A hora do julgamento

Evidências do juízo pré-advento em Daniel 8
ROY GANE
Foto: Weyo / Adobe Stock

Em seu livro A Visão Apocalíptica e a Neutralização do Adventismo (CPB, 2010), George Knight chama atenção para a progressiva perda de visão do adventismo e o consequente enfraquecimento no cumprimento da missão. Ele também faz um apelo para que o adventismo se concentre na urgência de priorizar a comissão evangélica centrada no amor de Cristo nesses últimos dias, especialmente as três mensagens angélicas (Ap 14:6-12), e eu acrescentaria a mensagem de Elias (Ml 4:5, 6) [Roy Gane, Who’s Afraid of the Judgment? The Good News About Christ’s Work in the Heavenly Sanctuary (Nampa, ID: Pacific Press, 2006), p. 126-128].

No entanto, quero analisar um pouco mais detidamente algo que ele abordou sobre Daniel 8:14 que, a meu ver, poderia fortalecer sua mensagem geral (Clinton Wahlen, “The Pathway Into the Holy Places (Hb 9:8): Does it End at the Cross?”, Journal of Asia Adventist Seminary, n° 11 (2008), p. 47-51). Depois de afirmar sua crença de que a profecia foi cumprida em 1844, Knight continuou dizendo que não consegue ver um juízo pré-advento dos santos em Daniel 8:14, mas somente um julgamento sobre o chifre pequeno e a “purificação do santuário em relação com esse poder no fim dos 2300 dias” (George R. Knight, A Visão Apocalíptica e a Neutralização do Adventismo, p. 68). Ele encontra um juízo pré-advento contra o “chifre pequeno” a favor dos santos em Daniel 7 (p. 68, 69), mas somente é possível vê-lo começando em 1844 se tomar como base o paralelismo entre Daniel 7 e 8 (p. 69).

O CONTEXTO DE DANIEL 8:14

Penso que Knight esteja certo em sua análise sobre o julgamento em Daniel 7, ou seja, a existência de um forte paralelo entre os capítulos 7 e 8, e a necessidade de se chegar a conclusões por meio de uma interpretação sólida, e não apenas pela leitura de um texto com outro. É verdade que o paralelo entre os capítulos é suficiente para associar o juízo pré-advento (Dn 7) com a purificação do santuário (Dn 8), de modo que o momento do segundo se aplique ao primeiro. Mas o que há em Daniel 8:14? Será que o texto se refere apenas a um julgamento pré-advento do “chifre pequeno” no fim dos tempos, e não contém um juízo investigativo dos santos?

De fato, Daniel 8:14 também não menciona explicitamente o “chifre pequeno”. Diz apenas: “E ele me disse: ‘até 2.300 tardes e manhãs; e o santuário será [justificado]’” (grifo do autor). Isso não soa como pensamento completo porque está respondendo à pergunta do verso 13: “Até quando durará a visão do sacrifício diário [que inclui a] transgressão assoladora, visão na qual é entregue o santuário e o exército, a fim de serem pisados? (grifo do autor). Assim, justificar o “santuário” no fim dos 2.300 “dias” (v. 14) resolve o problema levantado no verso 13. Não podemos entender o significado de justificar o santuário sem compreender a natureza do problema que isso pretende resolver.

A questão apresentada no verso 13 tem quatro partes: (1) a regularidade (diário), (2) a transgressão assoladora, (3) um santuário, e (4) ser pisado (Roy Gane, “The Syntax of Tet Va. in Daniel 8:13”, em J. Moskala (ed.), Creation, Life, and Hope: Essays in Honor of Jacques B. Doukhan [Berrien Springs, MI: Andrews University, 2000], 367-382). Mas essa lista enigmática não não nos diz muito por si só. O que aconteceu com “a regularidade” e “o santuário”? Quem é responsável pela “transgressão assoladora” e por “pisotear o exército”?

O verso 13 é um resumo dos pontos-chave da visão descrita em Daniel 8:1 a 12 (a palavra “visão” em Dn 8:13 é hazon, que aparece várias vezes em conexão com essa interpretação; ver Dn 8:15, 17, 26; 9:21, 24). À luz da interpretação posterior, nesse mesmo capítulo (v. 15-26), a visão cobre os períodos da Medo-Pérsia ( v. 3-4, 20) e da Grécia, com seus quatro reinos helenísticos (v. 5-8, 21-22), os quais são substituídos por outro império maior, simbolizado por um “chifre” que começa pequeno, mas se expande horizontalmente na Terra, como poder político, e depois verticalmente em direção ao céu, como força religiosa (v. 9-12, 23-26).

A expressão “até quando durará a visão?”, significa: Qual será o ponto final da visão como um todo (a partir do tempo da Medo-Pérsia), quando os males perpetrados pelo “chifre pequeno” serão corrigidos? Os ataques principais incluem (na ordem do v. 13): (1) remover a regularidade (na adoração e no ministério) do Príncipe do exército do Céu, ou seja, Cristo (v. 11; cf. Js 5:13-15); (2) atribuir/nomear, de maneira hostil, outro contra essa “regularidade” (Dn 8:12); (3) derrubar o local do santuário que pertence ao Príncipe do exército (v. 11); e (4) derrubar e pisotear alguns do exército celestial (v. 10).

O chifre pequeno obviamente se destaca, mas onde está o povo fiel a Deus (os santos) em tudo isso? O “povo santo” aparece descrito no verso 24 (cf. v. 25), retratado como objeto de destruição pelo poder simbolizado pelo chifre pequeno. Visto que o povo santo pertence ao Deus do Céu e, portanto, ao Príncipe da hoste celestial, parece que destruí-lo literalmente expressa a mesma coisa que pisotear alguns do exército celestial (v. 10; cf. v. 13). Seja como for, Daniel 8 identifica explicitamente duas partes opostas: (1) o poder rebelde do chifre pequeno; e (2) o povo fiel de Deus, a quem o chifre persegue.

Descobrimos que Daniel 8:14 responde à pergunta referente a um determinado cenário (v. 13) que tem seu desdobramento no restante do capítulo, tanto em uma visão anterior quanto em sua interpretação. Assim, o todo de Daniel 8 se concentra no versículo 14: “Até 2.300 tardes e manhãs e o santuário será purificado [justificado]” (grifo do autor). Agora sabemos o que isso significa: No fim de um longo período de 2.300 “dias” (obviamente muito mais que dias literais), que vão do período medo-persa até o fim do período de dominação do chifre pequeno, um santuário seria justificado. Esse evento do fim dos tempos (v. 19, 26) repararia os problemas causados pelo chifre pequeno, o qual interrompeu a adoração ao Deus verdadeiro, levantou oposição, contrafez o sistema da adoração, atacou o local do santuário de Cristo e atentou contra alguns de Seus súditos.

NATUREZA DO JULGAMENTO

De que maneira o fato de justificar o santuário resolveu essas questões? É verdade que o ataque do chifre pequeno contra o santuário de Deus foi apenas um de seus crimes, mas os outros crimes também interferem no santuário, porque ali é o local em que os fiéis súditos de Deus regularmente realizam sua verdadeira adoração. O “santuário” celestial (literalmente, [lugar de] santidade, em Dn 8:14) se refere ao Templo no Céu, a sede do governo divino, a representação de Sua administração, assim como a Casa Branca representa o governo dos Estados Unidos ou o Kremlin a administração da Federação Russa. Portanto, justificar o santuário de Deus, o local real em que Ele reside no Céu (Sl 11:4;
Ap 4), compreende nada menos que vindicar Sua santa forma de governo, em oposição ao sistema do chifre pequeno.

“Será purificado”, ou justificado (niphal de tsdq), em Daniel 8:14, é uma linguagem forense que indica um processo judicial, que demonstra que a administração de Deus, representada por Seu santuário, está correta (Jó 9:15, 20; Sl 19:10; 51:6; 143:2; Is 43:9, 26, etc. Em Jó 4:17, aquele que é “justo” (tsdq) diante de Deus está “puro/limpo” (verbo thr), isto é, “vindicado”). O mesmo verbo hebraico (com suas variantes) é usado em outros contextos legais (inclusive tendo Deus como Juiz) e, nesse sentido, referindo-se ao julgamento em favor de alguém (por exemplo, Gn 38:26; 44:16; Dt 25:1; 2Sm 15:4; 1Rs 8:32; Sl 51:4 [heb. v. 6]; Is 5:23; 43:9, 26). Obviamente, o resultado de ter justificado o governo divino foi benéfico para o “povo santo” (v. 24), Seus súditos leais. Mas o resultado do poder do “chifre pequeno” foi decididamente negativo. Ele foi condenado pela vindicação do santuário de Deus e, finalmente, será “quebrado”/destruído, não pela ação de nenhum poder humano, mas pelo próprio Deus (v. 25) [2Ts 2:8, destruição dos ímpios na segunda vinda de Cristo.]. Essa execução do julgamento implica um processo de investigação pré-advento, que Daniel 8:14 descreve em termos de demonstração de que a administração divina está correta.

Observando Daniel 8 e seu contexto, verificamos que a vindicação do santuário de Deus no tempo do fim (v. 14) envolve um processo de justiça que resulta em benefício para Seu povo fiel e na condenação dos rebeldes. Portanto, após tudo isso, existe um julgamento envolvendo os “santos”, embora o texto não mencione isso com essas palavras.

O pano de fundo do Dia da Expiação para Daniel 8:14 é evidente. Ele indica uma relação tipológica: o Dia da Expiação típico aponta para um futuro julgamento antitípico no fim dos tempos. O Dia da Expiação anual era um dia de julgamento em Israel, quando o ritual de purificação do santuário terrestre representava a vindicação da justiça divina, a qual confirmava os fiéis (Lv 16:29-31), mas condenava os infiéis (Lv 23:29, 30) entre Seu povo. Todos aqueles cujos pecados já haviam sido perdoados em um estágio anterior de expiação (Lv 4:20, 26, 31, 35 etc.), e que haviam demonstrado contínua lealdade no Dia da Expiação (Lv 16:29, 31; 23: 26-32), ficavam moralmente “puros” (livres de qualquer impedimento no relacionamento divino-humano) como resultado da purificação do santuário (Lv 16:30) [Roy Gane, Cult and Character: Purification Offerings, Day of Atonement, and Theodicy (Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 2005), p. 305-333]. Estamos começando a descobrir que há mais do que parece em Daniel 8, incluindo um julgamento que envolve o povo leal a Deus.

Daniel 8 não detalha o processo investigativo por meio do qual o “povo santo” do Senhor é assim considerado, e pelo qual o “chifre pequeno” é irremediavelmente considerado culpado de alta traição. A relação dos crimes do chifre pequeno deixa claro as acusações contra ele. Por outro lado, o comportamento do “povo santo” não é explicitado. A ênfase não está no que eles fazem, mas no Príncipe a quem pertencem (Dn 7:13, 14; cf. 9:25; 1Jo 5:11-13). O fato de eles e o chifre pequeno estarem em lados opostos implica que o povo do Senhor está fazendo exatamente o oposto do trabalho realizado pelo chifre, mantendo uma adoração verdadeira, centralizada no verdadeiro santuário do Senhor (cf. Hb 8:1, 2).

RELAÇÃO ENTRE DANIEL 7 E 8

De acordo com Knight, é em Daniel 7 que o processo de investigação judicial é descrito com alguns detalhes. Ele também reconhece que há um estreito paralelo entre Daniel 7 e 8 (referindo-se em 8:1 à visão do capítulo 7), o qual demonstra uma correspondência entre o juízo pré-advento e a purificação do santuário respectivamente.

Daniel 7 Daniel 8
Leão
Urso Carneiro (Medo-Pérsia, v. 20)
Leopardo Bode (Grécia, v. 21)
Animal terrível Chifre pequeno: crescimento horizontal
Chifre pequeno Chifre pequeno: crescimento vertical
Juízo pré-advento (v. 9-14) Purificação do santuário (v. 14)

Daniel 8 repete o mesmo período histórico coberto por Daniel 7 (exceto Babilônia, que já havia passado e, portanto, não mais era relevante). Os impérios são os mesmos, e a natureza do problema do poder do “chifre pequeno” é a mesma. O fato de o mesmo símbolo ser usado (embora o chifre em Daniel 8 inclua expansão horizontal por Roma pagã/imperial no v. 9) reforça a proximidade do paralelo. Depois dos ataques do chifre, há uma solução divina em cada capítulo, que é regulamentada em favor dos santos e contra o poder que os oprimiu.

Os perfis proféticos correspondentes em Daniel 7 e 8 mostram que o juízo pré-advento e a justificação do santuário celestial são maneiras diferentes de descrever o mesmo evento: a vindicação de Deus diante dos seres criados por meio de um Dia da Expiação escatológico, que demonstra Sua justiça em condenar os desleais, mas salvar Seu povo leal e santo (Roy Gane, Who’s Afraid of the Judgment?, p. 40-45). Isso reforça a conexão entre Daniel 7 e 8 e confirma que o evento que começa no fim dos 2.300 “dias” proféticos nos envolve, como concluíram os pioneiros adventistas.

Temos o privilégio e a responsabilidade de levar o último convite evangélico a todo o mundo (Ap 14:6-12) durante a fase final da expiação, enquanto Cristo está realizando uma obra especial pela humanidade. O que poderia ser mais importante e urgente do que isso? Esse é o maior empreendimento da história da humanidade, e é totalmente impossível fazer isso somente pelo esforço humano. Como nunca antes, precisamos buscar e receber humildemente o poder do Espírito Santo (At 2; cf. Jl 2), que vem do santíssimo do santuário celestial, onde Jesus está ministrando agora. Esse poder nos impele a sair de nossa zona de conforto e alcançar pessoas para Cristo, a fim de que elas tenham oportunidade de ser resgatadas e desfrutar a vida eterna.

Continuemos respondendo ao desafio de Knight de explorar, viver e proclamar nossa visão apocalíptica em vez de neutralizá-la!

ROY GANE é professor de hebraico e línguas do antigo Oriente Médio no Seminário Teológico da Universidade Andrews

(Artigo publicado na edição de março-abril da revista Ministério)

Veja também

O vírus do fim ou o fim do vírus?

O que você precisa saber sobre o coronavírus no contexto da crise do fim do mundo.