Quase desconhecido

Quem foi o afrodescendente que fez resplandecer a esperança do advento nas regiões centro-oeste, sul e sudeste do Brasil
Elder Hosokawa
Apesar de ter passado pelo seminário, Domingos Costa nunca se tornou pastor. Mesmo assim, seus esforços evangelísticos produziram grandes resultados, inclusive em comunidades quilombolas do sul do Brasil. Ilustração: JoCard

Há quase noventa anos, diversos periódicos adventistas nos Estados Unidos (Adventist Review), na Ásia (Far Eastern Division Outlook), na Europa (The Advent Survey Northern European Division) e na América do Sul (South America Bulletin e Revista Mensal) chamaram a atenção para um pregador negro até então anônimo. Ele foi retratado como alguém dinâmico, distribuidor de livros e plantador de pequenas congregações em Goiás, Minas Gerais, Santa Catarina e São Paulo. Por onde pregou, colportou e ensinou, ele deixou um rastro de luz e centenas de conversos que se multiplicaram Brasil afora.

Estamos nos referindo a Domingos de Souza Costa, que nasceu em 1882, apenas onze anos depois da Lei do Ventre Livre e três anos antes da promulgação da Lei dos Sexagenários, nos tempos do Brasil Império. Costa foi um dos primeiros adventistas do nordeste a estudar, em 1915, no Seminário Adventista, nas imediações da capital paulista, atual Unasp, campus São Paulo.

Pouco se sabe sobre as origens, família e conversão desse pioneiro. Tudo indica que o adventismo chegou a Alagoinhas (BA), onde ele residia, em 1914, por meio do pastor Manoel Kümpel. Nessa época, com 32 anos de idade, Domingos era um jovem solteiro em busca de oportunidades de estudo e novos horizontes.

Com o apoio do pastor Kümpel, Costa migrou para o sudeste em busca de formação missionária. Foi batizado no estado de São Paulo e, depois de uma temporada de estudos, aprendeu o suficiente para ser um colportor de sucesso. No interior paulista, trabalhou em Rio Claro, Socorro, Pederneiras, Jaú, Espírito Santo do Pinhal, São João da Boa Vista, São José do Rio Preto, São Sebastião da Grama, entre outras cidades mencionadas em relatórios oficiais da igreja publicados na época.

Em Extrema (MG), município que faz divisa com estado de São Paulo, ele levou ao batismo a família de Geraldo Gomes de Oliveira, que se transformaria no grande evangelista e conferencista mais conhecido como pastor Gegê. Por seu incentivo, o jovem cursou Teologia no então Collegio Adventista, no Capão Redondo, onde se graduou em 1938.

Domingos Costa é o segundo da direita para a esquerda (em pé), segundo um rascunho feito pelo casal Adolpho e Alma Meyer Bergold, que se graduaram na turma de 1922 do seminário de Teologia do Unasp. Crédito: Acervo de Ida Bergold

 

Na foto tirada em frente ao prédio do seminário, em 1917, Domingos também aparece do lado esquerdo, com gravata borboleta, próximo das alunas de branco, segurando  o que parece ser um livro. O pastor Manoel Kümpel, que o evangelizou, é o primeiro da direita para a esquerda e foi professor do seminário entre 1916 e 1918. Crédito: curso de História do Unasp

Durante um tempo, Domingos também trabalhou em Tubarão, Laguna e Tijucas, no estado de Santa Catarina. Em algumas dessas comunidades, além de colportar, ele pregava e evangelizava negros e imigrantes. Quando soube de um grupo de quilombolas que residia no Sertão de Santa Luzia, nas imediações do litoral catarinense, procurou alcançá-los com a venda do livro Nossa Época à Luz da Profecia, de autoria do missionário William A. Spicer (1865-1952). Um exemplar dessa obra, entregue em 1923 para Marinho M. Caetano (1890-1969), produziu grandes resultados entre os descendentes de escravos. Assim começou a Igreja Adventista do Sétimo Dia numa localidade onde cinco gerações afrodescendentes residem: a comunidade quilombola do Valongo, um dos onze refúgios de escravos reconhecidos pela Fundação Cultura Palmares em Santa Catarina no ano de 2004, registrado no Inventário de Referências Culturais (INRC), do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Domingos Costa foi ainda ancião da primeira igreja organizada no estado de Goiás, em 1931, localizada na Fazenda Riachão, local em que, há 63 anos, é realizada a Campal Riachão, tradicional retiro espiritual adventista que reúne milhares de goianos.

Esse descendente de escravos que serviu como colportor, professor itinerante e pregador foi responsável pelo estabelecimento de dezenas de grupos e igrejas. Domingos teve participação, inclusive, no trabalho realizado pela igreja entre os índios carajás da ilha do Bananal, no Tocantins.

Seguindo os passos do pai, Emerson de Souza Costa graduou-se em Teologia no então Instituto Adventista de Ensino (IAE) em 1969 e foi pastor da IASD. Dimas Pereira Artiaga, um dos netos, também se graduou no IAE, em 1978, e se aposentou recentemente após atuar como secretário da APaC, uma das sedes administrativas da igreja no estado de São Paulo.

Os dados biográficos desse personagem ainda quase desconhecido no país foram apresentados nesta terça-feira durante a abertura de um fórum interdisciplinar promovido pelos cursos de Pedagogia e História do Unasp, campus Engenheiro Coelho. O evento acadêmico aconteceu na véspera do Dia da Consciência Negra, data comemorada em 20 de novembro.

Em 2009, o Dr. Renato Stencel, coordenador do Centro Nacional da Memória Adventista, setor do Centro de Pesquisas Ellen G. White, que completa 40 anos, idealizou uma galeria de missionários estrangeiros e nacionais e inseriu a imagem de Domingos S. Costa (1882-1971).

A imagem do afrodescendente adventista que fez resplandecer a esperança do advento nas regiões centro-oeste, sul e sudeste foi produzida com recursos de computação gráfica por João Luiz Cardoso (JoCard), ilustrador de gravuras que aparecem com regularidade em publicações da igreja e que tem recriado imagens quase centenárias pouco nítidas da IASD com o uso da tecnologia.

ELDER HOSOKAWA, mestre em História Social pela USP, é coordenador e professor do curso de Licenciatura em História do Unasp, campus Engenheiro Coelho

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