Milagre em Hiroshima

Os adventistas salvos da bomba atômica

Ryoko Suzuki
Foto: Wikimedia

Em 6 de agosto de 1945, Hiroshima, no Japão, se tornou a primeira cidade da história a ser destruída por uma bomba nuclear. Em 2 de setembro, com a rendição formal do Japão, chegou ao fim a Segunda Guerra Mundial, o conflito mais mortal da história. Embora a devastação e a perda de vidas tenham sido terríveis, hoje, no aniversário de 75 anos desse evento desastroso, refletimos sobre as histórias extraordinárias dos membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia de Hiroshima, todos os quais sobreviveram.

Asako Furunaka nasceu em 21 de agosto 1921. Era a filha de um empresário bem-sucedido no Japão. Concentrada e muito inteligente, continuou os estudos à noite depois de se graduar como professora. Aos 32 anos, tornou-se repórter jornalística, algo raro para uma mulher na época. Casou-se com um professor universitário e, embora não tenham tido filhos, ela levava uma vida muito feliz.

Certo dia, quando Asako tinha vinte e poucos anos, seu mundo ruiu após o esposo confessar que tinha uma amante e queria o divórcio. Ela foi tomada por sentimentos avassaladores de desespero e raiva. Tristeza e ódio pelo marido preenchiam seus dias e suas noites. Achava que nunca mais seria capaz de crer em nada. Caiu em depressão profunda.

Quando Asako sentiu que estava no fundo do poço, alguém a convidou para ir à igreja adventista. Ela aceitou e começou a frequentar os cultos com regularidade. Na Bíblia, aprendeu sobre o perdão e encontrou esperança. A paz voltou ao seu coração. Na época, porém, não conseguia se decidir pelo batismo.

HISTÓRIAS INACREDITÁVEIS

Asako Furunaka

Por suas habilidades e qualificação, Asako foi chamada para ser professora de Bíblia das crianças na igreja. Ela aceitou a posição com alegria e começou a ministrar as lições da Escola Sabatina para os pequenos. Certo dia, a lição foi sobre o livro de Daniel e a história dos três jovens jogados em uma fornalha ardente, mas protegidos do fogo.

Ela ensinou essa lição com bastante ânimo, mas, quando terminou, um dos garotinhos exclamou: “Não acredito nisso!” Então uma das meninas disse: “Eu creio, porque minha avó me conta que nenhum membro da igreja [adventista] de Hiroshima morreu quando a bomba atômica foi jogada sobre a cidade.”

Ao escutar isso, Asako se deu conta de que, embora estivesse ensinando a lição, ela também não acreditava na história, nem conseguia crer no que a menina havia dito. Ao mesmo tempo, um pensamento lhe veio à mente: “Sou jornalista, não sou? Tenho condições de descobrir se o que essa garotinha disse é verdade ou não. Preciso conferir essa história.” Assim começou sua investigação, visitando cada um dos membros da igreja que moravam em Hiroshima quando a bomba explodiu.

O DIA FATÍDICO

A primeira bomba atômica foi lançada sobre Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945 e destruiu tudo em um raio de 2 quilômetros. O solo atingiu uma temperatura inimaginável. Em um raio de 4 quilômetros tudo ficou queimado.

Um vento tremendo, com velocidade de 4,4 quilômetros por segundo, foi gerado, fazendo cair até mesmo as construções de concreto, e os estilhaços de vidro voaram a até 16 quilômetros de distância.

A radiação que emanou da bomba foi inacreditavelmente forte, levando as pessoas expostas a ela a perder todas as funções corpóreas e suas células a sofrer apoptose, uma espécie de suicídio celular. Por causa da explosão em si, dos incêndios resultantes em toda a cidade e das queimaduras por radiação, alguns estimam que 200 mil cidadãos de Hiroshima perderam a vida.

NENHUM ADVENTISTA SOFREU DANO

Em meio a toda essa devastação, seria mesmo possível que nenhum membro da igreja tivesse morrido ou se ferido, ainda que um deles morasse a 1 quilômetro de onde a bomba caiu?

Com o coração cheio de dúvidas, Asako começou a visitar cada um dos membros da igreja que estavam em Hiroshima na ocasião. Descobriu que, mesmo em meio a todas as terríveis possiblidades de morte naquele dia, nenhum deles pereceu nem se feriu. Estava falando a verdade a garotinha que disse acreditar que os três jovens fiéis foram poupados na fornalha ardente porque sua avó lhe havia contado que nenhum membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia de Hiroshima se machucou.

Durante sua investigação, a jornalista ouviu o testemunho de Hiroko Kainou, membro da igreja que, ao ser surpreendida pelo súbito vento impetuoso, dobrou-se de joelhos e orou. Embora todos os vidros da casa tenham se quebrado, ela não teve nenhum arranhão! Todos os outros 20 membros da Igreja Adventista de Hiroshima foram conservados vivos e sãos.

A NUVEM EM FORMATO DE COGUMELO

Iwa Kuwamoto

Iwa Kuwamoto, que, aos 83 anos, ainda faz evangelismo por telefone e carta, estava a 1 quilômetro de onde a bomba caiu. Quando conseguiu rastejar para fora dos edifícios caídos, testemunhou uma grande nuvem em formato de cogumelo que tapou o sol e revestiu a região em trevas. Tentou desesperadamente ajudar o marido descrente a sair dos escombros, mas um incêndio avassalador ameaçava cercá-los. Segurou o esposo pela mão e disse: “Logo o fogo chegará aqui. Não consigo fazer mais nada. Vamos morrer juntos. Deus sabe de todas as coisas. Por favor, creia em Jesus Cristo. Eu não posso salvá-lo.”

O marido respondeu: “Não, eu morrerei aqui, mas você precisa fugir para proteger nossos filhos. De algum modo, consiga ficar em segurança e encontre as crianças. Faça isso por elas.”

Mais uma vez, ela disse: “Não. É impossível escapar deste incêndio. Morrerei aqui com você.”

Entretanto, o esposo contestou: “Não. Eu ficarei bem aqui. Por muito tempo, me rebelei contra minha mãe e contra você, não acreditando em Deus. Mas agora creio na salvação divina, então nos veremos de novo. Por favor, por favor, vá e encontre as crianças. Apenas vá!”

Em lágrimas e com o coração partido, ela deixou o marido ali e, derramando água no corpo ao longo do caminho, escapou das chamas e, por fim, encontrou os filhos.

UMA MÉDICA EM MEIO À TRAGÉDIA

Tomiko Kihara

Tomiko Kihara era médica e tinha a própria clínica na época. Ela estava de plantão na noite anterior à explosão e chegou em casa por volta das 2h da manhã. Estava dormindo quando a bomba caiu. Embora estivesse a menos de 1 quilômetro do local em que a bomba caiu, nada a atingiu e ela não sofreu nenhum ferimento! Chocada com o barulho, correu para fora a fim de ver o que estava acontecendo, mas só conseguiu enxergar o chão queimado e preto.

Ao perceber a gravidade da situação, correu até um hospital no fim da cidade e, por uma semana, sem descansar nem dormir, trabalhou em favor das vítimas. Foi uma das poucas médicas que sobreviveram na cidade após a explosão. Nas semanas e meses posteriores à tragédia, ela continuava a usar tudo que tinha para ajudar as vítimas. Assim, pôde testemunhar a muitos.

UMA CRISTÃ DE VERDADE

Depois de ouvir esses testemunhos, Asako Furunaka acreditou plenamente em Deus e foi batizada. Recebeu o chamado para falar aos outros sobre a fidelidade do Salvador. Ao 58 anos, ela começou a cursar Teologia na instituição adventista de ensino superior Saniku Gakuin College. Depois de se graduar, tornou-se pastora da Igreja Adventista do Sétimo Dia de Kashiwa e posteriormente atuou como obreira bíblica na Igreja Adventista do Sétimo Dia de Kisarazu.

Após sua aposentadoria, ela continua a ser uma evangelista ativa, trabalhando com as pessoas a seu redor. Ela afirmou: “Não tenho uma família terrena da qual depender. Mas sei que Deus me ama e isso me deixa contente.”

A MALDIÇÃO QUE VIROU BÊNÇÃO

A MALDIÇÃO QUE VIROU BÊNÇÃO

O governo japonês ordenou que o templo da igreja adventista fosse demolido no verão de 1945. O primeiro-ancião recebeu a incumbência de supervisionar a derrubada da igreja, que existia desde 1917. Foi um dia triste. Tendo sido demolida da igreja, os membros se dispersaram. O que parecia uma tragédia acabou se transformando em bênção quando a bomba caiu em Hiroshima. Por causa da demolição, somente 20 membros permaneceram na cidade. Todos sobreviveram ao ataque.

RYOKO SUZUKI foi bibliotecária da Divisão do Pacífico Norte-Asiático, localizada na Coreia do Sul; seu esposo, Akeri Suzuki, atuou como secretário da Divisão; o casal serviu em igrejas locais no Japão por mais de 30 anos

(Este artigo foi extraído da Adventist Review e traduzido por Cecília Eller)

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