A voz dos bastidores

A contribuição de Ellen White foi mais consultiva do que prescritiva na assembleia de 1863

Local em que foi realizada a assembleia de 1863. Créditos da imagem: Adventist Review

Local em que foi realizada a primeira assembleia da Igreja Adventista, em 1863. Créditos da imagem: Adventist Review

Por vários motivos, 1863 foi um ano que entrou para a História. Em Londres, começou a funcionar a primeira estação de metrô do mundo, e o futebol foi oficialmente criado. Na Suíça, foi fundada a Cruz Vermelha e, nos Estados Unidos, nasceu o inventor e empreendedor Henry Ford. A guerra civil norte-americana já durava dois anos e chegaria a seu clímax na batalha de Gettysburg.

Mas aquele ano foi decisivo também para o movimento adventista. Em 1863, a Associação Geral foi organizada e Ellen White recebeu a visão sobre a reforma de saúde, duas semanas depois da assembleia. Outros eventos secundários também marcaram aquele período: a definição da postura adventista com relação ao serviço militar, a deserção do pastor Moses Hull (que se tornou espiritualista) e a morte de Henry, o filho mais velho do casal White.

No espaço, 2.200 km separam San Antonio (Texas) de Battle Creek (Michigan); e, no tempo, são 152 anos que distanciam a 60ª assembleia mundial da igreja, com seus 2.570 delegados, da reunião com 20 pessoas que lavrou a certidão de nascimento da denominação. Apesar das distâncias, é possível aprender com os erros, acertos e dificuldades do passado.

O custo da desorganização

Aquela época foi desafiadora para o adventismo. Nas décadas de 1840 e 1850, muitos guardadores do sábado eram resistentes à ideia de organizar uma denominação. Entendiam que as igrejas das quais haviam saído e que tinham rejeitado a mensagem milerita faziam o papel de Babilônia – cidade apóstata e opressora do povo de Deus nos tempos do Antigo Testamento.

Para eles, unir-se sob uma estrutura eclesiástica implicava participar desse sistema corrupto e perder a liberdade religiosa de que desfrutavam. Permanecer como um povo com uma mensagem específica, mas sem nome e sem uma instituição formal parecia ser o melhor caminho. Porém, não demorou muito para essa postura evidenciar suas fraquezas.

Sérias dificuldades resultaram da não organização. O campo de trabalho era muito grande para o número reduzido de pastores, não havia nenhum programa de apoio financeiro aos pregadores e muitos tinham que esgotar os recursos e a saúde numa dupla jornada de trabalho. A falta de uma estrutura organizacional também resultou no surgimento de autodenominados pastores, que pregavam o que bem entendiam, fomentando dissidências e dispersando o rebanho. Para completar a lista de problemas, as propriedades da igreja tinham que ser mantidas em nome de pessoas físicas, o que tornava vulnerável o patrimônio da denominação.

O caminho para a organização

1863-James_and_Ellen_WhiteDesde a década de 1850, Tiago e Ellen White, na contramão da opinião geral, apontavam a necessidade de organização. Em 1852, Ellen teve uma visão que a motivou a publicar, no ano seguinte, um artigo sobre a “ordem evangélica” (Primeiros Escritos, p. 97-100). Diante da insistência de Tiago, dos conselhos de Ellen White e dos grandes desafios enfrentados pelo movimento, aos poucos a consciência em favor da organização foi ganhando espaço, e o quadro de desordem começou a mudar.

Em 1853, os pastores passaram a receber uma espécie de credencial que atestava sua legitimidade. Em 1859, foi adotado um plano de ofertas sistemáticas que depois seria substituído pelo sistema de dízimos e ofertas. Em 1860, foi escolhido o nome da denominação. Em 1861, foi formada a primeira associação, em Michigan, e, no ano seguinte, outras seis associações estaduais seguiram o exemplo.

Porém, faltava ainda um órgão que unificasse as várias associações, estabelecendo ordem e sincronia. Foi o que ocorreu nos dias 20 a 23 de maio de 1863, com a criação da Associação Geral e a formulação de seu estatuto. Além dos delegados, o encontro reuniu membros da igreja local que participaram como observadores. A assembleia foi marcada por profundo espírito de unidade e cordialidade. Na oportunidade, foram eleitos John Byington (presidente), Uriah Smith (secretário) e Eli S. Walker (tesoureiro).

Tanto em 1860, quando o nome “adventista do sétimo dia” foi escolhido, quanto em 1863, na primeira reunião da Associação Geral, Ellen White permaneceu nos bastidores. Embora a influência da profetisa no processo de estruturação da igreja tenha sido significativa, ela não foi impositiva. Nesse contexto, o papel da pioneira foi mais consultivo do que prescritivo: ela nunca deu um nome ao movimento nem especificou qual modelo organizacional a igreja deveria adotar. Somente depois que esses passos haviam sido dados foi que ela se manifestou favoravelmente, aprovando as decisões.

Essa atitude nos ensina uma valiosa lição: nem sempre Deus especifica em detalhes, em sua Palavra ou nos escritos proféticos, o caminho que a igreja deve seguir. O que ele faz muitas vezes é apontar princípios gerais e nos dar autonomia para tomar as melhores decisões fundamentados nesses princípios e submissos a seu Espírito.

Eduardo Rueda e Lucas Diemer são editores dos livros de Ellen G. White na CPB


Para saber +

Arthur L. White, Ellen White: Mulher de Visão (CPB, 2015), p. 65-82;

Herbert E. Douglass, Mensageira do Senhor (CPB, 2009), p. 182-184;

Richard W. Schwarz e Floyd Greenleaf, Portadores de Luz (Unaspress, 2009), p. 83-99;

David Trim, “O espírito de 1863: a primeira assembleia da Associação Geral”, Adventist World, junho de 2015, p. 22-25;

Wendel Lima, “Lições da nossa história”, Revista Adventista, maio de 2003, p. 8-13;

Barry D. Oliver, “The Development of Organization and Leadership Paradigms in the Seventh-day Adventist Church”, Journal of Adventist Mission Studies, v. 3, no 1, 2007, p. 4-28.


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  • Csabo Steidl

    Estou lendo com bastante interesse o livro Meditações Matinais deste ano 2015, onde o autor descreve de forma bastante objetiva o início da Igreja Adventista do Sétimo Dia.
    Acompanho com interesse a Luta dos fundadores do movimento Adventista para o estabelecimento dos princípios básicos, para o movimento se tornar em uma igreja vibrante e missionária. Me chamou, no entanto, a atenção o fato de que até hoje(06/07)
    a menção de Ellen White, como mensageira e profetisa, ter sido desprezada. Ela quase não é mencionada, umas poucas vezes de modo superficial. Talvez até o fim do ano essa minha impressão mude. Ellen White não participou ativamente na formação e organização do movimento Adventista? a inspiração não foi fundamental na consolidação do movimento Adventista? ou o objetivo do autor não levou em questão a presença da profetisa.