveu numa organização secreta de resistência, chamada Dutch-Paris. Essa organização era formada por mais de 300 “agentes” que dirigiam uma linha clandestina de fuga da Holanda, passando pela Bélgica e França, até a Suíça. Eles usaram duas rotas: por Collonges-sous-Salève, na fronteira franco-suíça, e fugindo por Andorra até a Espanha, passando por um caminho perigoso entre os Montes Pirineus. Essa organização secreta acabou ajudando 800 judeus, 100 aviadores aliados que haviam sido feridos e muitos outros a escapar da morte certa.

“Quando a guerra começou, eu pensei como um ser humano, me perguntando: como ajudar as pessoas? Concluí que eu podia ajudar. Se um judeu conseguisse chegar à Espanha ou à Suíça, estaria salvo. Esses países eram neutros. A grande dúvida era como chegar à Suíça saindo da Holanda. Os soldados de Hitler, da Gestapo, estavam em todos os lugares. As fronteiras estavam fechadas. E a fronteira entre a França e a Suíça era fortemente guardada, porque os nazistas sabiam que os judeus estavam tentando passar por ali. Mas eu conhecia desde meu tempo de infância a fronteira em Collonges-­sous-Salève”, relatou Weidner. Esse trecho foi resgistrado pela cientista política norte-americana Kristen Renwick Monroe num livro em que ela conta a história de cinco pessoas comuns que assumiram uma postura moral corajosa para salvar judeus do nazismo (The Hand of Compassion: Portraits of Moral Choice During the Holocaust, p. 102 e 103).

Obviamente, a tarefa de John Wedner era extremamente perigosa, e não demorou muito para que ele chamasse a atenção dos nazistas, chegando ao topo da lista dos mais procurados pela Gestapo. John foi preso e torturado em três ocasiões distintas. Talvez em uma delas ele tenha sido interrogado por Nikolaus “Klaus” Barbie, conhecido como o “açougueiro” de Lyon.

De modo impressionante, John sobreviveu a esses interrogatórios e à traição de uma colega de operação da Dutch-Paris, que entregou informações de 150 membros da organização, após ser torturada. Vários deles foram enviados para campos de concentração e nunca mais foram vistos.

Depois do fim da guerra, ele trabalhou por um período para o governo holandês, ajudando a identificar colaboradores do regime nazista no país. Entretanto, na década de 1950, John decidiu recomeçar a vida nos Estados Unidos, onde conheceu a esposa, Naomi, uma fiel adventista.

Ele iniciou uma nova carreira profissional, abrindo uma rede bem-sucedida de lojas de alimentos saudáveis no sul da Califórnia, que ficou conhecida como Weidner Natura Foods. Ele foi ativo em sua comunidade e igreja local. Os esforços de Weidner no tempo da guerra não passaram despercebidos, embora ele preferisse o silêncio sobre sua vida na Europa. Por causa de sua coragem, ele recebeu diversas condecorações dos governos dos Estados Unidos, do Reino Unido, da França, Bélgica, Holanda e Israel. Em 1993, quando o Museu em Memória do Holocausto foi inaugurado em Washington, capital norte-americana, ele foi uma das sete pessoas escolhidas para acender as velas dedicadas aos que resgataram judeus.

Certa vez, conforme registraram Carol Rittner e Sondra Myers, Weidner disse: “Durante a vida inteira, todos nós temos que fazer escolhas: pensar apenas em si mesmo e conseguir o que puder para si ou pensar nos outros, servir e ser útil para os necessitados. Creio ser muito importante desenvolver nosso cérebro e conhecimento. Contudo, é mais importante desenvolver nosso coração para que esteja sempre sensível ao sofrimento dos outros. Quanto a mim, sou apenas uma pessoa comum, apenas alguém que quer ajudar seu próximo. Esse é o anseio de Deus para mim: pensar nos outros, ser altruísta. Não sou ninguém excepcional. Se tenho um herói, ele é Deus, que me ajudou a cumprir minha missão, a fazer o que eu tenho que fazer” (The Courage to Care, p. 65). John faleceu em 1994, no sul da Califórnia (EUA).

FIEL ATÉ O FIM

John, ao centro, perto da árvore plantada em sua homenagem na Avenida dos Justos entre as Nações, no museu Yad Vashem, em Jerusalém. Foto: Adventist Review Ministries Collection

Quando aquela agente entregou os nomes de 150 colaboradores da Dutch-Paris, uma daquelas pessoas tinha grande importância para John: sua irmã Gabrielle. Lembrada por aqueles que a conheceram como uma pessoa gentil, com lindos olhos e uma natureza doce, Gabrielle viveu e trabalhou em Paris durante a maior parte do tempo em que seu irmão estava enviando pessoas clandestinamente para a Suíça. Não se sabe por que ela entrou nessa organização de resistência ao nazismo; talvez tenha sido a proximidade com o irmão mais velho. O fato é que ela nunca o traiu.

No último sábado de fevereiro de 1944, a Gestapo prendeu Gabrielle no culto numa igreja adventista em Paris. Ela foi levada de volta para seu apartamento, no mesmo prédio que abrigava a sede da União e da Associação locais. Permitiram que ela reunisse rapidamente alguns itens pessoais antes de ser levada para a prisão Fresnes, na periferia da capital francesa. Ela permaneceu ali até agosto de 1944, a despeito de todo esforço realizado para libertá-la.

Em meados de agosto, os aliados estavam a apenas 60 km de Paris, mas, antes que libertassem a cidade, Gabrielle foi enviada para os campos de morte. Ela desembarcou em Ravensbrück, no norte da Alemanha, em 21 de agosto, quatro dias antes de os aliados chegarem a Paris.

De lá, Gabrielle e outros presos políticos foram transferidos para Torgau, um subcampo de Buchenwald, onde havia trabalho forçado. Em Torgau, as mulheres eram usadas na fabricação de bombas e granadas. A saúde de Gabrielle, que nunca foi das melhores, deteriorou rapidamente. Em outubro de 1944, ela foi enviada de volta para Ravensbrück e, na sequência, para o subcampo de Königsberg.

Os registros disponibilizados pelo Museu do Holocausto, nos Estados Unidos, confirmam que ela chegou a Königsberg em 29 de outubro. Esse era um campo destinado a um único propósito: o extermínio. As condições ali eram deploráveis. As mulheres dormiam em bancos de madeira, tendo como cobertor sacos cheios de papel. Quase não havia comida e elas enfrentavam o frio vestidas em farrapos. As prisioneiras que ficavam muito doentes eram enviadas para uma enfermaria, e foi ali que Gabrielle passou o restante dos seus dias.

Madeleine Billot era amiga de John ­Weidner. Ela também foi deportada para Ravensbrück, onde acabou conhecendo Gabrielle. Billot sobreviveu, e após a guerra pôde contar a John o testemunho de sua irmã no campo. “Gabrielle sempre deu um maravilhoso testemunho de
sua fé em Deus. Ela estava na enfermaria de Königsberg e, mesmo ali, estava sempre animando as outras”, registrou Herbert Ford no livro Flee the Captor (Heview and Herald, 1996), páginas 352 e 353.

Gabrielle Weidner, irmã de John, que não teve o mesmo destino dele. Foto: Adventist Review Ministries Collection

A libertação era iminente em fevereiro de 1945. Porém, as mulheres que podiam se movimentar foram conduzidas pela SS numa marcha para a morte. As que estavam muito fracas, como Gabrielle, foram deixadas para morrer. Nos momentos finais da guerra, como fizeram em muitos campos de concetração, a SS incendiou os quartéis e as enfermarias. Milagrosamente, Gabrielle foi retirada das chamas no último momento. O campo foi libertado em 5 de fevereiro de 1945. Contudo, era muito tarde.

Alguns registros declaram que a morte de Gabrielle aconteceu em 15 de fevereiro; outros, no dia 6 de fevereiro (Gedenkbuch für die Opfer des Konzentrationslagers ­Ravensbrück 1939-1945 [Metropol, 2005], p. 655). A verdadeira causa da morte de Gabrielle nunca foi registrada. Após a guerra, John tentou encontrar o local do descanso final de sua irmã, mas nunca achou. Só o Senhor sabe onde Gabrielle ­Weidner aguarda a ressurreição.

As histórias dos irmãos ­Weidner tiveram desfechos dramaticamente diferentes. Ambos foram criados para seguir o exemplo de Jesus e isso claramente influenciou a contribuição que deram para o mundo e como se portaram diante de situações terríveis. A biografia deles ainda serve de inspiração para nós. A lição que fica é que podemos agir com coragem e caminhar de mãos dadas com nosso Salvador, sabendo que Aquele que nos chama nunca nos esquece.

WILONA KARIMABADI é editora assistente da revista Adventist World

(Publicado na edição de agosto de 2019 da Revista Adventista)

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