Até a próxima assembleia

No fim de cada encontro mundial do povo de Deus é reavivado o senso de urgência pela volta de Cristo, mas esse sentimento não pode ser mera euforia
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“Nosso maior desejo é que a próxima sessão da Associação Geral seja realizada no Céu!”, bradou com entusiasmo o presidente da sede mundial após a oração final. “Amém! Amém! Amém!”, respondeu com fervor a multidão de representantes da igreja de todo o mundo. Abraços de despedida, e assim terminou o encontro em Toronto, Canadá, em julho de 2000.

Invariavelmente, as assembleias mundiais se encerram com essa nota de esperança e de motivação. São tomadas decisões de viver em consonância com a suprema esperança cristã, muitas delas, sob o impacto da emoção. “Jesus em breve virá para estabelecer seu reino eterno.” “Já estamos fartos deste mundo de pecado e de dor.” “Já é alto tempo de partirmos daqui para a pátria celestial.” São exclamações vibrantes que enlevam e contagiam a multidão.

Um senso de urgência é despertado em cada assembleia da Associação Geral. Esse sentimento é saudável para o viver cristão, pois impede a mornidão e a acomodação espiritual. A percepção que o cristão adventista desenvolve do iminente retorno de Cristo à Terra o leva para mais perto da Palavra de Deus, da oração e do senso de missão.

Com esse espírito e propósito nasceu a igreja cristã, tendo como base os ensinos de Jesus transmitidos aos apóstolos. O “ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16:15) encerrava uma nítida urgência, uma necessidade premente de que todos os seres humanos fossem conscientizados de que um novo reino se estabeleceria com o retorno do rei Jesus. O imperativo “ide” denotava pressa em cumprir a missão, pois tudo transcorreria rapidamente.

Ao longo de dois milênios, desde a promessa feita pelo Senhor Jesus de que regressaria à Terra, o evangelho tem sido anunciado. Milhões de pessoas foram conscientizadas da necessidade do preparo para esse evento. Ao compreenderem as evidências bíblicas, os novos conversos passam a anunciar e alertar familiares e amigos de que, além da presente existência, há um porvir eterno.

A promessa do Senhor Jesus em suas últimas palavras no livro do Apocalipse “certamente, venho sem demora” é seguida pela oração do apóstolo João, que reflete perfeitamente a expectativa do povo do advento: “Amém. Ora vem, Senhor Jesus” (Ap 22:20).

Euforia e demora

Surge na mente de muitos o conflito diante da afirmação “venho sem demora” e, por outro lado, o transcurso do tempo que parece se estender sem que a alentadora promessa alcance seu cumprimento: “Por que demoras, Senhor?”, lamentam os filhos de Deus que, junto à sepultura, se despedem dos seus queridos. “Até quando, Senhor?”, é o clamor daqueles que veem prevalecer a injustiça na sociedade. “Lembra-te de nós, Senhor”, suplicam multidões que sofrem o estigma do preconceito e do descaso dos governantes.

Numa busca de consolo e ânimo para enfrentar as agruras da presente existência, eis que os autoproclamados portadores de “nova luz” apresentam cálculos e prognósticos que permitem chegar a afirmações que delimitam o tempo da segunda vinda de Cristo. Profecias bíblicas são reinterpretadas tendo como pano de fundo os acontecimentos atuais no mundo social, político e religioso produzindo reações inflamadas em grupos de estudo e até mesmo em congregações inteiras.

No decorrer da história cristã, tem sido recorrente esse comportamento: fundamentar a esperança cristã na proximidade do fim e não propriamente na pessoa de Cristo, pois ele é o centro da nossa esperança. A euforia compromete o senso de urgência da mensagem, porque depois do desapontamento vem a letargia. Euforia/desapontamento/letargia é a sequência inevitável quando a ênfase da pregação reside na alarmista marcação de tempo.

Contudo, o cristão que aguarda o segundo advento de Cristo e, consequentemente, o fim da era do pecado e o início de um mundo melhor, conforme prometido por Deus em sua Palavra, necessita desenvolver uma atitude equilibrada enquanto espera esse evento. O senso de iminência – “Jesus em breve voltará” – precisa estar presente todos os dias em sua mente para então levá-lo a um estilo de vida elevado, de maneira que a graça divina e o fruto do Espírito Santo sejam visíveis nele. Com a convicção da proximidade desse evento, o cristão aproveitará todas as oportunidades que surgirem e até mesmo criará oportunidades para advertir, exortar e animar pessoas a atentar para o futuro eterno que Deus tem preparado para “aqueles que o amam” (1Co 2:9).

Alceu Lúcio Nunes é capelão da CPB