Cuidado!

Se a Palavra não for consistente, seremos enganados pela “verdade” aparente

Erton Köhler
Crédito: Adobe Stock

Nos últimos anos, tenho dedicado mais tempo a estudar e pregar sobre o Apocalipse, com ênfase no capítulo 12. Sua mensagem revela que estamos em guerra, um grande conflito descrito em quatro cenas: (1) o início da guerra no Céu (v. 7-9); (2) a guerra contra Cristo, desde Seu nascimento (v. 13); (3) a guerra contra a igreja cristã (v. 14); (4) a guerra contra o remanescente de Deus (v. 17). No verso 9, o inimigo é desmascarado, e sua estratégia, revelada. Ele é chamado, pela primeira vez, de “sedutor”. Esta é sua arma mais eficaz, mas não permanente. No capítulo 20 (7-10), esse título se repete, mas para indicar a destruição final do inimigo.

Apocalipse 12 é uma lembrança de que não estamos em férias, num campo de piquenique, muito menos num parque de diversões. Estamos em guerra! Isso explica o porquê de tantas tragédias, escândalos, pandemias e outras crises que têm abalado a igreja e o mundo. Ainda pior é saber que não lutamos contra um inimigo declarado, mas enfrentamos um “sedutor”. Ele não se apresenta com sua verdadeira identidade, nem mostra o dano do pecado, mas se revela de maneira tão atraente que poucos conseguem identificar seus enganos. Cuidado!

Isso fica ainda mais visível quando avaliamos uma pesquisa realizada com 557 igrejas norte-americanas entre 2004 e 2010. O estudo é apresentado por Thom S. Rainer no livro Eu Sou Membro de Igreja: Descobrindo a Atitude que Faz a Diferença (CPAD, 2018). Segundo ele, “nove em cada dez igrejas dos Estados Unidos estão em declínio”. Mas a situação é ainda mais grave, pois, se “aproximadamente dois terços da geração Builder, os nascidos antes de 1946, são cristãos”, apenas 15% dos Millennials o são. Os Millennials compreendem quase 80 milhões de pessoas nascidas entre 1980 e 2000. Sua conclusão é dramática: “praticamente perdemos essa geração”.

Não podemos enfrentar os desafios atuais com discursos inflamados, argumentos convincentes, guerras ideológicas ou qualquer outro recurso humano, mas com a Palavra do Senhor

Ao analisar os motivos para essa tragédia religiosa, Rainer levanta algumas preocupações: “Podemos culpar a cultura ­secular. E frequentemente o fazemos. Podemos culpar a política de nossa nação – uma política que não se fundamenta em Deus. Também fazemos isso. Podemos culpar até mesmo as igrejas, os membros hipócritas, e os pastores indiferentes e desatenciosos. Muitos cristãos estão fazendo isso. Mas estou propondo que nós, membros da igreja, precisamos olhar no espelho”. Essa análise envolve reconhecer que “muitos membros perderam o entendimento bíblico acerca do que significa fazer parte do Corpo de Cristo” (p. 17, 18).

É triste ver esses efeitos do “sedutor”. Ele tira o foco da Palavra e o coloca na satisfação pessoal. Eugene Peterson chegou a dizer que essa sedução substitui a Trindade divina por uma “nova trindade contemporânea: meus santos sentimentos, meus santos desejos e minhas santas necessidades”. Ela está virando de cabeça para baixo os princípios bíblicos e os valores de nossa fé.

Cuidado! Não podemos enfrentar essas tendências com discursos inflamados, argumentos convincentes, guerras ideológicas ou qualquer outro recurso humano, mas com a Palavra do Senhor. Nossas vozes precisam se recolher para que o Senhor assuma o comando e Sua voz se faça ouvir. Como sugere o pastor e escritor Timothy Keller, precisamos deixar de perguntar “quem sou eu” e começar a perguntar “de quem sou eu”.

Nessa guerra, não podemos abrir espaço para que o “sedutor” continue a obra que começou quando estava no Céu, tentando colocar o egoísmo no controle. Precisamos resistir com firmeza e consagração, pois “somente aqueles que têm fortalecido a mente com as verdades da Bíblia poderão resistir no último grande conflito” (O Grande Conflito, p. 593).

ERTON KÖHLER é o presidente da Igreja Adventista para a América do Sul

(Artigo publicado na seção Bússola da edição de setembro de 2020 da Revista Adventista)

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