Depois dos 60

Casal aposentado mostra que nunca é tarde para viver novas experiências e atender ao chamado de Deus
Márcio Tonetti
Crédito da foto: Fernando Borges

Estabelecer contato com Helenice e Paulo de Mello não foi fácil. Na maior parte do tempo, eles ficam incomunicáveis. É que há quatro meses o casal de 68 e 70 anos, respectivamente, tem percorrido os rios e labirintos do Amazonas numa das lanchas Luzeiro. Depois de participarem de missões de curta duração na África, China e Peru, eles dedicarão um ano ao trabalho voluntário no interior do maior estado brasileiro. Sempre muito dedicados à igreja, a enfermeira e o fisioterapeuta serviram durante vários anos em instituições de saúde adventistas. Aposentados, deixaram de bater ponto, mas o compromisso missionário continuou o mesmo. A ponto de sacrificarem o contato mais frequente com as duas filhas e os três netos para levar a mensagem adventista a lugares desafiadores. Foi durante um fragmento de tempo com sinal telefônico que Helenice concedeu a entrevista a seguir.

Algumas pessoas entram em crise quando chega a hora de se aposentar. Como vocês reagiram?

No nosso caso, foi tranquilo. Nunca pensamos em parar completamente. Apenas deixamos de ser funcionários para ser voluntários. Há vida útil depois da aposentadoria. Apesar da idade e do desgate do corpo, a vitalidade se prolonga quando a gente se doa.

Qual é o sabor de curtir a terceira idade envolvidos na missão?

É doce e gratificante. Vale a pena experimentar! Apesar dos desafios, receber o carinho das pessoas em diferentes lugares alimenta a alma.

Certamente essa experiência não tem sido só trabalho…

A vida tem que ser temperada. Não é só trabalhar, assim como viver apenas na ociosidade ou na contemplação não traz realização nem felicidade. Por isso, ao mesmo tempo que estamos trabalhando na missão, temos desfrutado da viagem, experimentando momentos de recreação da alma e renovação do Espírito. Ver o sol nascer, refletindo-se na água; sentir os aromas da floresta; ouvir o canto dos pássaros; experimentar sabores com os quais não estamos acostumados … Não tem dinheiro que pague! Poucos aposentados têm o privilégio que estamos tendo de ver tão de perto as obras do Criador na natureza e na vida das pessoas, e sentir Sua proteção e direção.

Que tipo de desafios já enfrentaram?

Dois meses depois de chegarmos ao Amazonas, meu esposo contraiu pneumonia e teve que ser levado rapidamente para Manaus. Sua situação era delicada, mas Deus providenciou os meios para restaurar sua saúde. Há poucos dias, visitando a casa de uma família ribeirinha, eu caí e quebrei o braço direito. Alguns pensaram que retornaríamos para casa depois dessa situação, mas decidimos continuar. As experiências ao longo da vida nos ensinaram a enfrentar as adversidades.

O que aprenderam nessas novas experiências transculturais?

Ao entrar em novas culturas, é preciso entender seus valores e costumes, fazer adaptações e sair da zona de conforto. Essa experiência está sendo uma nova escola para nós. Especialmente depois que estivemos na África, confirmamos o que já sabíamos: para viver, é preciso menos do que se imagina.

Como tem sido ficar longe dos familiares numa fase em que geralmente há maior necessidade afetiva?

Essa é a parte mais difícil. Em alguns lugares, passamos vários dias sem comunicação com o mundo externo. A saudade é grande, de ambos os lados. Mas temos tentado conciliar as coisas. Um dos planos que temos é atender ao pedido de uma das filhas, que vive na Itália. Ela tem nos desafiado a passar um tempo na missão lá, a fim de ficarmos mais próximos.

A essa altura, quais sonhos vocês ainda pretendem realizar?

Talvez participar de uma missão de longo prazo por meio da Adventist Frontier Missions (AFM). Mas nossa vida está nas mãos de Deus. Enquanto tivermos saúde e Deus tiver chamado para nós, pretendemos continuar.

(Entrevista publicada na edição de setembro de 2019 da Revista Adventista)

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