A cultura da inovação

Inovar é transformar ideias em soluções, revelar valores e criar novos significados

Marcos De Benedicto
Crédito: Adobe Stock

A história é antiga, mas a aplicação é nova. O industrial viajou para a Europa. Quando voltou, sua equipe havia construído o protótipo de um carro. A ideia era criar um substituto para o já lendário Modelo T. Enigmático, o empresário deu várias voltas ao redor do protótipo, abriu a porta do lado do passageiro e a arrancou. Em seguida, arrancou a porta do lado do motorista. Por fim, em um acesso de fúria, começou a destruir o carro. Afinal, quem ousava sugerir um sucessor para o ícone que fazia parte da sua própria identidade? Nome do inovador avesso à inovação: Henry Ford, o criador da fábrica de automóveis Ford.

Herói e vilão, mito empreendedor e administrador ruim, interessado em oferecer ao povo carros a baixo custo e megalomaníaco, amante do trabalho duro e controlador implacável, defensor da cooperação internacional e manipulador dos negócios, generoso nos salários para seus funcionários de muitas nacionalidades e antissemita, Ford era o paradoxo em pessoa. Ao mesmo tempo em que foi um grande inventor, ficou parado no tempo. “O cliente pode ter o carro da cor que quiser, contanto que seja preto”, disse (My Life and Work [Garden City, 1922], p. 72).

Pois bem, em sua maioria, os religiosos também são paradoxais. Nós somos. Gostamos de tradição e repetimos rituais por 100, 500, 2000 anos (10 mil, se necessário), enquanto também valorizamos o novo. Sabemos que “ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha”, “nem se põe vinho novo em odres velhos” (Mt 9:16, 17), mas deixamos as tradições se transformarem em tradicionalismos, até Deus Se cansar deles.

Inovação. Quem não gosta do conceito? Porém, na prática, quem promove a inovação? Felizmente, Deus é inovador, como enfatiza o conjunto de matérias de capa. Ele inovou desde o princípio ao criar espaços de felicidade e tornar o mundo um bom lugar para se viver, adorar e servir. Por isso, seguindo o Inovador supremo, se a igreja tivesse mais inovadores, o mundo estaria melhor.

Não devemos esquecer o passado, porém podemos honrá-lo ao reinventá-lo

As tradições são importantes e poderosas, mas as inovações também são. Se as tradições nos conectam ao passado, as inovações nos ligam ao futuro. Não devemos esquecer o passado, porém podemos honrá-lo ao reinventá-lo. Às vezes, pensamos em inovação em termos de ciência e tecnologia, processos e produtos. No entanto, as maiores inovações acontecem no nível do espírito. No reino de Deus, a inovação vai além. Não há sentido em querer transformar a igreja em Apple, ­Google ou Amazon. No âmbito religioso, inovar é transformar ideias criativas em soluções surpreendentes que criam valores e redefinem significados.

A inovação não deve ser entendida como algo circunstancial, mas intencional. É possível uma cultura de inovação. Por exemplo, o Renascimento foi um período de extraordinária criatividade. Por volta de 1435, na cidade italiana de Florença, epicentro dessa explosão de talento, a família Médici começou a apoiar um grupo de inovadores de vários lugares, incluindo artistas, cientistas e filósofos. O resultado foi fantástico! No livro The Medici Effect (Harvard Business School Press, 2004), Frans Johansson defendeu a tese central de que a intersecção de pessoas, culturas, conceitos, ideias e talentos cria um efeito inovador. E, se esse encontro da diversidade costuma favorecer a criatividade, há um grande potencial inovador numa igreja global como a nossa.

É verdade que nem sempre as ideias novas são melhores do que as antigas. Porém, isso não deveria desestimular a inovação. Se a inovação tecnológica deu um grande salto nas últimas décadas, deixemos Deus criar um novo design em nosso pensamento e renovar a igreja e o mundo por meio de nós.

MARCOS DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista

(Editorial da Revista Adventista de setembro de 2020)

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