Fim de jornada

Kari Paulsen, esposa de ex-presidente mundial da igreja, morre aos 85 anos 
Mark A. Kellner
Pastor Paulsen e Kari, por ocasião da despedida do casal, que anunciou a aposentadoria durante a assembleia mundial da igreja, em 2010. Foto: Josej Kissinger

“Todos nós precisamos de alguém que nos ouça em algum momento”, disse Kari Paulsen à revista Ministry em 2006, descrevendo a maneira pela qual ela, sendo esposa de um administrador da Igreja Adventista do Sétimo Dia, encontrou um ministério pessoal, apesar das limitações de uma doença crônica.

Kari, que durante toda a vida não poupou esforços para encorajar aqueles que precisavam de incentivo, morreu no dia 10 de janeiro, em Oslo, na Noruega, aos 85 anos de idade. O esposo Jan, que liderou a Igreja Adventista em nível mundial por 11 anos (1999 a 2010), estava ao seu lado.

“Kari era uma pessoa muito capaz e um forte apoio ao pastor Paulsen em sua vida e seu ministério juntos por muitas décadas em diferentes partes do mundo”, expressou o pastor Ted Wilson, atual presidente mundial da igreja, por meio de um post no Facebook.

Rajmund Dabrowski, ex-diretor de Comunicação da igreja mundial, teve um vínculo muito próximo com a família norueguesa. “Eu senti que eles eram nossos segundos pais”, ele disse à Adventist Review. Tendo trabalhado com Jan Paulsen pela primeira vez na Divisão Transeuropéia e depois no período em que o pastor Paulsen foi presidente da Associação Geral, Dabrowski relembra o compromisso familiar que Kari tinha. “Quando estávamos no exterior, eles facilitaram nossa maneira de aceitar uma nova área, uma nova cultura e assim por diante. Esse é o tipo de lembrança que teremos. É uma perda tremenda não apenas para a família, mas para aqueles que foram aceitos por eles como família”, Dabrowski sublinhou.

Gerry e Verna Karst trabalharam com os Paulsen quando o casal estava em Silver Spring, Maryland, nos Estados Unidos. Gerry serviu como assistente de Paulsen e Verna, como enfermeira da sede mundial da igreja. Ambos perceberam que Kari cultivava um profundo interesse pelos outros. “Ela era uma pessoa carinhosa e estava muito interessada em pessoas. Mas, por causa de seus problemas de saúde, estava restrita no que podia fazer”, relembra Verna.

Kari Trykkerud nasceu em uma pequena cidade perto de Notodden, a cerca de 113 quilômetros de Oslo. Ela cresceu durante a II Guerra Mundial, quando a Noruega estava sob ocupação alemã. Logo após a guerra, Kari passou por uma cirurgia – a primeira realizada na Noruega – por causa de um problema cardíaco. Durante sua recuperação, ela prometeu a Deus que se tornaria cristã se Ele a ajudasse a melhorar.

Esse voto levou a uma busca que terminou quando o pastor de um parente adventista ofereceu à jovem Kari uma cópia do livro Steps to Christ (Caminho a Cristo), de Ellen G. White. Após um curso por correspondência da Voz da Profecia e estudos bíblicos, Kari decidiu se tornar adventista do sétimo dia, mesmo que isso causasse problemas em casa. Certa vez, quando ela recusou um jantar tradicional de Natal que incluía carne de porco no cardápio, o pai, enfurecido, pediu que Kari saísse de casa. Consequentemente, a jovem foi morar na casa de uma tia.

Depois de concluir a escola secundária na Noruega, Kari foi para o Vejlefjordskolen, instituição educacional de propriedade da igreja (atual Danish Junior College), em Daugård, na Dinamarca, para estudar Teologia. Tendo chegado duas semanas depois do início do semestre letivo, ela admitiu estar confusa durante uma palestra sobre datas bíblicas, principalmente por causa das diferenças de idioma. Aconteceu que outro estudante norueguês chamado Jan Paulsen estava sentado ao lado dela e se ofereceu para ajudar. “Não se preocupe”, ele disse, “explicarei a você mais tarde”.

Essa observação iniciou uma conversa contínua que durou mais de seis décadas. Amigos, a princípio, o amor cresceu entre eles. Antes de Jan ir para a Universidade Andrews, em Berrien Springs, Michigan, para continuar os estudos, decidiram se casar. No novo endereço, fora da terra natal, eles aprenderam não apenas uma nova cultura, mas também a se adaptar à vida de casado. O casal teve três filhos: Laila, Jan Rune e Rein Andre.

Jan, Kari e os dois primeiros filhos, por ocasião da ordenação do pastor Paulsen ao ministério. Foto: acervo da família

Algum tempo depois, eles foram para a África, primeiro para Gana e depois, para a Nigéria, onde Jan Paulsen atuou como diretor do Colégio Adventista da África Ocidental, atualmente Universidade Babcock. Os problemas de saúde da senhora Paulsen pioraram enquanto estavam na África e a acompanharam por toda a vida. Voltando à Europa, Jan atuou como presidente do Newbold College, em Binfield, na Inglaterra; secretário e, em seguida, presidente da Divisão Transeuropeia; como vice-presidente geral da igreja mundial e, por fim, como presidente da Associação Geral, cargo que ele assumiu em janeiro de 1999 e ocupou por 11 anos.

“Eu já sofri muitas doenças, e essa proximidade com a morte faz algo por você e seu relacionamento com o Senhor”, disse Kari à revista Ministry em 2006. “De alguma forma, você confia mais nele. É importante ficar perto Dele, orar, ler. É um lembrete constante de que essa vida pode não durar tanto tempo”, completou.

Em 2015, a Pacific Press imprimiu Against All Odds, livro com as memórias de Kari Paulsen como cristã e sua luta contra doenças crônicas e tragédias familiares. O livro recebeu muitos elogios dos leitores. Mais recentemente, a obra foi traduzida para o português e publicada com o título Contra as Expectativas.

“Kari Paulsen definiu ‘resiliência’ para mim e para milhares de crentes para quem sua história de vida desafiadora tem sido um grande incentivo”, disse Bill Knott, editor da Adventist Review. “Sua honestidade e inteligência ajudaram muitos de nós a entender como a graça cruzou nossos próprios momentos de dor física e decepção. Ela nos lembrou com suas palavras e seu exemplo que o Senhor sempre tem a última palavra – e que Sua palavra é profunda afeição por nós”, frisou.

Tor Tjeransen, diretor de comunicação da Igreja Adventista do Sétimo Dia na Noruega, que conhece a família Paulsen há mais de 50 anos, também destacou o otimismo demonstrado ao longo da vida de Kari Paulsen: “Kari sempre manteve uma atitude muito positiva em relação a tudo o que conheceu na vida. A pressão sobre quem está em posição de viajar é enorme. Ela sempre esteve lá e sempre apoiou o pastor Jan”, ele disse.

O funeral de Kari Paulsen está previsto para a próxima segunda-feira (20), em Mjøndalen, na Noruega. Em vez de flores, a família solicitou que doações fossem feitas ao orfanato e escola Life Hope, na República Democrática do Congo. Em uma mensagem, o pastor Jan Paulsen comentou: “Kari doou muitas vezes para manter a escola viva e gostaria que ela continuasse depois de sua partida”.

MARK A. KELLNER é diretor de conteúdo da American Philatelic Society e colaborador da Adventist Review

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