Missão incompleta

Conquistas e desafios marcam o crescimento numérico da igreja

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Segundo relatório apresentado nesta sexta-feira, 3 de julho, durante a assembleia mundial que acontece em San Antonio, no Texas (EUA), a Igreja Adventista está presente em 215 dos 237 países reconhecidos pela ONU.

Quando os 20 delegados da primeira assembleia-geral da Igreja Adventista chegaram a Battle Creek, em maio de 1863, jamais poderiam imaginar que 152 anos depois, cerca de 60 mil pessoas de mais de 200 países se reuniriam a fim de celebrar, em outra assembleia, a unidade, a missão e a esperança da vinda de Cristo, seguindo o legado que eles deixaram. De fato, a cada encontro mundial, os adventistas são envolvidos por um sincero sentimento de gratidão a Deus por todas as conquistas que ele tem proporcionado. Porém, precisam também refletir sobre a tarefa inacabada e agir em resposta a esse desafio.

Uma história em cinco tempos

Numa avaliação histórica sobre o crescimento mundial da Igreja Adventista, tomando por base os relatórios estatísticos da denominação, é possível identificar cinco períodos. A partir da organização da Associação Geral, em 1863, e até 1901, os adventistas avançaram em termos missionários, partindo do trabalho restrito à América do Norte, passando pela missão às nações protestantes e seguindo adiante para conquistar o mundo. Em 1900, a igreja tinha representações em todos os continentes, com 76 mil membros: 83,6% deles vivendo na América do Norte e 16,4% no exterior.

O segundo período, de 1901 a 1930, apresentou uma nova dinâmica. Com a reorganização da sede mundial e a liderança visionária de Arthur G. Daniells (1901-1922) e William A. Spicer (1922-1930), a igreja deixou de ser predominantemente norte-americana para se tornar efetivamente global. Em 1920, dos 6.955 funcionários da igreja, 62% trabalhavam fora da América do Norte. Ainda na metade da década de 1920, o número de adventistas do restante do mundo ultrapassou os que viviam nos Estados Unidos, de maneira gradual e irreversível.

Na fase seguinte, de 1930 e 1965, houve a nacionalização da liderança adventista em boa parte dos territórios alcançados. O desenvolvimento dos funcionários nativos e o espírito nacionalista que se seguiu à Segunda Guerra Mundial contribuíram para esse processo. Tal desenvolvimento se refletiu no crescimento. Em 1955, pela primeira vez em sua história, a denominação ultrapassou a marca de 1 milhão de membros.

Embora a Igreja Adventista mantivesse seu foco missionário e crescimento contínuo, uma mudança sensível passou a ser vista no período seguinte (1965-1990): surgiram as campanhas mundiais de estímulo à evangelização. Impulsionados por slogans como “Reavivamento, Reforma, Evangelismo”, “Mil Dias de Colheita” e “Colheita 90”, a igreja saiu de quase 1,6 milhão para 6,7 milhões de membros. A média anual de batismos diários também subiu nessa fase: de 397 para 1.347.

Missão global

Contudo, uma avaliação honesta do cenário revelava algo inconveniente. Em primeiro lugar, os quase 7 milhões de adventistas representavam um rebanho inexpressivo perto dos 5 bilhões de habitantes do planeta em 1990. Além disso, em regiões como Europa, Ásia e Oriente Médio, a igreja enfrentava grandes desafios evangelísticos, sem contar os diversos grupos populacionais e etnias não alcançados nos países em que já havia presença adventista.

Esses fatores resultaram, em 1990, no lançamento do programa que representa o maior esforço missionário da história adventista: a Missão Global. Desde então, a igreja tem investido de forma ampla, estratégica e consistente na evangelização mundial. Em 2005, o programa foi realocado para o escritório da Missão Adventista na sede mundial. Com o desafio de estabelecer a presença da igreja em “cada nação, tribo, língua e povo”, pastores e membros têm participado de iniciativas como “Diga ao Mundo” e “Esperança para as Grandes Cidades”.

De 1990 para cá, a igreja tem registrado seus maiores índices de crescimento. Em 1998, a denominação ultrapassou a marca de 10 milhões de membros. Em 2006, pela primeira vez em sua história, obteve uma média anual de mais de 3 mil batismos diários. No ano passado, a igreja chegou ao seu 10o ano consecutivo batizando anualmente mais de 1 milhão de pessoas e plantando mais de 2 mil congregações. Hoje, em média, existe um adventista para cada 393 habitantes do mundo, uma proporção nunca antes alcançada. Assim, ao chegar a San Antonio, Texas, os delegados da 60a assembleia mundial representam 18,5 milhões de fiéis de 215 países.

Tarefa inacabada

Os números significativos dos últimos anos, contudo, não devem ofuscar os grandes desafios do adventismo no século 21. Em primeiro lugar, esse crescimento empolgante da igreja se limita ao hemisfério Sul, tendo em vista que, nos países desenvolvidos, o adventismo está estagnado ou declinando, crescendo apenas entre os imigrantes.

Outro ponto é que, apesar de ter avançado territorialmente, a igreja ainda se depara com o quadro identificado pelo programa Missão Global: muitas etnias não foram alcançadas. A demanda exige diversificação de métodos e mais gente disposta a servir a “toda tribo”.

Por último, existe o drama da apostasia e o desafio do discipulado. Entre 1964 e 2014, foram batizadas mais de 33 milhões de pessoas. Entretanto, quase 14 milhões abandonaram a igreja ou estão desaparecidas. De acordo com o pesquisador adventista Monte Sahlin, as razões principais para que pessoas saiam do adventismo estão mais relacionadas com problemas pessoais do que com questões doutrinárias. Em outras palavras, de alguma forma, as comunidades de fé não têm conseguido dar o suporte necessário a seus membros para que superem as dificuldades da vida.

Diante das festividades da assembleia mundial de San Antonio, é tempo de celebrar as conquistas; de refletir sobre os desafios; e de se levantar e brilhar. Afinal, Jesus está voltando!

Wellington Barbosa é pastor, mestre em Teologia e editor de livros na CPB


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Foto: Josef Kissinger

No próximo dia 11 de julho, os adventistas celebrarão o encerramento da sua 60ª assembleia mundial. No fim do evento, a igreja terá eleito seus líderes mundiais e as novas lideranças continentais. Provavelmente, também tenha um manual de igreja ligeiramente alterado e sua declaração de crenças modificada, a fim de definir precisamente pontos que podem abrigar posições antibíblicas, como o evolucionismo teísta e a união conjugal homoafetiva.

Porém, até lá, estará votada a questão mais controversa desse encontro: a liberdade/autonomia de cada sede continental da igreja (suas 13 Divisões) poder ordenar ou não mulheres ao ministério pastoral. Para muitos membros da igreja, decisões dessa magnitude poderão significar insegurança quanto aos rumos que a denominação toma, ainda mais se levado em conta a responsabilidade profética que a Igreja Adventista do Sétimo Dia tem para com o restante do mundo na iminência do retorno de Cristo.

No entanto, todas essas decisões, para nós tão cruciais, não passam de pequenos ajustes quando comparadas ao tamanho dos impasses pelos quais a igreja cristã e a adventista já passaram. No período de definição das crenças dos adventistas, por exemplo, ocorreram as “assembleias sabáticas”. Realizadas de 1847 a 1850, as reuniões atraíram estudiosos da Bíblia que tinham em comum apenas a expectativa do segundo advento e o sábado como dia de guarda, para definirem tudo o mais que não lhes era comum. Eventualmente, não havia mais que dois congressistas que compartilhavam o mesmo ponto de vista sobre determinada doutrina cristã. Porém, guiados pelo Espírito Santo, esses pioneiros formaram a base para uma igreja de coesão teológica inigualável entre outras denominações.

Matias, diáconos e circuncisão

É na Bíblia, especificamente no livro de Atos, que encontramos as maiores polêmicas que a igreja teve que resolver. Três delas se destacam: a eleição de um novo apóstolo para substituir o traidor e suicida Judas Iscariotes (At 1:15-26); o estabelecimento do grupo de sete (diáconos) para atender às necessidades das viúvas de fala grega (At 6:1-7); e a inclusão dos não judeus na igreja (At 15:1-35).

A eleição de Matias foi o primeiro impasse. O próprio Cristo havia pessoalmente escolhido os doze discípulos (Lc 6:12-16). Preencher a vaga de Judas era um ato que, de certo modo, trazia ao grupo uma responsabilidade que havia pertencido ao próprio Mestre. E talvez essa seja uma importante lição: eventualmente, a igreja deve se posicionar sobre assuntos em que, literalmente, precisa agir em lugar de Deus na Terra.

É obvio que não devemos alterar o que foi claramente revelado pelo Espírito Santo nas Escrituras. Afinal, Deus não muda seus princípios. Mas necessidades eventuais demandam decisões específicas. E a escolha do novo apóstolo foi um caso desses. O ponto é como os primeiros cristãos procederam: definiram biblicamente os motivos da decisão (veja a argumentação de Pedro em Atos 1:14-22) e oraram (At 1:24 e 25), permitindo a atuação de Deus por meio de sortes, recurso usado apenas essa vez no Novo Testamento.

Por sua vez, a eleição dos sete primeiros diáconos pode ser um exemplo de quando a igreja precisa decidir a respeito de uma necessidade não prevista anteriormente na Bíblia. Em Atos 6:1 a 7, diferentemente da eleição de Matias, não há uso de textos bíblicos para justificar a questão. O tópico parece ser de natureza mais prática do que teológica. No entanto, critérios bíblicos guiaram a decisão (At 6:3). E a igreja prosperou como resultado de uma deliberação acertada (At 6:7).

Por fim, a maior polêmica da fase primitiva da igreja foi a inclusão dos não judeus. A circuncisão tinha sido estabelecida por Deus como emblema de sua aliança com seu povo (Gn 17:9-14). Não se circuncidar indicava estar excluído da aliança com Deus. E, no pensamento de grande parte dos primeiros cristãos, predominantemente de origem judaica, fazer parte do concerto de Abraão por meio da circuncisão era requisito indispensável para a genuína conversão. Afinal, Deus mesmo havia feito essa exigência no Antigo Testamento. Portanto, a questão era complexa, porque tinha implicações teológicas, administrativas, evangelísticas e éticas. Um impasse insuperável na história cristã posterior.

No entanto, a assembleia ocorrida em Jerusalém encontrou justificação bíblica para a questão (At 15:15-21). A isso somou-se a observação de como Deus agia diante da situação (At 15:7-11). Afinal, os conversos incircuncisos demonstravam todos os sinais de regeneração e apresentavam evidências da atuação do Espírito Santo (At 10:47). O consenso foi bem diferente do que uma leitura superficial do Antigo Testamento sugeria. Por isso, a assembleia de Jerusalém publicou um documento dispensando os novos convertidos da prática da circuncisão (At 15:23-29).

Assim o Senhor tem atuado quando sua igreja está diante de impasses. Assim é dever de cada membro da igreja ao redor do mundo orar pelos 2.570 delegados que, durante dez dias, terão a responsabilidade de usar critérios bíblicos para tomar decisões importantes. Dobre seus joelhos em favor dessa assembleia! [Créditos da imagem: Josef Kissinger]

Fernando Dias é pastor e editor de livros didáticos na CPB


Para saber +

Bernhard Oestreich, “Unidade na diversidade”, Ministério, maio-junho de 2012, p. 14-16.

Eles nos representam

O modelo de governo representativo e a realização de assembleias têm precedente bíblico

assembleia-San-Antonio-2015-02.07-creditos-leonidas-guedes-4De praticamente cada nação do globo, há representantes dos adventistas do sétimo dia em San Antonio, Texas. Eles vão passar os dias 2 a 11 de julho acompanhando a 60ª assembleia da Associação Geral. O evento, descrito por Sheri Clemmer, uma das suas organizadoras, como uma “reunião campal gigante”, deve receber, além dos 2.570 delegados, mais de 65 mil visitantes nos cultos sabáticos. O encontro irá gerar um impacto missionário na metrópole, que receberá projetos sociais dos adventistas e conhecerá a face multicultural da igreja. No entanto, as principais finalidades da reunião são administrativas e doutrinárias.

Nas assembleias mundiais, são apresentados os relatórios das atividades e do progresso de cada uma das 13 regiões administrativas da igreja (divisões). Os delegados – grupo formado por administradores, pastores, funcionários de linha de frente e membros da igreja – elegem os líderes da sede mundial da igreja e das 13 divisões. Eles também podem decidir mudanças no Manual da Igreja e na redação das crenças fundamentais da denominação (Nisto Cremos). O sistema de assembleias mantém a unidade e a representatividade da igreja e é necessário por causa do modelo administrativo adotado pelos adventistas.

Algumas igrejas cristãs são regidas por um líder carismático, que legisla a ordem e, às vezes, a doutrina da igreja (modelos papista e personalista). Outras mantêm cada congregação local bastante independente em questões de ordem, finanças e costumes (modelo congregacionalista). Já os adventistas mesclaram o sistema episcopal dos metodistas com o modelo presbiteriano de governo. O resultado foi uma estrutura representativa, com uma hierarquia flexível, mas com as decisões sendo tomadas pelas comissões de delegados. Não é uma democracia no sentido de que cada membro pode votar no que a denominação vai crer ou quais práticas vai seguir. Mas harmoniza-se com o ensino bíblico sobre a igreja e com a doutrina do sacerdócio de todos os cristãos.

Portanto, as crenças e procedimentos da igreja não são definidos pelo presidente da Associação Geral e outros líderes eclesiásticos, como alguns podem ser tentados a pensar. As decisões que afetam a igreja como um todo são tomadas por representantes de todo o mundo em assembleias como a que ocorre no Texas.

Sistema já aprovado

O sistema, aparentemente moderno, foi elaborado a partir de princípios seguidos pelos apóstolos. Obviamente, no primeiro século não havia a necessidade de uma estrutura como a de hoje. Mesmo assim, os primeiros cristãos tomaram grandes decisões em assembleias gerais.

Na história narrada em Atos 15, a unidade do cristianismo estava ameaçada por uma difícil questão: a inclusão dos não judeus na igreja. As congregações estabelecidas fora da Judeia enviaram representantes a Jerusalém a fim de arbitrarem o procedimento teologicamente correto quanto ao assunto. A Bíblia fala da diversidade dos representantes: eram “apóstolos e presbíteros” (v. 6). Menciona os relatórios (v. 4) e descreve o debate e a argumentação bíblica do tema (v. 7 a 19). O consenso foi estabelecido e um documento com as resoluções foi publicado e enviado a todas as igrejas (v. 20, 21, 23 a 30). Líderes foram eleitos com a responsabilidade de fazer valer as resoluções do concílio e manter a unidade da igreja (v. 22). Todos esses são procedimentos usuais nas reuniões administrativas da Igreja Adventista.

Apesar da enorme distância no tempo e espaço entre Jerusalém e San Antonio, ambas as assembleias compartilham os mesmos princípios. Assim como o apego à Palavra de Deus manteve a unidade há tanto tempo, é ainda indispensável para preservar a harmonia da igreja. A Bíblia, a base da nossa fé, é também o cimento de nossa unidade denominacional.

Fernando Dias é pastor e editor de livros didáticos na CPB


 

Para saber +

Andrew McChesney, “Surpresas em San Antonio”, em Adventist World, junho de 2015.

George R. Knight, Uma Igreja Mundial (CPB, 2000).

Wendel Lima, “Lições da nossa história”, Revista Adventista, maio de 2013.

Manual da Igreja (CPB, 2010).


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Presença providencial

Ellen White ajudou a descentralizar as decisões da igreja na assembleia de 1901

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A presença de Ellen White, ainda na véspera da assembleia de 1901, foi fundamental para que a igreja se reestruturasse. Créditos da imagem: White Estate

Se hoje muitos adventistas celebram o modelo de governo adotado pela igreja, que privilegia a representatividade, sem abrir mão da unidade e diversidade, devem esse legado à assembleia de 1901 e à influência de Ellen White sobre os delegados da época. A existência de quatro níveis administrativos na igreja, a integração dos ministérios e instituições sob o guarda-chuva da sede mundial e a utilização de comissões no processo decisório é uma herança que remonta à última assembleia realizada em Battle Creek, em 1901.

Por duas vezes a Igreja Adventista passou pelo processo de (re)estruturação administrativa. A primeira ocorreu em 1863, com a formação das associações locais. Naquele ano, a igreja possuía 3.500 membros, a maioria morando no Nordeste dos Estados Unidos, e apenas uma instituição, a editora Review and Herald. A reestruturação sucedeu em 1901, com a formação das uniões e dos departamentos. Naquela oportunidade, a igreja possuía 75 mil membros espalhados por toda a América do Norte e outras partes do mundo (80% residiam nos Estados Unidos).

Desafios do crescimento

A assembleia de 1901, iniciada no dia 2 de abril, foi a primeira a que Ellen White assistiu após ter passado quase dez anos na Austrália. Ainda no exterior, ela recebeu revelações de Deus sobre a situação espiritual de seu povo e a necessidade de retornar imediatamente aos Estados Unidos para orientar a igreja em sua reorganização administrativa. Embora tivesse crescido bastante em número de membros e instituições, a igreja passava por dificuldades financeiras e de gestão.

A chegada de Ellen White a Michigan, para a assembleia no tabernáculo de Battle Creek, trouxe muito alento aos 267 delegados presentes. Aquela foi a última assembleia realizada na cidade que, por décadas, serviu de quartel-general da igreja. Na época, havia 45 associações locais, sendo que 31 estavam dentro dos Estados Unidos. Existiam também as instituições que surgiram depois da organização de 1863, como o primeiro sanatório (1866) e a primeira escola (1874).

Em vez de departamentos, havia associações ou sociedades formadas para incrementar o trabalho da igreja em setores diversos. Entre elas: a Sociedade Internacional de Folhetos Missionários, que surgiu em 1874; a Associação Internacional da Escola Sabatina, em 1878; a Associação de Saúde e Temperança, em 1879; a Associação Nacional de Liberdade Religiosa, em 1889; e a Associação Médica Internacional Missionária e Benevolente, em 1893. Embora essas instituições aparentassem ser da Igreja Adventista, seus líderes a administravam de forma independente, como se não fizessem parte da organização. A obra de saúde, por exemplo, era dirigida pelo Dr. John H. Kellogg, e não pela Associação Geral nem pela associação local.

O maior sanatório era o de Battle Creek, que possuía instalações para atender mais de mil pacientes. No ano de 1901, duas mil pessoas foram empregadas nessa instituição, enquanto o número de missionários contratados em todas as associações locais e no evangelismo não passava de 1.500. Uma reorganização administrativa da igreja era necessária para que fossem eliminadas essas discrepâncias.

Outro setor que necessitava de reestruturação era o financeiro. Não havia um orçamento bem elaborado. Em geral, as associações mais próximas da sede eram socorridas, enquanto as mais distantes não eram contempladas com auxílios. Também faltava dinheiro para as despesas regulares, inclusive para o salário de quem trabalhava na linha de frente, e dívidas eram assumidas para cobrir essas demandas.

Um procedimento que trazia muita preocupação para alguns líderes, inclusive para Ellen White, era a centralização das decisões da Associação Geral na mão de poucas pessoas. Os meios de comunicação da época eram precários em relação aos de nossos dias, as correspondências demoravam semanas de um continente para outro, e as decisões para a negociação de propriedades ou admissão de funcionários em um país distante nem sempre podiam esperar. Somente a descentralização administrativa poderia sanar esse problema.

Mudanças

A presença de Ellen White, ainda na véspera da assembleia de 1901, foi fundamental para que a igreja se reestruturasse. Ela participou de uma reunião na biblioteca do Colégio de Battle Creek com os principais líderes da denominação. Arthur G. Daniells dirigiu esse encontro e cedeu a palavra para a mensageira de Deus. Ela então esboçou os princípios da reestruturação administrativa da igreja: (1) enfatizou a reorganização, sem entrar em detalhes sobre sua forma; (2) disse que a mente de um homem ou a de poucos nunca deveria ser o bastante em sabedoria e poder para controlar a igreja e delinear os planos a ser seguidos; (3) defendeu a formação de uma comissão executiva com representantes de todas as áreas e; (4) salientou que Deus não desejava que o trabalho médico estivesse separado do religioso.

Durante a assembleia, foram considerados os princípios indicados por Ellen White: (1) foi formada uma comissão executiva com representantes de todos os ramos da igreja; (2) foram criadas as primeiras uniões norte-americanas; (3) a igreja passou a ter quatro níveis administrativos: igreja local, associação local, união e Associação Geral e; (4) as associações ou sociedades, que eram independentes, passaram a ser departamentos integrados à sede mundial.

Apesar dessas mudanças, as reformas somente foram completadas na assembleia de 1903, quando o presidente da comissão executiva da Associação Geral passou a ser eleito pelos delegados da assembleia, e não por uma comissão; e a área médica foi também incorporada como departamento da igreja.

Desde 1903, a igreja tem sido administrada basicamente assim. Sua estrutura organizacional e instituições têm servido adequadamente à igreja. Essa estrutura continua a facilitar o ministério e a missão da igreja adventista no mundo e tem sido uma plataforma para a igreja responder aos desafios da evangelização global.

Paulo Roberto Pinheiro é editor dos livros de Ellen G. White na CPB


Para saber +

Arthur White, Ellen White: Mulher de Visão (CPB, Tatuí: 2015).

Barry D. Oliver, “The Development of Organization and Leadership Paradigms in the Seventh-day Adventist Church”, Journal of Adventist Mission Studies (JAMS), v. 3, nº 1, 2007, p. 4-28.

Bert B. Beach, “The Church, Structural Organization, and Acculturation”, Journal of Adventist Mission Studies (JAMS), v. 3, nº 1, 2007.


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Equilíbrio diante da crise

Ellen White foi a voz da ponderação na assembleia de 1888, a mais polêmica da história da igreja

Home1888

91 delegados se reuniram para a 27ª Sessão da Associação Geral de 1888, em Minneapolis, Minnesota (EUA). Essa assembleia ficou conhecida por sua relação com a mensagem da justificação pela fé. Créditos da imagem: GC Archives

Os meses passam e a tensão se intensifica. Constantes mensagens são divulgadas pela igreja, reforçando a solenidade da assembleia que se aproxima. Proponentes do voto “sim” se esforçam para conquistar adeptos do voto “não”. Ameaças, disfarces, preocupação e ansiedade pesam no ar. Testemunhar uma assembleia mundial dos adventistas do sétimo dia é uma experiência emocionante e peculiar. Mas essa que se aproxima promete ser particularmente especial. Muitos tópicos serão discutidos e decididos, porém a atenção de todos está voltada para o assunto central. Qual seria esse? Como não saber? É praticamente a única coisa que se discute pelos corredores da igreja!

Talvez você tenha pensado que o contexto de polarização descrito acima se refira à assembleia de San Antonio e ao voto sobre a ordenação de mulheres ao ministério pastoral. Engano. Esse clima de rivalidade, infelizmente, teve lugar no coração dos delegados da reunião de 1888 em Mineápolis (Minnesota, EUA). Há 127 anos, a igreja estava se preparando para o que se tornaria a mais polêmica assembleia mundial da sua história.

No entanto, a assembleia deste ano no Texas também promete deixar sua marca. Alguns elementos unem os dois encontros: a tensão crescente diante da aproximação do evento; a natureza polêmica do debate central; a ameaça de mudança e seus efeitos posteriores; e as influências políticas e culturais no debate. Embora outros assuntos tenham sido tratados, a assembleia de 1888 ficou conhecida por sua relação com a mensagem da justificação pela fé. De igual forma, San Antonio pode entrar para os anais da história do adventismo como a reunião que dará um desfecho para o impasse sobre a ordenação feminina.

Contudo, um elemento-chave desequilibra essa comparação: a presença da mensageira do Senhor. Em 1888, Ellen White foi uma participante fundamental na assembleia. Com uma postura equilibrada, ela contribuiu para que ambos os lados do debate pudessem apresentar suas ideias. Sua preocupação era a de que a igreja mantivesse a unidade diante do público, enquanto o assunto era discutido internamente. Embora tenha sido pressionada a manifestar uma posição oficial sobre o assunto, e assim finalizar a discussão, Ellen White se absteve de tal postura. “O que desejamos”, clamava ela, “é evidência bíblica para cada passo que tomamos” (Carta 13, 1887).

Havia se tornado claro para a pioneira que a crise de 1888 tinha que ver com o coração da mensagem adventista e como resolver impasses teológicos. Em busca de uma solução, a liderança da Associação Geral tinha procurado resolver a questão ouvindo a opinião de especialistas, de líderes em posição de autoridade, e recorrendo à tradição adventista. Porém, era fundamental que o assunto fosse resolvido a partir de respostas bíblicas para cada ponto.

Nem todas as sugestões de Ellen White foram acatadas, sendo que ela foi muitas vezes desprezada e ridicularizada. Ali, ela testemunhou “o mais difícil e incompreensível cabo de guerra que já ocorreu entre nosso povo” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 178). Mas pelo fato de ter encontrado na Bíblia o respaldo, com algumas ressalvas, para o ponto de vista defendido por E. G. Waggoner e A. T. Jones, ela os apoiou e encorajou a continuar pregando. Durante a década que se seguiu, Ellen White mesmo realizou encontros de reavivamento por todo o país, buscando unificar a igreja em torno da doutrina da justificação pela fé.

Mineápolis, infelizmente, ficou conhecida pelo ambiente de crítica e legalismo. Ellen White afirmou que o espírito predominante durante as reuniões “não era o espírito de Jesus” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 175). No entanto, nem tudo estava perdido. A partir de Mineápolis, o centro teológico da denominação começou a mudar: da proclamação com base na perpetuidade da lei de Deus para a mensagem centralizada na pessoa e no ministério de Cristo. Consequentemente, o enfoque missionário deixou de ser naqueles que não guardavam a lei, para enfatizar aqueles que não haviam aceitado Jesus como Senhor e Salvador.

De Mineápolis, muitos saíram com a mensagem da justificação pela fé no coração e com uma nova motivação para testemunhar. É por isso que alguns especialistas enxergam nessa reunião uma mola propulsora para as missões nos países não cristãos, uma mudança na visão missiológica do movimento. Embora a assembleia de Mineápolis tenha sido a reunião mais polêmica do adventismo, ela também representa bênção para a denominação. Os erros e acertos dessa assembleia devem nos servir de lição para o futuro.

A exemplo de 1888, muitos temem pelos resultados da assembleia de San Antonio, o que é justificável. Porém, a pergunta é: por que o temor? Por apego à tradição? Por não saber se a mudança é motivada pelas intenções certas? Por receio das implicações? Precisamos nos certificar de que estamos seguindo os princípios e o exemplo deixado pela mensageira do Senhor: dialogar movidos pelo espírito de Cristo e decidir com base nas Escrituras. Se assim for, temos mais chance de estar no caminho certo.

Glauber Araújo é pastor, mestre em Ciências da Religião e editor de livros na CPB


Para saber +

Denis Fortin e Jerry Moon, The Ellen G. White Encyclopedia (Review & Herald, 2013).

George R. Knight, A Mensagem de 1888 (CPB, 2003).

Berndt D. Wolter, “Missão e crescimento: desafios ao movimento adventista”, Parousia, 1º e 2º semestre de 2009.


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A voz dos bastidores

A contribuição de Ellen White foi mais consultiva do que prescritiva na assembleia de 1863

Local em que foi realizada a assembleia de 1863. Créditos da imagem: Adventist Review

Local em que foi realizada a primeira assembleia da Igreja Adventista, em 1863. Créditos da imagem: Adventist Review

Por vários motivos, 1863 foi um ano que entrou para a História. Em Londres, começou a funcionar a primeira estação de metrô do mundo, e o futebol foi oficialmente criado. Na Suíça, foi fundada a Cruz Vermelha e, nos Estados Unidos, nasceu o inventor e empreendedor Henry Ford. A guerra civil norte-americana já durava dois anos e chegaria a seu clímax na batalha de Gettysburg.

Mas aquele ano foi decisivo também para o movimento adventista. Em 1863, a Associação Geral foi organizada e Ellen White recebeu a visão sobre a reforma de saúde, duas semanas depois da assembleia. Outros eventos secundários também marcaram aquele período: a definição da postura adventista com relação ao serviço militar, a deserção do pastor Moses Hull (que se tornou espiritualista) e a morte de Henry, o filho mais velho do casal White.

No espaço, 2.200 km separam San Antonio (Texas) de Battle Creek (Michigan); e, no tempo, são 152 anos que distanciam a 60ª assembleia mundial da igreja, com seus 2.570 delegados, da reunião com 20 pessoas que lavrou a certidão de nascimento da denominação. Apesar das distâncias, é possível aprender com os erros, acertos e dificuldades do passado.

O custo da desorganização

Aquela época foi desafiadora para o adventismo. Nas décadas de 1840 e 1850, muitos guardadores do sábado eram resistentes à ideia de organizar uma denominação. Entendiam que as igrejas das quais haviam saído e que tinham rejeitado a mensagem milerita faziam o papel de Babilônia – cidade apóstata e opressora do povo de Deus nos tempos do Antigo Testamento.

Para eles, unir-se sob uma estrutura eclesiástica implicava participar desse sistema corrupto e perder a liberdade religiosa de que desfrutavam. Permanecer como um povo com uma mensagem específica, mas sem nome e sem uma instituição formal parecia ser o melhor caminho. Porém, não demorou muito para essa postura evidenciar suas fraquezas.

Sérias dificuldades resultaram da não organização. O campo de trabalho era muito grande para o número reduzido de pastores, não havia nenhum programa de apoio financeiro aos pregadores e muitos tinham que esgotar os recursos e a saúde numa dupla jornada de trabalho. A falta de uma estrutura organizacional também resultou no surgimento de autodenominados pastores, que pregavam o que bem entendiam, fomentando dissidências e dispersando o rebanho. Para completar a lista de problemas, as propriedades da igreja tinham que ser mantidas em nome de pessoas físicas, o que tornava vulnerável o patrimônio da denominação.

O caminho para a organização

1863-James_and_Ellen_WhiteDesde a década de 1850, Tiago e Ellen White, na contramão da opinião geral, apontavam a necessidade de organização. Em 1852, Ellen teve uma visão que a motivou a publicar, no ano seguinte, um artigo sobre a “ordem evangélica” (Primeiros Escritos, p. 97-100). Diante da insistência de Tiago, dos conselhos de Ellen White e dos grandes desafios enfrentados pelo movimento, aos poucos a consciência em favor da organização foi ganhando espaço, e o quadro de desordem começou a mudar.

Em 1853, os pastores passaram a receber uma espécie de credencial que atestava sua legitimidade. Em 1859, foi adotado um plano de ofertas sistemáticas que depois seria substituído pelo sistema de dízimos e ofertas. Em 1860, foi escolhido o nome da denominação. Em 1861, foi formada a primeira associação, em Michigan, e, no ano seguinte, outras seis associações estaduais seguiram o exemplo.

Porém, faltava ainda um órgão que unificasse as várias associações, estabelecendo ordem e sincronia. Foi o que ocorreu nos dias 20 a 23 de maio de 1863, com a criação da Associação Geral e a formulação de seu estatuto. Além dos delegados, o encontro reuniu membros da igreja local que participaram como observadores. A assembleia foi marcada por profundo espírito de unidade e cordialidade. Na oportunidade, foram eleitos John Byington (presidente), Uriah Smith (secretário) e Eli S. Walker (tesoureiro).

Tanto em 1860, quando o nome “adventista do sétimo dia” foi escolhido, quanto em 1863, na primeira reunião da Associação Geral, Ellen White permaneceu nos bastidores. Embora a influência da profetisa no processo de estruturação da igreja tenha sido significativa, ela não foi impositiva. Nesse contexto, o papel da pioneira foi mais consultivo do que prescritivo: ela nunca deu um nome ao movimento nem especificou qual modelo organizacional a igreja deveria adotar. Somente depois que esses passos haviam sido dados foi que ela se manifestou favoravelmente, aprovando as decisões.

Essa atitude nos ensina uma valiosa lição: nem sempre Deus especifica em detalhes, em sua Palavra ou nos escritos proféticos, o caminho que a igreja deve seguir. O que ele faz muitas vezes é apontar princípios gerais e nos dar autonomia para tomar as melhores decisões fundamentados nesses princípios e submissos a seu Espírito.

Eduardo Rueda e Lucas Diemer são editores dos livros de Ellen G. White na CPB


Para saber +

Arthur L. White, Ellen White: Mulher de Visão (CPB, 2015), p. 65-82;

Herbert E. Douglass, Mensageira do Senhor (CPB, 2009), p. 182-184;

Richard W. Schwarz e Floyd Greenleaf, Portadores de Luz (Unaspress, 2009), p. 83-99;

David Trim, “O espírito de 1863: a primeira assembleia da Associação Geral”, Adventist World, junho de 2015, p. 22-25;

Wendel Lima, “Lições da nossa história”, Revista Adventista, maio de 2003, p. 8-13;

Barry D. Oliver, “The Development of Organization and Leadership Paradigms in the Seventh-day Adventist Church”, Journal of Adventist Mission Studies, v. 3, no 1, 2007, p. 4-28.


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