Espelho

Como Deus vê a igreja, que não é um simples prédio nem estrutura, mas Seu povo especial
Marcos De Benedicto
Foto: Adobe Stock

A igreja é uma entidade tão maravilhosa que a Bíblia usa dezenas de imagens, metáforas e símbolos para descrevê-la. No Novo Testamento, quase todas as descrições da igreja empregam linguagem figurada, como edifício de Deus (1Co 3:9), família de Deus (Ef 2:19), família da fé (Gl 6:10), templo do Espírito (1Co 3:16-17; 6:19), sacerdócio real (1Pe 2:5), corpo de Cristo (1Co 12:27; Ef 5:23; Cl 1:18) e noiva/esposa de Cristo (Ef 5:31-32; Ap 19:7-8; 21:9). Essas metáforas, naturalmente, não esgotam o conceito. Poderíamos acrescentar, por exemplo, que a igreja é um salão de festa, pois é onde os pecadores se arrependem e Deus celebra essa decisão.

No sentido mais profundo, a identidade da igreja é definida por sua natureza espiritual. Ela não depende de fatores horizontais, mas de relações verticais: somos o povo de Deus, a igreja de Jesus Cristo, o templo do Espírito. Em geral, usamos o nome “igreja de…”. Porém, o que realmente a define não é a cidade. A identidade da igreja transcende nome e lugar.

Entre outras coisas, a igreja é doxológica (voltada para a glória de Deus), logocêntrica (centralizada na Palavra encarnada e escrita), pneumatológica (formada e energizada pelo Espírito Santo), missional (criada para cumprir uma missão) e escatológica (existe na atualidade e está destinada à eternidade). Humana e “divina”, presente e futura, terrena e celestial, a igreja é uma agência de origem divina, não um projeto de iniciativa humana; uma assembleia espiritual, não uma entidade política; um povo multiétnico, não um gueto racial; um espaço de liberdade, não um local de aprisionamento; um recinto de cura, não um lugar de ferimento; um ambiente de mudança, não uma área de estagnação; o teatro da graça, não o palco da condenação.

Apesar de ser sagrada e ter uma missão sublime, a igreja precisa ser avaliada e, às vezes, corrigida, porque a transformamos em um ritual vazio. Talvez você não conheça bem a igreja, mas Deus conhece. Na descrição das sete igrejas em Apocalipse 2 e 3, o Cristo glorificado caminha no meio dos candelabros, símbolos das igrejas, e usa uma série de expressões que indicam Seu detalhado conhecimento de cada uma delas. Ele repete 11 vezes as palavras “conheço” e “sei”. “Eu sou Aquele que sonda mentes e corações”, Ele realça (2:23).

Desde o Gênesis até o Apocalipse, vemos Deus preocupado com a condição espiritual do Seu povo. Por isso, os escritores bíblicos elogiaram e consolaram a nação/igreja, tratando-a ternamente como noiva/esposa, mas também bateram pesado, classificando-a de prostituta (Jr 2, 3, 5, 13; Ez 16, 23; Os 1–5). Esse recurso parece ofensivo hoje, mas foi a maneira de dizer que Israel e Judá estavam se comportando como os povos que idolatravam os deuses e deusas da fertilidade. João igualmente descreve a igreja apostatada em Apocalipse 17 como meretriz. Felizmente, a imagem que prevalece é a da esposa fiel, pura e linda vivendo em felicidade eterna ao lado do Esposo.

Ao ler a matéria de capa, que apresenta um retrato instantâneo do povo de Deus na América do Sul, pense em sua própria realidade. Longe de ser dados áridos, os números indicam parâmetros importantes para reflexão. Você está disposto a se olhar no espelho?

Acima de tudo, é importante que o próprio Deus nos “pesquise”. O salmista orou: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno” (Sl 139:23, 24). Que essa seja a nossa oração!

MARCOS DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista

(Editorial da edição de setembro de 2019)

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