Datas para o advento

A postura cristã correta é de vigilância e não de especulação sobre o dia do retorno de Cristo
Flávio Pereira da Silva Filho
Ascension Rock (Rocha da Ascensão), na fazenda de Guilherme Miller, perto de Hampton, Nova York: local onde dezenas de pessoas esperaram que Jesus retornasse em 22 de outubro de 1844. Crédito: Adventist Archives

Era terça-feira, 22 de outubro, como hoje. O grupo de pessoas da Costa Leste dos Estados Unidos acreditava que aquele não seria um dia qualquer, mas sim o último neste planeta. Uma pregação persuasiva, referente à volta de Jesus, que começou com um simples fazendeiro, no verão de 1831, terminou com um público expectante estimado em centenas de milhares, no outono de 1844 (Cf. S. Bliss, Memoirs of William Miller, 1853, p. 98; W. R. Cross, The Burned-over District, 1950, p. 287; C. E. Sears, Days of Delusion, 1924, p. 244, 245).

Depois de um estudo extensivo e aprofundado das profecias bíblicas durante sete anos, de 1816 a 1823, Guilherme Miller concluiu que tudo chegaria ao fim (cf.: W. Miller, Apology and Defence, August 1, p. 15; Miller’s Works, v. 1. Views of the Prophecies and Prophetic Chronology, p. 11). Em seus primeiros anos de investigação (1816-1818), ele buscou compreender e harmonizar períodos proféticos, como os 2.300 dias de Daniel 8:14; os 1.290 dias e os 1.335 dias de Daniel 12:11, 12, bem como os 1.260 dias de Apocalipse 11:3 e 12:6 (cf. Daniel 7:25; Apocalipse 11:2; 12:14; 13:5). Isso levou-o à conclusão de que Cristo poderia retornar por volta de 1843 (Alberto R. Timm, “The Sanctuary and the Three Angels’ Messages” [tese de doutorado], 1995, p. 7). Os cinco anos subsequentes (1818-1823) foram de recapitulação minuciosa, somando-se a esses mais oito anos de luta angustiosa com Deus (1823-1831), por medo de proclamar a mensagem (Memoirs of William Miller, p. 97, 98).

Diagrama Profético de 1843 preparado por Charles Fitch e usado pelos mileritas, antes do Grande Desapontamento, na pregação da volta de Jesus. Crédito: Centro de Pesquisas Ellen G. White

Um fator fundamental para que os mileritas, movimento que recebeu o nome de seu primeiro pregador, acreditassem que a data do fim do mundo seria 22 de outubro de 1844 foi a dupla interpretação de Miller sobre a purificação do santuário de Daniel 8:14, referente à igreja e à Terra. Esse pensamento se tornou predominante após 1842 (Cf.: W. Miller, Letter to Joshua V. Himes on the Cleansing of the Sanctuary, 1842. p. 8; P. Gerard Damsteegt. Foundations of the Seventh-Day Adventist Message and Mission, p. 34). Partindo desse pressuposto, a Terra era o santuário que seria purificado com o fogo que acompanharia a volta de Jesus, sendo esse raciocínio parcialmente coerente com 2 Pedro 3:7, onde está escrito que “os céus e a terra que agora existem têm sido guardados para o fogo, estando reservados para o Dia do Juízo e da destruição dos ímpios”.

É importante lembrar que a transição a.C. – d.C., com inexistência de um ano zero na escala histórica, e a correção posterior feita por Samuel Snow, fixaram a data em 22 de outubro de 1844 (S. Snow, Midnight Cry. February 22, 1844; The True Midnight Cry. August 22, 1844). O cálculo foi corrigido, e as informações histórico-interpretativas, referentes às datas de Daniel 8:14 e 9:24-27, estavam corretas, com exceção de um detalhe hermenêutico que, em sua falta, gerou uma avalanche de problemas que tornou aquele dia de outono mundialmente conhecido como “O Grande Desapontamento”.

O único ponto despercebido pelos mileritas, correspondia a um fator estrutural que está escrito em Hebreus 8:1, 2, onde há a afirmação de que Cristo, o Sumo Sacerdote, “Se assentou à direita do trono da Majestade nos Céus, como Ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, e não o homem”. Esse texto transfere o santuário de Daniel 8:14 para o Céu, contrapondo-se à interpretação tradicional milerita.

Um pequeno fator interpretativo gerou um turbilhão de relatórios dramáticos, associados à expectativa gerada entre aqueles que acreditavam que o mundo terminaria em 22 de outubro de 1844. Henry Emmons, um milerita, descreveu o desapontamento com as seguintes palavras: “Esperei toda a terça-feira [22 de outubro] e o querido Jesus não veio; esperei toda a manhã de quarta-feira e estava bem de saúde como sempre, mas depois das 12 horas comecei a me sentir fraco e, antes do anoitecer, precisei de alguém para me ajudar em meu quarto, pois minha força natural estava me deixando muito rapidamente, e fiquei prostrado por 2 dias, sem sentir qualquer dor – doente de decepção” (The Day-Star, October 25, 1845, p. 6).

No estado de New Hampshire, irmãos que semearam e plantaram em seus campos, não fizeram a colheita “para mostrar fé por meio de suas obras e, assim, condenar o mundo”. Essa prática se estendeu rapidamente pelo norte da Nova Inglaterra (The Advent Herald, and Signs of the Times Reporter, October 16, 1844, p. 88). Joseph Marsh, pregador milerita, abriu sua loja no dia 21 de outubro, e convidou a multidão para que pegasse chapéus, guarda-chuvas e o que mais precisassem. O dono de uma padaria em um local próximo se desfez de seus bens da mesma maneira (George. R. Knight, William Miller and the Rise of Adventism, 2010. p. 96, 177). Henry Bear, que também acreditava que o mundo chegaria ao fim, saldou todos os débitos de seus devedores, e doou seus bens e a chave de sua casa, ficando com menos de 80 dólares (Ronald L. Numbers & Jonathan M. Butler (eds.), The Disappointed: Millerism and Millenarianism in the nineteenth century, 1993, p. 219, 220).

No entanto, um problema ainda maior se configurava para os dias seguintes dos mileritas. Um primeiro desapontamento já havia acontecido no dia 21 de março de 1844. Catorze meses antes dessa data, em janeiro de 1843, Miller havia afirmado: “Acredito que o tempo possa ser conhecido por todos que desejam entender e estar prontos para Sua volta [de Jesus]. E estou completamente convicto de que em algum momento entre 21 de março de 1843 e 21 de março de 1844, de acordo com o modo judeu de computar o tempo, Cristo virá” (Signs of the Times, January 25, 1843, p. 147). Nesse sentido, o desapontamento de 22 de outubro, era o segundo e, infelizmente, não seria o último.

“Confusão e desorientação caracterizaram tanto os líderes mileritas quanto os seguidores, entre 22 de outubro de 1844 e o fim do ano. Por um período, muitos continuaram a buscar diariamente o cumprimento imediato da profecia dos 2.300 dias e a volta de Cristo. Alguns estabeleceram a vinda para 23 de outubro, enquanto outros estabeleceram datas subsequentes. Entretanto, todas as previsões acabaram em frustração” (William Miller and the Rise of Adventism, 2010. p. 190).

O fenômeno referente à marcação sucessiva de datas para a volta de Jesus se estenderia para além dos limites do milerismo e do século 19, até os nossos dias. Lembremos de outros casos desse tipo registrados ao longo desse período:

  • John George Rapp (1757-1847) fundou, na Alemanha, o segmento religioso chamado Harmony Society, e pregava que Jesus voltaria em sua vida. Rapp permaneceu com essa convicção, mesmo quando estava no leito de morte, em 7 de agosto de 1847 (A. Williams, The Harmony Society at Economy, Penn’a, 1866, p. 182).
  • John Wroe (1782-1863) foi um evangelista britânico que fundou a Igreja Israelita Cristã na década de 1820. Ele profetizou o começo do milênio para 1863 ( Lee, Dictionary of National Biography, v. 58, 1900, p. 160).
  • Charles Taze Russell (1852 – 1916) fundou o movimento Estudantes da Bíblia, e foi o primeiro editor da revista A Sentinela, publicada pelas Testemunhas de Jeová. Russell acreditava que Cristo havia retornado invisivelmente em outubro de 1874 ( W. Schulz, A Separate Identity: Organizational Identity Among Readers of Zion, v. 1, 2014, p. 162).
  • Testemunhas de Jeová. Os Testemunhas de Jeová acreditam que 1914 marcou o início da presença invisível de Cristo como o Rei do Reino de Deus (E.C. Gruss, Jehovah’s Witnesses, 2007, p.78).
  • John Chilembwe (1871-1915) foi um educador batista que, em 1915, liderou uma rebelião em Niassalândia, uma pequena região da África que, na época, estava sob o protetorado do Império Britânico. Ele previu que o milênio começaria naquele ano (Y. Gershoni, Africans on African-Americans, 2016, p. 50).
  • Rudolf Steiner (1861-1925) previu que Cristo reapareceria no plano etéreo entre 1930 e 1940 (The Reappearance of Christ in the Etheric).
  • Herbert W. Armstrong (1892-1986), pastor-geral e apóstolo da Rádio Igreja de Deus, e depois da Igreja Mundial de Deus, propôs o ano de 1975 para a volta de Jesus (S. W. Boston, The Essential Teachings of Herbert W. Armstrong, 2001, p. 238; Teresa Watanabe, The Year of Believing in Prophecies, Los Angeles Times, March 31, 1999).
  • Edward G. Dobson (1949 – 2015), pastor norte-irlandês-americano, previu a volta de Cristo para o ano 2000 (Ed. Dobson, 50 remarkable events pointing to the end: why Jesus could return by A.D. 2000, 1997).
  • Ronald Weinland (1949) propôs quatro datas para o retorno de Cristo: 2008, 2012, 2013 e 2019 ( Aragão, “Profeta” diz que Jesus Cristo está voltando em 27 de maio de 2012, 9 de janeiro de 2012; R. Weiland, Is Christ About to Return? …Could it be in less than a year?, June 9, 2018).

Diante do extenso histórico de fracassos e hipóteses, uma pergunta é inevitável: depois que a sirene tocou tantas vezes, e o alarme mostrou-se falso, ainda é válido esperar? A verdade é que todos esses eventos são cortinas de fumaça que fazem os desatentos se esquecerem de que o mais importante não é a data, mas a vigilância constante. A advertência que Cristo deu há dois mil anos para um grupo de discípulos, que também tinham uma expectativa equivocada sobre o fim, ainda é válida para o século 21: “Vigiem, porque vocês não sabem em que dia virá o Senhor de vocês. Porém, considerem isto: se o pai de família soubesse a que hora viria o ladrão, vigiaria e não deixaria que a sua casa fosse arrombada. Por isso, estejam também vocês preparados, porque o Filho do Homem virá à hora em que vocês menos esperam” (Mt 24:42-44).

Ao lembrarmos, 175 anos depois, do Grande Desapontamento, não podemos, evidentemente deixar no ar apenas o lado negativo da experiência milerita. Afinal, esse fato levaria um grupo de pessoas a se aprofundarem no estudo das Escrituras e a ter uma visão mais ampla das verdades bíblicas que deveriam ser proclamadas no tempo do fim. Assim, sob a perspectiva bíblica, mesmo essa situação de inexplicável perplexidade cumpriu um objetivo profético. Apocalipse 10:11 fala de um livro que era doce como o mel para quem o comia, porém “amargo” após ser comido. “A mensagem do livrinho era doce para os que a ouviram, mas tornou-se amarga quando Jesus não veio no tempo esperado (1844)” (J. J. Battistone, Sabbath School Lesson, 2nd, 1989, p. 83).

“Os que proclamaram esta advertência [que corresponde à pregação de juízo do primeiro anjo de Apocalipse 14:6 e 7] deram a mensagem devida no devido tempo. Mas, assim como os primitivos discípulos, com base na profecia de Daniel 9, declararam: “O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo” – ao mesmo tempo em que deixaram de perceber que a morte do Messias estava predita na mesma passagem, de igual modo, Miller e seus companheiros pregaram a mensagem com base em Daniel 8:14 e Apocalipse 14:7, e deixaram de ver que havia ainda outras mensagens apresentadas em Apocalipse 14, que também deveriam ser dadas antes do advento do Senhor. Assim como os discípulos estiveram em erro quanto ao reino a ser estabelecido no fim das setenta semanas, também os adventistas se enganaram em relação ao fato a ocorrer à terminação dos 2.300 dias. Em ambos os casos houve aceitação de erros populares, ou antes, uma adesão a eles, cegando o espírito à verdade. Ambas as classes cumpriram a vontade de Deus, apresentando a mensagem que Ele desejava fosse dada, e ambas, pela sua própria compreensão errônea da respectiva mensagem, sofreram desapontamento” (E. G. White, O Grande Conflito, p. 352).

Alguns anos depois do desapontamento, uma mulher simples e de oração, que também esteve no olho do furacão milerita, apresentou um conselho inspirado para os irmãos. Resumindo, a recomendação seria assim: em lugar de fazermos cálculos, como se soubéssemos que a obra fosse findar no outono, deveríamos, perguntar todos os dias para Deus: “Qual é a minha tarefa para hoje?” (E. G. White, Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 188). Nesse sentido, o próprio Cristo afirmou: “Não cabe a vocês conhecer tempos ou épocas que o Pai fixou pela Sua própria autoridade”. Porque “a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos Céus, nem o Filho, senão o Pai” (At 1:7; Mt 24: 36, 42-44).

FLÁVIO PEREIRA DA SILVA FILHO, mestre em Teologia Bíblica, é pastor e jornalista

Veja também

Firme na Rocha

Internato carioca completa 80 anos procurando manter vivo o elo entre a fé e o ensino.