Cenáculo moderno

Vinte anos depois, editor da CPB relembra cobertura que fez da assembleia de Utrecht, na Holanda

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Centro de Convenções Jaarbeurs, em Utrecht, na Holanda, onde foi realizada a assembleia mundial da igreja em 1995. Imagem: acervo RA

Em 1995, pela primeira vez, minha esposa e eu tivemos o privilégio de participar, como delegados (eu, também como repórter da Revista Adventista), da 56ª Sessão da Associação Geral, realizada em Utrecht, cidade conhecida como o “coração da Holanda”. Destacado centro comercial e turístico do país, nela se encontram as marcas de um rico passado histórico e de um presente dinâmico.

Participar de uma assembleia mundial da Igreja Adventista é, realmente, uma experiência inesquecível. O fato de nos encontrarmos em meio a uma riquíssima diversidade de culturas, etnias e idiomas, contudo identificados pelas mesmas crenças, os mesmos ideais espirituais e missionários, a mesma bendita esperança de ver Jesus face a face, contribui para que logo nos sintamos uma família – a família de Deus. Agora, tendo a oportunidade de assistir a mais um evento dessa natureza, emergem as lembranças de 20 anos atrás.

Que lembranças guardo de Utrecht? De início, foi inevitável a associação daquele encontro do povo remanescente, durante dez dias, com outro que também aconteceu reunindo os primeiros cristãos, durante dez dias, muito tempo atrás em Jerusalém. Acaso, a unidade característica do primeiro encontro em Jerusalém seria a marca do encontro em Utrecht? O lema da assembleia – “Unidos em Cristo” – era convidativo a esse ideal. Conforme disse o Dr. Benjamin Reaves, então diretor do Colégio Oakwood, em sua mensagem devocional de abertura, o lema era “um insistente imperativo missionário para a igreja. Ele deve ser o sinal pelo qual o mundo possa nos distinguir. Através de nossa união, devemos atrair pessoas a Cristo. Não é suficiente a união teológica, doutrinária e de crenças. Importa que estejamos unidos no amor”.

A pauta das discussões continha temas controvertidos, mas foram debatidos no espírito do lema da assembleia. Senti que o Espírito Santo a tudo dirigia. Ideias eram às vezes apresentadas com muita ênfase, defendidas com ampla liberdade para expressão, mas tudo sob uma atmosfera de respeito cristão. Havia a clara determinação de todos no sentido de que a igreja não fosse desviada de sua rota missionária. Vinte anos mais perto da vinda de Jesus Cristo, não podemos esperar nem desejar menos do que isso.

Ainda me lembro de Meropi Gijka, digno exemplo de fé mantida sob circunstâncias dificílimas. Ela foi alcançada na Albânia, onde floresceu o modelo comunista mais agressivo. Meropi se converteu no início dos anos 1940, graças ao trabalho do pastor Daniel Lewis, e viveu secretamente a fé durante 50 anos em que a religião organizada foi proibida naquele país. Descoberta em 1990 pelo pastor David Currie, entregou-lhe os dízimos guardados durante aquele tempo e, finalmente, pôde ser batizada. Aos 92 anos, ela estava em Utrecht numa cadeira de rodas.

Além de Meropi, estiveram na Holanda mais dois exemplos, entre outros, de que não há barreiras ideológicas nem geográficas para o evangelho de Cristo: Sovanna Puth, primeira adventista batizada no Camboja, depois de 30 anos, e Davaahuu Barbaatar, primeira adventista batizada na Mongólia.

Ouvi o voluntário Fitz Henry, ex-presidiário e, como ele mesmo se definia, “engenheiro profissional, mas pregador por vocação”. Havia levado ao batismo 15.100 pessoas em dez anos, realizando campanhas evangelísticas na América Central.

Testemunhei o vigoroso envolvimento missionário dos jovens, de todas as partes. Ações comunitárias, música, dramatizações e muito mais eram recursos utilizados já naquele tempo com objetivos evangelísticos. E com expressivos resultados.

Estou certo, porém, de que as conquistas relatadas em Utrecht foram nada mais que o prelúdio da grande sinfonia hoje apresentada. A igreja tem feito incomparavelmente mais. Porém, ainda estamos em um mundo cujas transformações acabam afetando a igreja. Por quanto tempo mais? De quantos “dez dias” necessitaremos para reviver a experiência daqueles primeiros “dez dias” do cenáculo em Jerusalém?

Zinaldo Santos é pastor, jornalista e editor da revista Ministério. Zinaldo está em San Antonio, Texas