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Mensagem final e despedida

Adventistas de quase 170 países celebram o encerramento da assembleia mundial reafirmando a identidade bíblica e o foco missionário da igreja

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Todas as arquibancadas ficaram lotadas durante o último dia de programação 60ª assembleia da Associação Geral. Créditos: Leônidas Guedes

Alegria, festa, celebração. Foi esse o clima do sábado, 11 de julho, o último dia da 60a assembleia da Associação Geral, em San Antonio, Texas. Antes das oito da manhã, multidões se dirigiram a pé para o Alamodome, até que o imenso estádio coberto ficou praticamente lotado. Bandeiras foram penduradas nas arquibancadas e milhares de celulares e câmeras fotográficas registravam um dia único, memorável. Após dez dias de reuniões, nomeações e momentos de expectativa e tensão, prevaleceu um sentimento de gratidão pela maneira de Deus ter conduzido os encontros.

Relatos missionários

Antes do estudo da lição da Escola Sabatina, foi apresentada uma “carta missionária” viva, relatada por Milan Moskala, natural da República Tcheca. Ele, que se dedicou às missões desde 1996, começando pela Bósnia, tem atuado como médico e evangelista em algumas das regiões mais pobres e desafiadoras do mundo. Nos poucos minutos que tinha para falar, Moskala contou uma experiência extraordinária envolvendo a ressurreição de um garoto. “Em Bangladesh, um menino se afogou e ficou no fundo do rio por seis horas. Então, a mãe dele ficou desesperada, e as pessoas diziam: ‘Deus está punindo você porque você se tornou cristã’. Quando o pastor chegou, tomou nos braços o corpo do menino cheio de lama e disse: ‘O Senhor, nosso Deus, é digno de louvor. O Senhor enviou Seu filho que nos salvou. Então, eu te peço que, se for da tua vontade, restaura esse menino’. Então, o menino disse: ‘Mo… mother’ (mãe)”, relatou.

Moskala fez um apelo aos profissionais da saúde para que se dispusessem a servir como missionários. Pediu também a criação de unidades móveis, como ambulâncias e vans, e apelou: “Não podemos perder nenhum momento. Vamos manter a urgência da volta de Cristo.” Seu pedido foi seguido por outro, feito por dois jovens apresentadores, que falaram sobre a janela 10/40: “Oitenta milhões de crianças dormem com fome todos os dias. Precisamos de mais missionários, de mais pessoas nos hospitais. Pense em nossas ofertas missionárias. Ore para que Deus nos dê uma visão clara das missões.”

No mesmo tom, Floyd Morris, o primeiro adventista deficiente visual a se tornar presidente do Senado jamaicano, também apelou para que a igreja olhe para as pessoas com deficiências físicas. “A igreja tem um importante papel em trabalhar pelos que têm alguma deficiência. É preciso incluir mais indivíduos com deficiência. Cada membro tem a responsabilidade de trabalhar com essas pessoas, seguindo o exemplo de Jesus. Temos que tornar nossas igrejas mais acessíveis. Eles têm o seu lugar no reino como qualquer outra pessoa”, refletiu.

Pastor Jonathan Kuntaraf (esq.), ex-diretor de Escola Sabatina e Ministério Pessoal da Associação Geral, ao lado do turco Mustafa Kemal Alkan, convertido do islamismo.

Pastor Jonathan Kuntaraf (esq.), ex-diretor de Escola Sabatina e Ministério Pessoal da Associação Geral, ao lado do turco Mustafa Kemal Alkan, convertido do islamismo.

O momento missionário foi seguido pelo testemunho de um dos dez a 15 turcos étnicos convertidos do islamismo à mensagem adventista, num país de mais de 75 milhões de habitantes. Certa vez, Mustafa Kemal Alkan foi convidado a traduzir a lição da Escola Sabatina, e seu mundo “virou de cabeça para baixo”, segundo contou. A esposa orou por sua conversão durante sete anos, até que ele teve um sonho: “Vi três profetas sobre um monte, e eu fui chamado. Então acordei suado e não consegui mais dormir. Passei a estudar a Bíblia e encontrei um verso muito semelhante ao que tinha ouvido.” Sua conversão o levou ao ponto de aceitar Jesus como seu Salvador, sem reservas: “Jesus é meu Salvador. Eu o aceito como meu salvador pessoal. Quero seguir Jesus”, relembrou. Mustafa terminou pedindo que a igreja ore pelo mundo muçulmano.

Homenagem

Após a Escola Sabatina, coordenada por Kathy Begles e Felix Cortez, o culto foi introduzido pelo som de uma orquestra formada por diferentes grupos e maestros, tendo atrás de si o Coral Carlos Gomes, da Igreja do Unasp campus São Paulo. Após hinos congregacionais e mensagens musicais, o pastor Ted Wilson se dirigiu ao púlpito, iniciando sua mensagem de maneira emocionante.

Homenageou, entre outros, seus antecessores, Jan Paulsen (1999-2010), que já havia retornado à Noruega, seu país natal, e Robert Folkenberg (1990 a 1999), impossibilitado de estar presente devido a uma enfermidade e que se prepara a fim de ser submetido a uma cirurgia nos próximos dias.

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Emocionado, o pastor Folkenberg falou com o público reunido no Alamodome por meio da internet.

Foi então que surgiu nos telões o rosto de Folkenberg, visivelmente frágil e emocionado. Nesse momento, dezenas de milhares de pessoas começaram a bater palmas, o que comoveu o ex-presidente. Ele não conseguiu conter as lágrimas e disse: “Obrigado!”. Ted Wilson, então, pediu que Folkenberg falasse algo para a igreja reunida. A palavras do ex-presidente foram: “Envio saudações para vocês aí. Deus os abençoe. Ele virá logo!”. E o estádio o aplaudiu novamente. O momento de homenagens terminou com menção a Bob Rawson, ex-secretário da Associação Geral, entre 1970 e 1980, que também foi visto ao vivo nos telões. O pastor Ted Wilson extraiu aplausos e risos do público ao dizer que o pastor Rawson tinha 102 anos e uma carteira de motorista com validade de três anos. A voz firme e segura de Rawson foi ouvida no Alamodome: “Aprecio muito esta oportunidade, e minha mensagem é muito simples: Jesus está voltando logo!”

Cruze o Jordão

O sermão ficou por conta do pastor Ted Wilson, reeleito pela assembleia presidente da igreja mundial. Ele foi apresentado pelo secretário-executivo da Associação Geral e amigo, pastor G. T. Ng, que mencionou detalhes interessantes sobre sua trajetória e família. Entre esses detalhes, está o de que o pastor Ted tem três filhos e nove netos.

A mensagem teve como título “Cruze o Jordão… Não Recue!”, na qual Wilson enfatizou e deu mais detalhes de seu segundo quinquênio na presidência da igreja mundial. Fez uma analogia entre o povo de Israel que deveria atravessar o rio Jordão e o destino escatológico do povo de Deus nos últimos dias. No sermão, reafirmou que a Igreja Adventista é um movimento do povo remanescente de Apocalipse 12:17, em preparação para a volta de Jesus.

O pastor Wilson fez vários apelos e deu recados diretos para que a igreja mantenha sua identidade bíblica, seu foco missionário e tenha cuidado com tendências que ameaçam sua integridade. Entre eles, se destacam: “Apelo a toda a igreja mundial que manifeste o mesmo respeito e amor por este livro (a Bíblia) e pelo Espírito de Profecia. (…) A Bíblia deve ser entendida como se lê: o mundo foi criado recentemente, em seis dias. (…) Tome tempo para ler e orar pelo planejamento estratégico da Igreja Mundial. (…) Cave fundo, estude a Palavra! Não aceite pregações que afirmam apenas o nome de Jesus, mas diminuem as doutrinas. (…) O evangelismo não está morto. Está mais vivo do que nunca.”

O culto terminou com o Coral Carlos Gomes cantando Coming Again ao som da orquestra e acompanhado por outras centenas de vozes, num total de 1.100, formando o maior coral já presente em uma reunião da conferência geral, segundo a Adventist Review.  O pastor Erton Köhler, presidente reeleito da Divisão Sul-Americana, proferiu a oração final.

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Milhares de fiéis saem do estádio Alamodome após o culto do último sábado, 11 de julho: um flash da diversidade cultural da igreja. Créditos: Diogo Cavalcanti

Encerramento

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Tradicional “Desfile das Nações” inovou ao contar a história da chegada do adventismo nas várias partes do mundo. Créditos: Diogo Cavalcanti

O programa da noite encerrou as reuniões da Conferência Geral, com o famoso “Desfile das Nações”. Dois apresentadores interagiam para falar sobre as missões mundiais, intercalando textos lidos com um vídeo que expôs uma cronologia da missão adventista, dividida em cinco fases: nascimento das missões (1863-1873), missões às nações protestantes (1874-1889), missão ao mundo (1890-1945), missão intencional (1946-1965) e missão aos não alcançados (1986-).  Após o vídeo introdutório de cada fase das missões, os dois apresentadores anunciavam país por país, de acordo com o ano em que a mensagem adventista os alcançou, e então entrava um casal com roupas típicas e sua bandeira nacional.

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Pastor Ted Wilson, acompanhado de sua família: “Pela graça de Deus, vamos fazer planos para nos encontrar no Céu”. Foto: Diogo Cavalcanti

A reunião terminou com todas as nações representadas à frente, com o pastor Ted Wilson ao centro, junto com a esposa, filhos e netos. A reafirmação do espírito de unidade sentido no encerramento das reuniões e o foco na missão da igreja é o grande legado desta assembleia mundial, em que os desafios internos e externos da igreja foram reconhecidos e tratados com espírito de oração.

Com a proposta de ênfase no fortalecimento da devoção individual, no estudo dos livros de Ellen White e forte ênfase na missão, os próximos anos prometem. Nos momentos de despedida, o pastor Wilson anunciou que o próximo encontro da igreja mundial será no Circle City, em Indianápolis, marcado para 2020. Ou, quem sabe, na Nova Jerusalém. [Diogo Cavalcanti, equipe RA]

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Um dia que entrou para a história da igreja

Por uma diferença de 404 votos (1.381 a 977, ou 58,4% a 41,3%), Igreja Adventista decide não ordenar mulheres ao ministério pastoral

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A expectativa em relação às decisões da assembleia mundial da Igreja Adventista nesta quarta, 8 de julho, estava no ar. Que a agenda era um dos pontos altos da assembleia, ninguém duvidava. Afinal, o tema da ordenação de mulheres ao ministério prometia ser um divisor entre o passado e o futuro da igreja.

Alguns diferenciais puderam ser notados desde o início: a liderança reservou um dia inteiro para tratar do assunto; foram escalados alguns dos líderes mais experientes para coordenar as atividades; o auditório estava bem mais cheio do que de costume; e a promessa era contabilizar o “sim” e o “não”, pelo voto secreto, no fim da tarde.

O pastor Mark Finley, respeitado evangelista, liderou os momentos iniciais de oração. Destacou que somos apaixonados a respeito de muitas coisas, mas devemos manter o espírito de amor e a união em Cristo.

A música instrumental “Quão Grande És Tu”, apresentada pela banda Ensamble de Metales, da Universidade de Montemorelos, no México, deu um tom solene ao evento, sugerindo que o Deus transcendente está acima dos debates humanos.

No devocional que tradicionalmente marca o início das atividades de cada dia da assembleia, Alain Coralie, da Divisão Centro-Leste Africana, apresentou uma vibrante mensagem intitulada “Through Trials to Triumph”, certamente uma das melhores do evento.

Com base em Josué 4, ele retratou o povo de Israel jornadeando pelo deserto durante 40 anos, rumo à terra prometida. A travessia do Jordão exigia um milagre divino, mas também a preparação do povo, que deveria dar um passo de fé.

Então, destacando a importância de se manter o olhar na história, ele fez uma ponte para o adventismo e acrescentou: “Se não soubermos por que chegamos aqui, não saberemos como chegar lá.” Segundo Alain, Deus tem sido bom para nós como denominação e como indivíduos. Se não fosse assim, não estaríamos aqui.

“A igreja não deve esquecer sua história, mas não pode ficar presa ao passado”, acrescentou. Por definição, os adventistas olham para o futuro. Enquanto não devemos esquecer os sofrimentos e as conquistas dos pioneiros, nós mesmos fomos chamados para ser pioneiros, ele completou.

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Na sequência, depois de mais oração, Michael Ryan, vice-presidente da denominação que está se aposentando, assumiu o comando dos trabalhos. Se alguns têm um estilo suave de presidir, como Ella Simmons, que atuou no dia anterior, Ryan é conhecido por sua firmeza. Considerando a pauta difícil, ficou claro que ele não foi escolhido por acaso.

Ryan começou observando que em um grupo grande como o da igreja há muitas ideias diferentes, e todos deveriam ser respeitosos em seus comentários. E que o mesmo espírito revelado em um encontro da igreja mundial em 2014 deveria ser manifestado. Para ele, o objetivo era ter o maior número possível de pessoas expressando sua opinião nos microfones.

Documentos

Antes de prosseguir, Ryan chamou o pastor Ted Wilson, presidente reeleito da igreja, para apresentar um histórico dos estudos sobre a ordenação de mulheres. Wilson relatou que, desde a década de 1970, a igreja vem debatendo o assunto.

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O presidente expressou seu desejo de ver um debate aberto e honesto. E pediu para que ninguém tentasse encerrar a discussão com uma moção (proposta), um dos recursos utilizados pelo plenário em outros momentos. Cada um deveria votar de acordo com a sua consciência, orientada pelo estudo do assunto e guiada pelo Espírito Santo. Novamente, foi ressaltado que, apesar das fortes convicções, o espírito de cortesia devia prevalecer.

Reconhecendo a gravidade da decisão diante do grupo, Ryan pediu para que se formassem grupos de dois ou três a fim de dedicar alguns momentos à oração, clamando pela orientação divina e um bom espírito. Foram vários momentos de oração. Em geral, os participantes desse tipo de debate são pessoas bem preparadas, com opiniões fortes, e pode ser grande a tentação de transformar o fórum do diálogo em um cenário de guerra.

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Artur Stele, presidente da última comissão teológica de estudo da ordenação (TOSC, na sigla em inglês), teve a oportunidade de explicar o processo de investigação do tema. “Qualquer coisa que façamos, vamos fazer com o objetivo de cumprir a missão”, sugeriu.

Ele relembrou que os documentos foram disponibilizados online (para acessá-los, clique aqui) para que cada um pudesse estudá-los e tomar uma decisão consciente. A palavra final agora estava com os representantes da igreja, mas cabia à família adventista manter o espírito de unidade: “Numa família, não há vencedores e perdedores. Ou todos ganham ou todos perdem.”

Para tornar o debate mais didático, Karen Porter, secretária da comissão teológica, leu as três posições e a declaração de consenso (leia aqui).

A questão que deveria ser respondida foi: “É aceitável que a comissão executiva de cada divisão, caso considere apropriado em seu território, implemente os dispositivos necessários para a ordenação das mulheres ao ministério? Sim ou não?”

Debate

Às 11h10, Ryan novamente pediu um momento de oração. O clima no auditório, diferentemente do início da assembleia, marcado por certa polarização entre a América do Norte e o chamado Sul Global, era de calma e paz.

Por fim, após o secretário da Associação Geral ler o documento “Teologia e a prática da ordenação ministerial”, os delegados estavam prontos para expressar suas opiniões, alternando-se vozes em favor do “sim” e do “não”.

Dezenas de delegados de ambos os lados registraram-se para expressar seus pontos de vista. A tela mostrava a imagem e a identificação da pessoa, bem como se estava defendendo o “sim” ou o “não”. Enquanto isso, um grupo de membros da igreja intercedia na sala de oração.

Por exemplo, John Brunt, pastor de uma grande igreja na Califórnia, utilizou seus dois minutos para argumentar em favor da justiça da causa da ordenação. Exemplificou que em seu staff há vários pastores e quatro pastoras, que batizam mais do que todos os ministros.

Carlos Steger, reitor do seminário adventista da Argentina, e Frank Hasel, professor de teologia na Europa, defenderam o “não” em nome da unidade da igreja.

Por sua vez, Lawrence Geraty, ex-presidente da Universidade de La Sierra, destacou a necessidade de missionários na América do Norte.

A sessão da manhã terminou ao meio-dia com cerca de 80 pessoas nas filas para falar. O intervalo para o almoço trouxe ainda mais energia para o reinício do debate, às 14h.

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Entre outros defensores do “não”, o Dr. Mario Veloso, que atuou em várias áreas da igreja, disse que desde 1973 ele tem feito parte das comissões que tratam do assunto, e os argumentos, textos bíblicos e citações dos escritos de Ellen White são sempre os mesmos.

Lowell Cooper, vice-presidente da igreja que está se aposentando, evocou vários pontos, como a teologia dos dons espirituais, para defender que a ordenação seria a expressão da necessidade da igreja em diferentes circunstâncias.

Já Colleen Zimbeva, da Divisão Sul-Africana Oceano Índico, sugeriu que as mulheres podem trabalhar sem a ordenação.

David Poloche, da Divisão Interamericana, mencionou o tempo dos juízes, em que cada um fazia o que achava correto. “Não vivemos mais nessa época”, disse. “Por 30 anos, a igreja tem estudado o assunto e ainda não encontrou razões bíblicas para ordenar.” Para ele, se cada divisão fizer o que considera correto, isso não seria unidade.

Às 15h15, conforme previsto, Ryan convidou o pastor Jan Paulsen, ex-presidente da Associação Geral, para fazer um comentário. Paulsen fez um apelo apaixonado em favor do “sim”, argumentando que o “não” poderia causar um sério dano à unidade da igreja. Assim como os membros da África e da América do Sul confiam em seus líderes, ele ponderou, os delegados deviam confiar que os líderes de outras regiões sabem o que é melhor para a igreja em seu território. A fala causou certo desconforto.

Entretanto, o debate continuou. Samuel Larmie, da Divisão Centro-Oeste Africana, partidário do “não”, argumentou que a verdade é uma e a igreja é uma. O que não é bom para uma parte do mundo não é bom para outra parte.

Charles Sandefur, da Associação Geral, defendendo o “sim”, disse que no concílio de Jerusalém, sem equipamentos e grandes comissões de estudo, mas guiados pelo Espírito Santo, os primeiros cristãos se reuniram e em um dia resolveram a questão da circuncisão, liberando os gentios da prática.

Segundo a contagem dos jornalistas da Adventist Review, 40 delegados – 20 a favor e 20 contra – conseguiram expressar sua posição nos microfones. E a discussão foi interrompida 35 vezes por delegados que desejavam fazer alguma objeção sobre determinado aspecto do procedimento.

Às 16h15, o pastor Ted Wilson, num pronunciamento pré-agendado, disse que todos sabiam sua posição (“não”), que ele considera bíblica, e fez um apelo em favor da unidade.

Votação

Finalmente, o horário de encerramento do debate, marcado para as 16h30, estava chegando. Alguns pediram mais tempo, mas o dirigente da reunião não concedeu, pois isso não estava previsto no regulamento.

votacao-ordenacao-de-mulheres-assembleia-mundial-8Feitos os preparativos, os delegados foram instruídos a retirar a cédula de votação, registrando sua presença pela leitura do código de barras do crachá e depositando em seguida o voto numa das urnas. Os anos de estudos e debates agora se resumiriam a “sim” ou “não” (escritos em cinco línguas na cédula), de acordo com o entendimento e a consciência de cada um.

Segundo o secretário associado Myron Iseminger, o sistema de voto secreto foi preparado com antecedência, caso o equipamento eletrônico não funcionasse como esperado. E, de fato, não funcionou.

info-votacao-ordenacao-mulheresAo som de hinos antigos, a contagem dos votos, mais uma vez, deixou a igreja na posição em que estava. Dos 2.363 delegados presentes, 977 (41,3%) votaram “sim” e 1.381 (58,4%) votaram “não”, além de cinco abstenções, o que encerrou, espera-se, cinco anos de debates vigorosos e, às vezes, acalorados sobre um tema polêmico, em que pastores e teólogos respeitados se posicionam de ambos os lados.

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Essa decisão não significa que as mulheres não vão ocupar posições de destaque na igreja, pois desde o início de sua história isso tem ocorrido, a começar por Ellen White.

O pastor Ted Wilson fez novo apelo por unidade e foco total na missão, orando pela cura e a unidade que vêm “pelo poder do Espírito Santo”. A audiência cantou o hino “Oh! Que Esperança”, e assim mais um capítulo da epopeia da (não) ordenação de mulheres chegou ao fim. “Agora é o momento de unificar [a igreja] sob a bandeira ensanguentada de Jesus Cristo e seu poder”, ele disse para um Alamodome ainda lotado.

Alguém pode achar que tudo isso representou muito esforço para um resultado (in)esperado. Contudo, é assim que a igreja trabalha. Tomar uma decisão rapidamente poderia ser mais fácil, mas o resultado talvez se mostrasse menos duradouro. Em suas idas e vindas, argumentos e contra-argumentos, o povo de Deus prossegue em sua trajetória. No mínimo, o processo serviu de base para uma decisão consciente, além de ser um exercício didático de como “fazer” igreja. Michael Ryan confessou sua satisfação pelo “espírito dócil” e o decoro demonstrados na reunião.

O sentimento de alguns líderes é que não houve vencedores e perdedores, pois, se a decisão for encarada como disputa, então todos serão perdedores. “Naturalmente, os membros da nossa divisão estão desapontados com o resultado, mas estamos comprometidos com a missão da igreja mundial”, comentou o pastor Daniel Jackson, presidente da Divisão Norte-Americana. Para Mark Finley, agora é preciso deixar para trás a discussão sobre ordenação e alcançar o mundo perdido. Porque, afinal, Cristo é o “sim” de Deus (2Co 1:20) para todos.

Marcos De Benedicto é editor da Revista Adventista


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Celebrando a missão

Assembleia é marcada por sermões e testemunhos sobre a razão de ser da igreja

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Em grande parte, foi o amor pela missão que nos tornou quem somos, uma igreja global e unida. Essa mesma paixão é nossa razão de ser e nossa segurança para o futuro. Num dos dias mais festivos da cultura norte-americana, 4 de julho, Dia da Independência, as delegações festejaram a missão no primeiro sábado da assembleia mundial. Começando por um devocional sobre cristianismo prático, passando pela primeira lição do trimestre que tem como tema os missionários da Bíblia, até os primeiros relatórios das divisões, os olhares se voltaram para a missão.

pastor mark finley na assembleiaA celebração da missão já havia começado na sexta-feira à noite, com o pastor Mark Finley. Em sua mensagem “Por que evangelismo?” analisou a necessidade de a igreja manter acesa a chama da missão, refletindo sobre o interesse de Deus pelo mundo. Falou sobre a vontade divina de que “todos cheguem ao arrependimento e ao pleno conhecimento da verdade” (1Tm 2:4). Ele não quer que ninguém pereça (2Pe 3:9). “Você se preocupa com sua salvação?”, Finley perguntou ao auditório. Reafirmou em seguida que “Deus está muito mais interessado em nossa salvação do que nós mesmos”. Ele também se interessa pelos que estão longe do Pai, pois também os ama e quer salvá-los por nosso intermédio. Não podemos ficar indiferentes, não podemos nos acomodar, insistia o pastor Finley.

Numa sequência de frases eletrizantes e cheias de apelo, Finley abriu seu coração para a igreja mundial reunida ali. Falou de seu pai. “Nos últimos anos passei por momentos muito difíceis na família. Perdi meus pais. Quando fazia minhas séries evangelísticas pelo mundo, sempre ligava para meu pai e dizia: ‘Pai, estou em Copenhague, pai, estou em Tóquio, pai, estou em Moscou. E sempre meu pai me respondia: ‘Estou orando por você, filho’. Meu pai tinha um amor tão desinteressado que se esquecia de si mesmo e orava por mim. É possível que, mesmo ao fechar os olhos na morte, seu último pensamento tenha se concentrado no filho.” Então, afirmou que, se seu pai o amava assim, Deus nos ama muito mais. “Somos compelidos pela graça de Cristo. Não podemos ficar em igrejas confortáveis, não podemos nos entreter uns aos outros. Temos que agir pela salvação das pessoas ao nosso redor.”

Embora sentíssemos sua dor ao falar da perda de seus pais, foi o amor à igreja que fez seus sentimentos virem à tona. Com voz embargada e olhos marejados, fez um tocante apelo à assembleia da igreja mundial para que se unisse pela missão e para a missão. A ideia é que precisamos de unidade para termos missão e, sem o foco na missão, perdemos a unidade.

Transformação e ação

As demais mensagens e encontros só falaram de ação. No devocional de abertura, Sikhu Hlatshwayo, natural do Zimbábue e residente nos Estados Unidos há dez anos, falou sobre a importância de não nos contentarmos com um conhecimento teórico. “Não basta saber que, na Bíblia, o casamento é uma união por toda a vida, sem saber se a Palavra ensina a ter um casamento feliz.” “No evangelismo”, Sikhu disse, “podemos nos distrair com a busca por melhores métodos, enquanto Deus está buscando pessoas melhores.” Mais à frente, comentou: “Não estamos esperando a segunda vinda, mas Jesus”. O foco não está no pensamento abstrato, mas num relacionamento verdadeiro com Deus. Seu apelo foi: descubra como seu conhecimento pode mudar quem você é.

Na Escola Sabatina, dirigida por três apresentadores, com a participação ocasional de professores e crianças, acompanhados de testemunhos em vídeos, discutiu-se o significado e a importância dos missionários – algo mais do que oportuno. O pastor Ted Wilson fez um apelo ao fortalecimento da frequência à Escola Sabatina, dizendo que “quando adultos não vão para a Escola Sabatina, os filhos também não vão. Ele conclamou os líderes de todos os níveis da igreja a reavivar esse ministério”.

Larry Evans apela para que se dê mais atenção à comunidade surda.

Larry Evans apela para que se dê mais atenção à comunidade surda.

O pastor Larry R. Evans, coordenador do Ministério Internacional aos Surdos, falou do trabalho por esse grupo específico, que representa aproximadamente 70 milhões de pessoas ao redor do mundo. Evans contou a história de uma surda que lhe confidenciou em lágrimas que, pessoas de outras denominações haviam dito para ela que os surdos são pessoas endemoniadas cujos espíritos malignos precisam ser expelidos. Ela ficou feliz quando o pastor Evans pregou para ela e outros surdos, que eles que tinham sido criados à imagem de Deus. Aquela mensagem inclusiva trouxe alegria para o coração dela: “Não sou a minha deficiência, tenho uma identidade pessoal, também tenho dons!”

Outro belo testemunho foi sobre o pastor Norman Ferris e sua esposa Ruby, que serviram como missionários nos anos 1940, nas Ilhas Salomão. Entre muitas de suas histórias de amor altruísta, certa vez, Ruby se deparou com duas crianças com malária. Então, as carregou por 10 km para que recebessem atendimento médico. De volta à ilha, décadas depois, em 1999, encontrou uma igreja estabelecida com mais de 1.800 adventistas em dezenas de igrejas.

Também foi relatado o tocante ministério aos leprosos na ilha chinesa de Dongguan, uma colônia de vítimas de hanseníase. Voluntários como a brasileira Sabrina Quadros, vão à ilha para limpar ferimentos e cuidar dos moradores, muitos deles abandonados pela família.

Sem perder o foco

Foi então que o sermão do secretário reeleito da Associação Geral, o cingapuriano G.T. Ng, trouxe uma reflexão sobre a relação entre identidade e missão. “Pensem como grupo, como igreja. Quem vocês são?” – perguntou Ng. Ele pregou que a identidade da igreja só pode ser definida a partir da identidade de Deus. A partir de então, fez um estudo de Daniel 10, em paralelo com Apocalipse 10, 12 e 14, capítulos em que encontrou a identidade da igreja, seu passado e sua mensagem, e concluiu: ”Quero fazer um apelo especial a todos nós. O tempo em que vivemos é um tempo extraordinário. Não temos muitos anos, possivelmente. Um amigo disse outro dia: ‘Se você nunca foi a uma assembleia mundial não deixe de ir a essa, pois não sabemos se será a última’. O mundo está ecologicamente, politicamente e socialmente falido. Não há esperança. Estamos em tempo emprestado”, avaliou.

“Nesta manhã, Deus está nos chamando a um compromisso maior com a missão”, apelou Ng. Sou responsável por mim e por minha esposa, para revolucionar nossas vidas. Precisamos orar pelas pessoas que estão nos blocos religiosos que não conhecemos. Você está disposto a dedicar uma parte importante de suas economias para ajudar a missão, para enviar missionários? Logo não teremos oportunidade de fazer isso, pois o dinheiro desaparecerá. Temos que nos entregar à missão”, enfatizou. Ele também expôs sua preocupação de que “ao discutir coisas que não são importantes, podemos perder de vista a missão da igreja”.

Novidades

Nas reuniões da tarde, com foco na missão, foram apresentadas as novidades nas missões mundiais, destacando ações e centros de influência nas áreas urbanas. Nos prédios de Manila, capital das Filipinas, existem quiosques onde são feitas avaliações de saúde; em Copenhague, capital da Dinamarca, existe uma loja de produtos de segunda mão que funciona como um centro de influência. Berit Elkjaher, uma das líderes do centro, diz que o projeto uniu a igreja, com pessoas de todas as idades, e foi além, atraindo voluntários da comunidade: “Um terço dos voluntários não é adventista. Eles vêm e perguntam se podem ajudar. Ficamos amigos de muitas pessoas e fazemos um trabalho que o pastor não poderia fazer, devido a suas ocupações.”

Outro projeto simples e inovador, o The Sabbath Sofa (“O Sofá do Sábado”), iniciado em Londres, dá a oportunidade de se falar sobre o sábado. Jovens colocam um grande e confortável sofá branco numa passagem de pedestres, com a placa: “Está cansado? Sente-se.” Ao se sentarem, um jovem num estilo cool as cumprimenta e pergunta: “Do que você está cansado(a)?”, e as pessoas abrem seu coração. O jovem então comenta: “Vamos supor que se você pudesse tomar 24 horas de sua vida, do por do sol de sexta ao por do sol de sábado, como seria a sua vida? Vários respondem naturalmente: “Seria incrível!” A partir de então, inicia-se um contato que pode levar pessoas a conhecer a mensagem do descanso sabático. O projeto tem forte presença na internet, especialmente, nas redes sociais e foi realizado na cidade de San Antonio, durante a assembleia mundial.

Há também mensageiros no mundo islâmico. Em países onde é proibido e criminalizado o ato de falar de Cristo ou ler a Bíblia, jovens têm sido encorajados a partir para esses países a fim de estudarem ali. Eles vão para universidades e fazem amizade com os colegas. Quando surge uma oportunidade de compartilhar sua fé, o fazem, como os antigos valdenses faziam. Perguntada sobre qual era sua maior prioridade na faculdade (os estudos ou a missão), uma jovem não identificada por motivo de segurança, disse que sua prioridade era ser missionária. O interlocutor, então, lhe disse, sorrindo: “Então você é como uma agente secreta?”

Histórias fecharam a programação, entre elas, a de um pastor chinês que escreveu sua própria Bíblia por memória, na prisão, e a de um jovem piloto de avião missionário, que assumiu o posto deixado por seu pai, que morreu no cumprimento do dever.

Muitos adventistas hoje demonstram ter o mesmo compromisso pela missão que os pioneiros das missões, mas é preciso que esse espírito contagie ainda mais a igreja global. Missão não é uma tarefa, mera obrigação, mas uma razão de viver, um estilo de vida, que não faz parte da vida cristã, mas é ela própria. Num momento em que as sociedades urbanas em todo o mundo passam por um rápido processo de secularização, a igreja é desafiada a reafirmar sua identidade e cumprir sua missão de todas as formas possíveis. Seu maior tempo e suas melhores energias devem ser canalizadas e dedicadas a isso. Unidos a Cristo e sua missão, estaremos unidos uns aos outros.

Diogo Cavalcanti, enviado especial da Revista Adventista para San Antonio, é pastor, jornalista e editor de livros na CPB

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A igreja diante do espelho

No segundo dia da assembleia mundial que acontece em San Antonio, no Texas (EUA), a igreja faz uma autoanálise

Na sexta-feira, dia 3 de julho, a assembleia de delegados e demais participantes da igreja mundial se voltou para o espelho. Ela olhou para seu corpo, percebeu o quanto ele aumentou nos últimos anos, mas também o quanto ele poderia estar mais saudável. Nos relatórios apresentados por G. T. Ng, secretário da Associação Geral, e David Trim, diretor do departamento de Arquivos, Estatísticas e Pesquisa da Associação Geral, a assembleia de delegados teve a oportunidade de enxergar o adventismo mais globalmente. Identificaram-se tendências que desenham nosso futuro. Na agenda, a apresentação do relatório da Secretaria foi seguido pelas perguntas e final aprovação dos delegados.

Missão nas entrelinhas

assembleia-San-Antonio-2015-02.07-creditos-leonidas-guedes-13Para se afastar da frieza dos números, o pastor G. T. Ng  fez uma apresentação das estatísticas “no contexto da igreja”, segundo destacou. Introduziu o relatório, relembrando William Spicer (1865–1952), que teve uma relação forte com a missão. Após voltar de seu serviço missionário na Inglaterra, ele foi eleito como diretor do Conselho das Missões Estrangeiras, órgão criado em 1889.  Três anos depois, Spicer foi enviado à Índia como o único pastor ordenado numa das regiões mais populosas do planeta. Retornando aos Estados Unidos, foi eleito secretário e, mais tarde, presidente da Associação Geral.

T. Ng descreveu Spicer como um entusiasta da missão. Na Conferência Geral de 1913, já como presidente da sede mundial, Spicer se referiu ao fato de que aquela era a primeira reunião da Igreja Adventista com a presença de delegados de outras partes do mundo. Em discurso visionário, Spicer afirmou: “O que o profeta contemplou em visão na ilha de Patmos vemos com nossos olhos hoje, a última mensagem do evangelho eterno voando para toda terra e nação, trazendo a (colheita) predita num povo que guarda “os mandamentos de Deus e que tem a fé em Jesus” (The General Conference Bulletin, 38a Sessão, 16 de maio de 1913, vol. 7, n. 1).

Na época de Spicer, o crescimento e a internacionalização do adventismo já era um processo irreversível. Nesse período, a América do Norte contava com 50 mil membros, segundo Ng; hoje a denominação-movimento conta com 18,5 milhões de membros. Se alguns países e continentes foram representados na Assembleia de 1913, neste ano, representantes de 168 países se encontraram no Alamodome.

O pastor Ng destacou que o ano de 2014 estabeleceu um marco no crescimento numérico da igreja. Nele, acresceram à igreja mais de 1,16 milhão de membros, considerando-se que, no início do último quinquênio (2010), a igreja tinha cerca de 16,9 milhões de membros. Nos últimos 10 anos, a igreja recebeu 6,6 milhões de membros. Para completar o quadro, a denominação contava, em 2014, com 78.810 igrejas e 69.213 grupos. Somente em 2014, foram organizadas 2.446 igrejas, o que representa uma média de 6,7 igrejas fundadas por dia, ou uma igreja sendo plantada a cada 3 horas e 58 minutos.

O ano de 2014, segundo Ng, foi o maior em número de batismos, de congregações plantadas, o 10° ano consecutivo em que foi registrado um acréscimo de mais de um milhão de fiéis e o 12° ano consecutivo em que mais de 2 mil igrejas foram estabelecidas.

Norte e Sul

Porém, o quadro mais revelador da Igreja Adventista está em sua representatividade socioeconômica, que tem profundas implicações. Considerando-se a classificação Norte-Sul global, que separa os países desenvolvidos dos países pobres ou em desenvolvimento, é importante localizar a presença da maior parte dos membros da igreja. A resposta, segundo G. T. Ng, é que esmagadores 92% estão no Sul global, anúncio que foi seguido por uma salva de palmas no auditório. O que impressiona nesse número não é que o Sul global seja a grande maioria na igreja, mas que ele já é a maioria absoluta.

Se a Igreja Adventista fosse uma vila de 100 pessoas, em 1960, ela seria composta por 27 pessoas da América do Norte, 20 da América Latina, 19 da África, 16 da Europa, 14 da Ásia e 4 da Oceania, de acordo com Ng. Em 2014, a vila tem outra configuração: 38 pessoas da África, 32 da América Latina, 19 da Ásia, 7 da América do Norte, 2 da Europa e 2 da Oceania. A implicação direta dessa diferença representativa indica uma forte tendência de que os irmãos africanos e latino-americanos tenham uma participação cada vez maior na determinação dos rumos da igreja. Esse fenômeno já é perceptível, basta observar quantos africanos têm se dirigido ao microfone nas reuniões administrativas (business sessions). O mesmo se percebe na presença de oficiais do Sul socioeconômico na liderança da igreja mundial.

Se a Igreja Adventista fosse uma vila, essa seria a proporção de membros por região do mundo.

Se a Igreja Adventista fosse uma vila, essa seria a proporção de membros por região do mundo.

O quadro objetivo nos faz refletir sobre elementos subjetivos. A igreja do mundo desenvolvido mostra tendências mais inovadoras, progressistas, enquanto a igreja do Sul se mostra mais apegada aos “marcos antigos” (Pv 22:8), mais conservadora? Seria isso apenas uma diferença cultural? Essa diferença precisa implicar uma polarização, uma contraposição? Será que o adventismo do mundo desenvolvido se conformaria com as resoluções aprovadas pelos adventistas do mundo em desenvolvimento? Será que desenvolvimento cultural e material é sinônimo de desenvolvimento espiritual-eclesiástico? Será que a própria Bíblia foi culturalmente condicionada?

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A igreja está presente em 215 países dos 237 reconhecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Essas são questões sobre as quais a igreja tem refletido. Por isso, a tônica desta assembleia mundial é a unidade num sentido mais abrangente – não apenas uma unidade oficial, mas a unidade de fé e de práticas, a unidade no Espírito Santo e no amor de Deus. Delegados de todas as partes do mundo demonstram uma preocupação com essa questão. Mark Finley, em seu sermão feito na noite de sexta-feira, apelou com lágrimas e voz embargada, mas com muita energia, que a igreja esteja unida em missão. Finley lembrou que os discípulos “eram diferentes, mas Deus os uniu”.

Perdas dolorosas

T. Ng alegrou a delegação mundial com sua apresentação criativa e espirituosa das estatísticas da igreja, mas não deixou de mencionar o número que sempre nos entristece: o dos que deixaram a Igreja. Então, foi projetada no telão a imagem de um balde cheio de água, mas que estava cheio de furos, representando a “síndrome do balde que vaza” (The Leaky Bucket Syndrome). Para se ter uma ideia, entre 2010 e 2014, houve uma perda de 60% dos membros na igreja mundial; enquanto que, de 2000 a 2014, a perda foi de 48%. Após algumas palavras de reflexão e encorajamento, o secretário executivo concluiu sua fala apelando à igreja para que algo seja feito para confrontar essa realidade.

Foi inevitável que o sabor doce dos números do crescimento da igreja tenha, em parte, se tornado amargo pelas notícias sobre os milhões que deixaram a denominação nos últimos anos. Momentos mais tarde, filas de delegados se formariam diante dos microfones para expor dúvidas, preocupações e sugestões sobre as perdas na igreja. A mais significativa delas, de que o crescimento está diminuindo com o passar dos anos. Hoje a igreja cresce cerca de 1,8% ao ano, menos da metade do crescimento verificado anos atrás.

O relatório de G. T. Ng foi oportunamente complementado por David Trim. Ele destacou que, no último quinquênio, a igreja mundial realizou uma série de auditorias minuciosas da contagem de membros, constatando que, “em muitos casos, o número de membros foi superestimado”. Segundo ele, os processos de auditoria da igreja são essenciais, acima de tudo, por uma questão moral, de apego à veracidade dos fatos.

Uma evidência da necessidade de ajustes na Secretaria está no número de mortes entre os adventistas, segundo Trim. Enquanto estudos indicam que a média mundial de mortes entre os adventistas é de 3,39 para cada mil membros (contra 8,55 entre não adventistas), os relatórios indicam que a  Secretaria felizmente tem se tornado cada vez mais precisa no controle do número de membros (de uma mortalidade de 2,67/1.000, passou para um número mais realista de 3/1.000). Um dos fatores para essa precisão, segundo Trim, foi a adoção, em 2012, do software da Secretaria da Igreja, o qual tinha sido desenvolvido e aplicado na Divisão Sul-Americana.

Os processos eletrônicos permitem um registro e uma atualização mais fidedigna do número de membros da igreja. “Estatísticas acuradas não são um fim em si mesmo. Elas devem servir para a missão”, afirma Trim. Registros fidedignos permitem saber que ovelhas estão dentro e fora do aprisco e desenvolver projetos para ir em busca delas.

Na tarde da sexta-feira, a igreja analisou suas finanças apresentadas pelo tesoureiro da Associação Geral, Robert Lemon, e as aprovou. Lemon ressaltou que, à medida que a igreja se fortalece em várias partes do mundo, os recursos da Associação Geral vão priorizar os países da missão global, da chamada janela 10/40. Esta talvez seja mais uma evidência da nova realidade da Igreja no Sul global: ela está mais forte e menos dependente, mesmo no aspecto financeiro.

Como um organismo, a igreja está em transformação. Isso, por um lado, nos preocupa, mas, por outro, nos anima. A unidade na diversidade não deve ser apenas uma frase bonita, mas um exercício constante em todos os níveis da igreja. Os paradoxos devem servir como estímulo à cooperação e ao crescimento espiritual de todos, individualmente, e da igreja como corpo de Cristo. Essa tem sido a principal mensagem da assembleia de San Antonio. [Diogo Cavalcanti, equipe RA]


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Os próximos cinco anos

A escolha de Ted Wilson reflete a tendência conservadora da maior parte da igreja mundial

Na reunião de trabalho de sexta-feira, dia 3 de julho, a única do dia, por ser véspera do sábado, foram aprovados seis itens da agenda: a limitação do número de delegados aos que já estavam próximos aos microfones; o relatório da secretaria, apresentado por G. T. Ng (leia o texto “A igreja diante do espelho” aqui) e a não utilização de votos secretos para a eleição de oficiais apontados pela Comissão de Nomeações, pois os dispositivos eletrônicos de votação não funcionaram como se esperava. As áreas de algumas Divisões sofriam com a falha, possivelmente por interferência do sinal de wi-fi do ginásio Alamodome. Além disso, alguns delegados pareciam não utilizá-lo adequadamente. Havia diferença até entre o número de aparelhos e o de votantes exposto na tela.

chamada-home-Primeiro-dia-da-assembleia-mundial-é-marcado-pela-busca-da-unidadeO último item foi um dos mais importantes, a aprovação do nome indicado pela Comissão de Nomeações para a presidência da Associação Geral, Ted N. C. Wilson. Aliás, quando Ted foi nomeado, Nancy, a esposa, foi encontrada na sala de oração da assembleia. Nos plenários, após 37 minutos de discussões, procedeu-se à votação. O presidente reeleito teve o apoio de 90% dos delegados. Após isso, o pastor Ted Wilson e a esposa Nancy se apresentaram na plataforma, sendo aplaudidos em pé pelos delegados e pela multidão nas arquibancadas.

O pastor Ted Wilson se dirigiu ao público reunido, com as seguintes palavras: “É com um respeito muito acatado e com humildade que nós dois estamos diante de vocês, diante de Deus, e aceitamos essa responsabilidade.” Em seguida, apresentou a tônica de sua nova gestão: (1) ênfase maior em Cristo e sua justiça; (2) ênfase na fidelidade dos membros; (3) o envolvimento de cada membro da igreja na missão. Na coletiva de imprensa, concedida pouco depois, afirmou que sua maior prioridade seria a terceira.

Em entrevista à Adventist Review, Nancy afirmou: “Sinto o mesmo que naquele dia há cinco anos. (…) Estou contente porque temos o Senhor para nos apoiar. É seu poder, sua força, sua igreja.” O pastor Ted Wilson compartilhou: “É um convite extremamente desafiador, para o qual ninguém se sente preparado. Ninguém pode exercer essa função a não ser pela condução direta e guia do Senhor.”

A ênfase de Wilson na humildade e na dependência de Deus não é exagerada nem apenas gentil. Diante dos enormes desafios ao cumprimento da missão da igreja e à perda de membros, assim como as dificuldades tanto internas quanto externas, o presidente mundial da Igreja Adventista precisará mais do que nunca da sabedoria do alto. A igreja votou pela continuidade, pelos valores mais tradicionais do adventismo e em rejeição às tendências progressistas e às pressões sociais que afetam todo o mundo religioso, incluindo a igreja reunida em San Antonio.

Diogo Cavalcanti é pastor, jornalista e editor de livros na CPB. Ele é o enviado especial da Revista Adventista para a assembleia mundial em San Antonio

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Hora de trabalhar

Confira os primeiros votos dos delegados reunidos em San Antonio e entenda os procedimentos da assembleia mundial

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Às 9h21 da quinta-feira, 2 de julho, teve início a principal atividade da assembleia mundial: as reuniões de trabalho (business sessions), em que os itens levados em pauta deveriam ser discutidos e votados. O processo deve ser democrático, ordenado e parlamentar, conduzido por um presidente (chairman), um vice-presidente da Associação Geral (AG), acompanhado por um secretário(a), um assistente registrador e analisado e votado pelos delegados presentes. É importante notar que, embora a sede mundial da igreja tenha liberdade parar executar seus planos e atividades, sua autoridade está ligada à aprovação da assembleia dos delegados, a qual a Associação Geral presta contas a cada cinco anos.

Neste boletim e nos seguintes, vamos sumarizar os principais votos tomados pela assembleia mundial da igreja, reunida desta vez em San Antonio, Texas. Tomamos como fonte os registros oficiais, cuja transcrição foi publicada em números diários, num trabalho primoroso da equipe da Adventist Review. Todas as falas foram digitadas e registradas, incluindo-se as orações! Os registros são feitos por assistentes da Associação Geral, mas a publicação diária os inclui em cada edição, que é distribuída gratuitamente aos delegados e vendida ao público em geral (Esses registros estão disponíveis em inglês aqui).

O primeiro voto foi o registro da leitura da declaração de missão da igreja, feita por G. T. Ng. No segundo voto foi estabelecida a adoção do programa diário e da agenda assim como se encontrava nos materiais de divulgação impressos e na internet. Então, passou-se à votação dos membros da comissão diretiva (steering committee), que teve como presidente o pastor Ted Wilson e, como secretário, Myron Iseminger, acrescida de 44 membros, oficiais da sede mundial, os presidentes das Divisões (sedes continentais), mais dois convidados, o brasileiro Williams Costa Jr. e William (Bill) M. Knott.

Em seguida, votaram-se os membros de duas comissões especiais, a do Manual da Igreja, à qual seriam levados questionamentos da assembleia, e a comissão relacionada à Constituição e Estatutos. A Comissão do Manual da Igreja foi presidida pelo então vice-presidente, Armando Miranda, tendo como vice-presidente Geoffrey Mbwana, Harald Wollan como secretário e Tamara Boward, como secretária registradora, além de 43 membros, mesclando oficiais da AG e das Divisões. A comissão de Constituição e Estatutos teve como presidente Ted Wilson, vice-presidente Geoffrey Mbwana, secretário Myron Iseminger e Wendy Trim como secretária registradora, mais 47 membros.

Após isso, um delegado foi ao microfone para solicitar que fosse estabelecido o critério de uma maioria de dois terços para se aprovar certos itens da agenda. Então, depois de algumas deliberações, passou-se à aprovação das “regras de ordem” (que têm que ver com o funcionamento das reuniões), com a seguinte votação: (1) permitir que a “Comissão Diretiva determinasse a melhor forma de lidar com essa preocupação; (2) aprovar as regras de ordem da sessão da Associação Geral de 2015”.

Passou-se, então, à primeira ação administrativa do encontro em San Antonio: a aceitação de 35 novas Uniões no corpo da igreja mundial. “O alto número de Uniões é sem precedentes na história da Igreja Adventista do Sétimo Dia”, afirmou G. T. Ng à Adventist Review. O número superou as sedes incorporadas nas assembleias anteriores: 22 Uniões em 2010 e em 2005. O surgimento das novas Uniões se deve ao crescimento rápido da igreja nos últimos cinco anos, que saltou de 16,3 milhões para 18,5 milhões de membros. Das 35 novas Uniões, 22 estão na África.

A segunda comissão, presidida por Benjamin Schoun, então vice-presidente mundial da igreja, tomou outro voto importante: a aprovação da Comissão de Nomeações da AG. Os nomes foram apresentados nos telões, e houve uma observação, feita pela delegada Gina Brown, quanto à distribuição de gênero e idade. O delegado Júlio Mendez solicitou que se fizesse uma lista que dividisse o número de delegados por gênero e idade. Ray Hartwell, que assistia o presidente, atendeu prontamente, dizendo que já tinha esses dados: 218 dos membros indicados eram homens e 34 eram mulheres. Aqui pode-se abrir um parêntese: a predominância masculina na distribuição de gênero é um reflexo do número de líderes e oficiais do sexo masculino. Quanto à idade, dos membros da Comissão de Nomeações da AG, cinco estão abaixo dos 30 anos; dez entre 30 e 39 anos; 63 entre 40 e 49 anos; 102 entre 50 e 59 anos; 66 na casa dos 60 anos e seis com mais de 70 anos de idade.

Hartwell observou que “não existe nenhuma provisão de constituição ou estatuto que determine qualquer tipo de idade ou gênero quanto à formação da Comissão de Nomeações”. Então, propôs a votação da lista original apresentada. Benjamin Schoun a submeteu à assembleia, que a aprovou por 962 votos a 61, contados pelos dispositivos eletrônicos. Essa Comissão de Nomeações trabalhou nos dias seguintes para decidir a eleição dos líderes da sede mundial, a começar pelo presidente, depois, pelo secretário e pelo tesoureiro e demais oficiais. Os anúncios foram feitos aos poucos, à medida que os nomes foram definidos.

Diogo Cavalcanti é pastor, jornalista e editor de livros na CPB. Ele é o enviado especial da Revista Adventista para a assembleia mundial em San Antonio

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Primeiro dia da assembleia mundial é marcado pela busca da unidade

Filme, orações e testemunhos apontaram nessa direção

A assembleia mundial da Igreja Adventista é um fenômeno único, não só no meio religioso, mas numa consideração mais ampla. Qualquer comparação com reuniões semelhantes se mostra insuficiente para traduzir a grandeza e o sentido desse megaevento. A celebração feita por membros do mundo todo, que até lembra a confraternização universal de uma Olimpíada, ainda é mais do que isso. Por reunir líderes que conduzem a Igreja em mais de 200 países, parece um encontro da ONU, mas vai além.

Ao proporcionar uma oportunidade única para centenas de expositores de organizações, ministérios, empresas e artistas de todo o planeta, também é mais do que isso. Por movimentar uma massa humana capaz de alterar o ritmo de uma grande cidade como San Antonio, o encontro também é mais do que números. A assembleia mundial combina todos esses elementos e muitos outros para formar um evento singular, mundial, que impressiona corações, transforma a igreja e define rumos.

Ao se encontrar periodicamente, o adventismo se descobre cada vez maior. E isso não poderia ser mais válido do que na 60a Assembleia da Associação Geral. Com 18,5 milhões de membros, a Igreja Adventista do Sétimo Dia já é a quinta maior denominação cristã do mundo e desempenha um papel cada vez mais relevante na sociedade, num sentido coletivo e em nível individual. Seus membros têm desempenhado papéis cada vez mais importantes. No momento desta assembleia, por exemplo, Ben Carson é pré-candidato à presidência americana, e a cidade de San Antonio tem uma prefeita adventista, Ivy Taylor.

As bênçãos de um crescimento notório trazem consigo seus desafios. O gigantismo de uma igreja representada pela face de um menino pequeno que dá estudos bíblicos numa comunidade no Amazonas também tem seu rosto refletido numa instituição médica de alcance internacional, ou na jovem que serve como voluntária da ADRA em Myanmar. A igreja é vista debaixo de um flamboyant na savana africana, tanto quanto na areia branca da longínqua Micronésia ou no ambiente climatizado de uma igreja em Chicago. Seu alcance global, sua natureza multifacetada, sua missão todo-abrangente produzem um peso equivalente que a igreja precisa administrar.

Expectativa

Os anos assim como as horas que antecederam a assembleia de 2015 foram marcados pela expectativa, até que o momento finalmente chegou com o amanhecer de 2 de julho. Sob o sol nascente do Texas, delegados e participantes caminhavam para não perder a abertura. Protegidos por barreiras e policiais que guiavam o trânsito nos cruzamentos, os primeiros contatos com o estádio coberto Alamodome, próximo à belíssima Torre das Américas, acrescentavam ainda mais solenidade à caminhada. “Esta já é minha sexta assembleia”, compartilhou o pastor Geovani Queiroz, enquanto dava passos rápidos, e acrescentou: “só sabe o que é uma assembleia mundial quem participou de uma.”

Pontualmente às 8 da manhã, música suave e inspiradora era cantada em sequência, sem apresentações, até que oração e cântico congregacional foram seguidos pela leitura do capítulo 7 de Apocalipse (do projeto Reavivados por Sua Palavra) e pelo primeiro devocional, dirigido pelo pastor Janos Kovacs-Biro. As reuniões de oração e adoração servem especialmente para se buscar reavivamento e reforma espiritual.

Primeiras votações


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Os momentos de reflexão deram lugar à chamada business session (algo como “sessão administrativa”), em que temas foram apresentados aos delegados para votação, num tipo de comissão de igreja. A assembleia de delegados exerce a autoridade máxima da igreja, definindo as questões pelo voto individual. A participação de membros e líderes, numa proporção de 50% cada, resguardam o princípio de igualdade nas votações.

Inicialmente, o próprio ato de votar se tornou um motivo para questionamentos. Com a introdução de aparelhos eletrônicos individuais, alguns delegados questionaram a confiabilidade do novo sistema. As perguntas respeitosas, porém, diretas, foram respondidas pelo presidente da comissão, Lowell Cooper, bem como pelo secretário da sede mundial, o cingapuriano G. T. Ng, que reafirmaram a funcionalidade do sistema, que foi utilizado e aprovado no concílio anual da igreja, realizado em outubro de 2014. A habilidade em lidar com questionamentos sinceros chamou a atenção de Friedbert Hartmann, secretário da sede adventista para o Norte da Alemanha: “temos líderes excelentes. Representam bem a igreja”.

As diversas participações chamaram a atenção para notícias animadoras da igreja mundial. Uma homenagem feita pelo pastor Ted Wilson, presidente da Associação Geral, a Alberto Gulfan, ex-presidente da Divisão do Pacífico Sul-Asiático, que deixou o cargo por motivo de saúde e se aposentou. O pastor Wilson também chamou atenção para os 18 chineses presentes na assembleia, que foram saudados por todos os presentes.

Em seguida, Wilson convidou o pastor Raafat Kamal, líder da igreja na Hungria, para falar da reconciliação ocorrida nesse país (clique aqui para saber mais). Famílias dissidentes se mantinham afastadas da denominação há mais de 40 anos. O fim do cisma na Hungria, que conta com apenas 6 mil membros, foi celebrado após décadas de diálogo, especialmente, nos últimos quatro anos.

Consenso

Mas o ponto alto do primeiro dia da assembleia foi a ênfase na unidade. Após um filme “O que poderia ter sido?” (What Might Have Been – Can Be), que retrata um clima de humildade, perdão e reconciliação na assembleia de 1901, que, na verdade, não passou de uma visão de Ellen White sobre o que poderia ter sido aquela reunião e o impacto que ela teria produzido na igreja e no cumprimento da missão. “Se a igreja de Cristo tivesse feito o trabalho, como o Senhor havia ordenado, o mundo inteiro teria sido alertado, e o Senhor Jesus teria vindo à Terra em poder e grande glória” (Review and Herald, 13 de novembro de 1913).

assembleia-San-Antonio-2015-02.07-creditos-leonidas-guedes-26Após o vídeo de 28 minutos, o pastor Wilson conclamou os delegados a tornarem realidade a visão da mensageira do Senhor, buscando um espírito de perdão, reconciliação e respeito mútuo. O chamado foi seguido por um longo momento de oração em duplas e trios. Isso chamou a atenção de um professor da Universidade Valley View, em Gana. “Não devemos vir às reuniões com ideias preconcebidas e divididas. Como no filme, precisamos orar a Deus por perdão, para que ele tenha misericórdia de nós. Os momentos de oração foram muito bons, e eu orei para que isso perdure em nossa mente.”

O chamado à unidade também foi o ponto alto para o pastor Bruno Raso, vice-presidente da sede sul-americana da igreja: “Gostei do apelo à unidade para uma experiência de reavivamento e reforma, que leva ao batismo do Espírito Santo e a igreja a terminar a obra de Deus”. “A busca do entendimento de opiniões foi o que mais me chamou a atenção”, disse Marlon Lopes, tesoureiro e colega de Raso na sede sul-americana. “Se as pessoas prestarem bem a atenção, vão perceber essa tentativa (da liderança) de manter harmonia e o respeito às diferenças.”

As expectativas quanto às reuniões deste ano são grandes: “independentemente das decisões, desejo que a igreja saia mais forte e mais unida. Tenho confiança de que será assim”, conta o pastor Lopes. Lea Jano, líder associada do Ministério da Família na Missão Guam-Micronésia deseja “continuar a ver a igreja unida e que a voz de Deus seja ouvida”. Por sua vez, o pastor Raso acredita que Deus “vai manifestar seu poder. O que Deus permitir será o melhor para a igreja. E a maior expectativa do coração é que essa seja a última assembleia”, afirma. “Deixemos a Palavra de Deus ser suprema em tudo o que estamos fazendo, mesmo em nossas práticas, assim como em nossas crenças, que a Palavra de Deus nos guie”, completa o professor Robert Osei Bosu.

A tarde do primeiro dia das reuniões da assembleia mundial foi ocupada pelas reuniões das comissões de nomeação das sedes continentais (divisões) e pelo funcionamento dos estandes no prédio anexo ao Alamodome, no centro de San Antonio. O restante da tarde contou com a aprovação dos nomes das comissões de nomeações. À noite, a reunião foi marcada pela adoração, louvor e testemunhos, como de costume nas assembleias, com destaque para o relatório das atividades realizadas pela igreja mundial nos últimos cinco anos sob a administração do pastor Ted Wilson.


Apelo da assembleia da Associação Geral

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No apelo à unidade, feito pelo pastor Ted Wilson, foi lida a seguinte mensagem, projetada nos telões e distribuída aos delegados:

“Nós, oficiais da Associação Geral e das Divisões, apelamos a todos os delegados da assembleia da Associação Geral, assim como os demais participantes a aceitar uns aos outros como irmãos e irmãs em Cristo, a despeito de algumas diferenças de opinião que possam ser evidentes sobre certos temas. Pedimos que busquemos a semelhança a Cristo e um respeito humilde de uns pelos outros em nossas palavras e atividades durante esta assembleia da Associação Geral e depois dela. Pelo poder de Deus, nosso comportamento humilde e atitudes falarão alto àqueles que nos veem. Apelamos intensamente para que façamos tudo ao nosso alcance para fortalecer a igreja – este precioso movimento adventista. Nós nos apoiamos completamente em Cristo pelo espírito unificador que nós necessitamos ao proclamar as três mensagens angélicas nestes últimos dias da história da Terra.” [Diogo Cavalcanti, equipe RA]