Oxigênio da alma

A oração tem que ser uma experiência viva e não um hábito fossilizado
MARCOS DE BENEDICTO
Ser cristão e não orar é tão impossível como estar vivo e não respirar. Foto: Adobe Stock

Em todos os espaços do planeta, a oração tem sido o refúgio das pessoas em tempos de crise. Mas o fato de ela ser um fenômeno universal não significa que todas as pessoas oram da maneira correta. A oração verdadeira é feita ao Deus vivo, em nome de Jesus, no poder do Espírito.

Ingrediente básico da espiritualidade, a oração tem sido descrita por meio de uma variedade de metáforas. No poema “Oração (I)”, o poeta e sacerdote anglo-galês George Herbert (1593-1633), por exemplo, a chamou de “banquete das igrejas”, “tempo de anjos”, “alma em paráfrase”, “coração em peregrinação”, “torre do pecador” e “terra de especiarias”. Ellen White usou linguagem convencional ao descrevê-la como “o abrir do coração a Deus como a um amigo” (Caminho a Cristo, p. 93), mas também apostou na figura de linguagem ao classificá-la de “a respiração da alma” (Mensagens aos Jovens, p. 249).

A oração envolve aspectos não verbais, como local, tempo e gestos, mas, em essência, é um diálogo sincero com Deus, a fim de exaltá-Lo, expor-Lhe nossas necessidades e refazer nossa vida. A oração revela a teologia, o coração, o estado de espírito, a necessidade e o desejo de quem ora. E mostra o conceito que temos de Deus. Pronunciada numa catedral, no templo, na sinagoga, na rua ou no quarto, o Deus que ouve é o mesmo.

No judaísmo, há dois tipos de oração: (1) informal, espontânea, improvisada, e (2) ritual, formal, fixa. Se o primeiro tipo tem que ver com as circunstâncias do momento, o segundo segue uma agenda predefinida e um programa litúrgico. As orações programadas eram coordenadas com o sacrifício diário. Em várias culturas antigas, o movimento dos luminares celestes também influenciava o ciclo de oração. Orar é um ritual, mas não deve ser um hábito vazio, hipócrita nem autocentrado.

A prática de três momentos diários de oração vem desde tempos antigos (Sl 55:17; Dn 6:10), mas não era o único padrão. “Um exame detalhado das evidências do período do segundo templo indica um quadro mais complexo”, explica Jeremy Penner em Patterns of Daily Prayer in Second Temple Period Judaism (Brill, 2012, p. 30). Além das três preces ao dia, os padrões fixos incluíam uma vez, duas vezes, quatro vezes e à noite.

As orações das 9 e das 15h coincidiam com os sacrifícios da manhã e da tarde (Êx 30:6-8; At 3:1). Isso levanta a pergunta: qual é a relação da oração com o sacrifício, um tema já presente no Talmude (Berakhot 26b)? É claro que a eficácia da oração vem da qualidade do sacrifício. Por isso, oramos em nome de Jesus, o sacrifício perfeito. Intercedemos por causa do Intercessor. Sem o sacrifício correspondente, a oração é um discurso vazio, uma moeda virtual sem lastro. O próprio simbolismo da oração que sobe como incenso está ligado com o sacrifício (Sl 141:2; Ap 5:8; 8:3-4). Portanto, ao orar, precisamos confiar na graça e não em nosso desempenho, na perfeição divina e não em nossa imperfeição, no poder celestial e não em nossa fraqueza.

Você realmente ora? No embalo do programa “10 Dias de Oração” (6 a 15 de fevereiro), você é convidado a renovar sua experiência de oração. Afinal, fomos feitos para “funcionar” em contato com Deus. C. S. Lewis ponderou que “Deus nos criou como um homem inventa uma máquina. Um carro é feito para ser movido a gasolina. Deus concebeu a máquina humana para ser movida por Ele mesmo” (Cristianismo Puro e Simples [Martins Fontes, 2005], p. 36). Ser cristão e não orar é tão prejudicial quanto um carro a gasolina querer rodar com outro tipo de combustível, ou tão impossível como estar vivo e não respirar.

MARCOS DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista

(Editorial da edição de fevereiro de 2020)

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