Coral missionário

Como o canto abriu as portas para a mensagem adventista entre os temidos canibais de Mussau

Dick Duerksen

Foto: Roger Millist

Antes que o capitão Gilbert McLaren e sua tripulação pudessem acionar o motor e recolher a âncora, eles foram cercados por uma frota de canoas de guerra coloridas e cheias de canibais. Como um pesadelo que se torna realidade, os guerreiros avançaram gritando para atacar a lancha da missão adventista.

Os marinheiros já esperavam que isso acontecesse. O capitão McLaren havia mantido em segredo por vários dias o destino do barco Veilomani I. Ele acreditava que Deus o estivesse chamando para levar o evangelho às pessoas mais “selvagens” da Terra: o povo de Mussau. Essa comunidade primitiva havia matado e comido o primeiro missionário que pisou na ilha. Portanto, para ir lá e sobreviver, seria necessária a intervenção de Deus.

“Eles vão nos matar! Nem os governantes visitam os canibais de Mussau. Nós não vamos”, reagiu a tripulação. Mas o capitão sabia que Deus o tinha chamado para ir à ilha mais ao norte de Papua-Nova Guiné. A visão havia sido clara e ele a descreveu detalhadamente para seus homens.

“Sim, o povo de Mussau é canibal e sedento por sangue. Eles são mestres do mar que levam a guerra a todas as ilhas próximas e devoram seus cativos. Eles adoram demônios, vivem em aldeias imundas, cobrem o corpo com gordura de porco, penduram os ossos dos seus inimigos ao redor do pescoço, e seus gritos de guerra derretem a coragem dos guerreiros mais fortes. No entanto, eles também são filhos a quem Deus nos chamou para falar do Seu amor”, justificou McLaren.

* * *

Foram necessárias várias horas de discussão até que os marinheiros se ajoelharam com o seu dedicado capitão e imploraram a Deus que os guardasse em segurança. Os bons ventos e o clima calmo os levaram por muitas outras ilhas de Papua-Nova Guiné, mas, quando chegaram ao extremo sul do território habitado pelo povo de ­Mussau, eles foram saudados com o rumor pavoroso dos tambores de madeira, tocados em contexto de guerra, e pelos gritos de embriaguez. Com o coração saindo pela boca, os marinheiros empurraram o Veilomani I para a grande lagoa, lançaram a âncora e desligaram o motor.

O momento de silêncio foi substituído pelo terror total quando várias canoas de guerra, totalmente equipadas com armas, foram lançadas na lagoa. O som dos tambores, tocados por guerreiros escondidos nas palmeiras, rapidamente cercou a pequena embarcação. E, assim que as notas dos tambores mudaram, todos os homens nas canoas trocaram os remos por machados, lanças, arcos e flechas e as longas facas da selva. A tripulação da lancha tremeu, aterrorizada demais para respirar.

Contudo, nem todos os missionários ficaram paralisados. O capitão McLaren permaneceu em pé, no centro do convés, e começou a cantar vagarosamente um hino cristão (HASD, 292): “Onde quer, onde quer que Jesus mandar, / Sempre junto Dele eu irei andar. / Sempre seguirei a Cristo, meu Senhor. / Diz o coração que sente o Seu amor, / Perto Dele sempre bem seguro vou, / Onde quer que seja mui contente estou.”

Os outros homens se uniram a ele na segunda e terceira estrofes. Eles cantaram o coro muitas, muitas vezes, enquanto os canibais de Mussau permaneciam sentados em suas canoas, encantados com a música. Os marinheiros cantaram todos os hinos que conseguiram se lembrar e inventaram vários outros.

Então cantaram todos outra vez, transformando seu terror em surpresa, enquanto os canibais relaxavam, largavam suas armas e ouviam as canções que vinham daquele barco estranho. Várias horas mais tarde, quando o sol escorregava para dentro do mar, silenciosamente o chefe da tribo virou sua canoa de volta para a aldeia. Rapidamente, os marinheiros ligaram o motor e recolheram a âncora, com o intuito de fugir para um lugar seguro.

“Não podemos ir embora. O Senhor nos deu uma abertura no coração e na mente desse povo. Precisamos ficar”, disse o capitão McLaren. Naquela noite, ele sentou-se sozinho no convés, deixando a escuridão fechar-se à sua volta, enquanto falava com Deus sobre Seus filhos que viviam nas florestas daquela ilha remota da Oceania.

* * *

Ao nascer do sol, uma das canoas de guerra retornou com dois guerreiros e o chefe da tribo dentro dela. Eles foram se aproximando da embarcação dos missionários e pediram que cantassem mais. Os marinheiros cantaram todos os hinos que sabiam. Cantaram pela preservação da própria vida. Cantaram até que mal conseguissem entoar uma melodia. Perto do meio-dia, o líder dos habitantes de Mussau se levantou na canoa e, se comunicando num inglês mal falado, perguntou se o capitão podia ensinar seu povo a cantar como eles.

O capitão Gilbert McLaren acreditava que Deus o tinha chamado para levar o evangelho às pessoas mais “selvagens” da Terra

McLaren disse que sim, desde que pudesse estabelecer uma escola na ilha e ensinar também o povo a ler, escrever e contar. “Posso buscar um professor?”, propôs o capitão. O chefe não ficou feliz com as palavras dele, mas, após consultar seus conselheiros, concordou que o capitão e seus homens fossem até a praia e começassem uma escola. “É para as nossas crianças”, fez a ressalva o líder de Mussau.

“Eu nunca teria pensado em cantar. Foi uma ideia genial”, reconheceu um dos marinheiros, elogiando o capitão. “Não foi genial”, respondeu ­McLaren. “Eu estava com tanto medo que fiz a primeira coisa que Deus colocou na minha mente. Eu cantei, quase certo de que aquela seria a última coisa que eu faria. Mas Deus interveio e nos impressionou a fazer a coisa certa no momento certo, na maneira Dele.”

Em 18 de abril de 1931, a Veilomani I retornou àquela ilha, levando três professores: Oti, das Ilhas Salomão; Ereman e Tolai, da vizinha Rabaul. O chefe os encontrou, testou suas habilidades para cantar e depois ajudou a construir a escola e um abrigo para os professores com palha de palmeira trançada. Na primeira aula, toda a aldeia e habitantes da montanha e de outras partes da ilha vieram para ouvir e praticar o canto junto com as crianças.

Foi cantando que eles começaram a ensinar todos da ilha sobre o amor de Deus e o ministério de Cristo. Pouco tempo depois, os canibais de Mussau se tornaram cristãos que liam a Bíblia em pidgin, o idioma local, que deixaram de adorar demônios e que passaram a comer alimentos saudáveis, beber água limpa e cantar hinos aos sábados.

Ouvi esta história pela primeira vez do pastor John Hancock, ex-diretor do Ministério Jovem da sede mundial adventista, depois que ele tinha visitado o povo de Mussau com James Harris, então líder da juventude adventista do Sul do Pacífico.

DICK DUERKSEN é pastor e mora em Portland, Oregon (EUA)

(Texto publicado originalmente na edição de julho de 2020 da Revista Adventista / Adventist World

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