Em busca de consenso

Os dilemas da igreja de hoje são menores do que os enfrentados pelos primeiros cristãos e adventistas

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Foto: Josef Kissinger

No próximo dia 11 de julho, os adventistas celebrarão o encerramento da sua 60ª assembleia mundial. No fim do evento, a igreja terá eleito seus líderes mundiais e as novas lideranças continentais. Provavelmente, também tenha um manual de igreja ligeiramente alterado e sua declaração de crenças modificada, a fim de definir precisamente pontos que podem abrigar posições antibíblicas, como o evolucionismo teísta e a união conjugal homoafetiva.

Porém, até lá, estará votada a questão mais controversa desse encontro: a liberdade/autonomia de cada sede continental da igreja (suas 13 Divisões) poder ordenar ou não mulheres ao ministério pastoral. Para muitos membros da igreja, decisões dessa magnitude poderão significar insegurança quanto aos rumos que a denominação toma, ainda mais se levado em conta a responsabilidade profética que a Igreja Adventista do Sétimo Dia tem para com o restante do mundo na iminência do retorno de Cristo.

No entanto, todas essas decisões, para nós tão cruciais, não passam de pequenos ajustes quando comparadas ao tamanho dos impasses pelos quais a igreja cristã e a adventista já passaram. No período de definição das crenças dos adventistas, por exemplo, ocorreram as “assembleias sabáticas”. Realizadas de 1847 a 1850, as reuniões atraíram estudiosos da Bíblia que tinham em comum apenas a expectativa do segundo advento e o sábado como dia de guarda, para definirem tudo o mais que não lhes era comum. Eventualmente, não havia mais que dois congressistas que compartilhavam o mesmo ponto de vista sobre determinada doutrina cristã. Porém, guiados pelo Espírito Santo, esses pioneiros formaram a base para uma igreja de coesão teológica inigualável entre outras denominações.

Matias, diáconos e circuncisão

É na Bíblia, especificamente no livro de Atos, que encontramos as maiores polêmicas que a igreja teve que resolver. Três delas se destacam: a eleição de um novo apóstolo para substituir o traidor e suicida Judas Iscariotes (At 1:15-26); o estabelecimento do grupo de sete (diáconos) para atender às necessidades das viúvas de fala grega (At 6:1-7); e a inclusão dos não judeus na igreja (At 15:1-35).

A eleição de Matias foi o primeiro impasse. O próprio Cristo havia pessoalmente escolhido os doze discípulos (Lc 6:12-16). Preencher a vaga de Judas era um ato que, de certo modo, trazia ao grupo uma responsabilidade que havia pertencido ao próprio Mestre. E talvez essa seja uma importante lição: eventualmente, a igreja deve se posicionar sobre assuntos em que, literalmente, precisa agir em lugar de Deus na Terra.

É obvio que não devemos alterar o que foi claramente revelado pelo Espírito Santo nas Escrituras. Afinal, Deus não muda seus princípios. Mas necessidades eventuais demandam decisões específicas. E a escolha do novo apóstolo foi um caso desses. O ponto é como os primeiros cristãos procederam: definiram biblicamente os motivos da decisão (veja a argumentação de Pedro em Atos 1:14-22) e oraram (At 1:24 e 25), permitindo a atuação de Deus por meio de sortes, recurso usado apenas essa vez no Novo Testamento.

Por sua vez, a eleição dos sete primeiros diáconos pode ser um exemplo de quando a igreja precisa decidir a respeito de uma necessidade não prevista anteriormente na Bíblia. Em Atos 6:1 a 7, diferentemente da eleição de Matias, não há uso de textos bíblicos para justificar a questão. O tópico parece ser de natureza mais prática do que teológica. No entanto, critérios bíblicos guiaram a decisão (At 6:3). E a igreja prosperou como resultado de uma deliberação acertada (At 6:7).

Por fim, a maior polêmica da fase primitiva da igreja foi a inclusão dos não judeus. A circuncisão tinha sido estabelecida por Deus como emblema de sua aliança com seu povo (Gn 17:9-14). Não se circuncidar indicava estar excluído da aliança com Deus. E, no pensamento de grande parte dos primeiros cristãos, predominantemente de origem judaica, fazer parte do concerto de Abraão por meio da circuncisão era requisito indispensável para a genuína conversão. Afinal, Deus mesmo havia feito essa exigência no Antigo Testamento. Portanto, a questão era complexa, porque tinha implicações teológicas, administrativas, evangelísticas e éticas. Um impasse insuperável na história cristã posterior.

No entanto, a assembleia ocorrida em Jerusalém encontrou justificação bíblica para a questão (At 15:15-21). A isso somou-se a observação de como Deus agia diante da situação (At 15:7-11). Afinal, os conversos incircuncisos demonstravam todos os sinais de regeneração e apresentavam evidências da atuação do Espírito Santo (At 10:47). O consenso foi bem diferente do que uma leitura superficial do Antigo Testamento sugeria. Por isso, a assembleia de Jerusalém publicou um documento dispensando os novos convertidos da prática da circuncisão (At 15:23-29).

Assim o Senhor tem atuado quando sua igreja está diante de impasses. Assim é dever de cada membro da igreja ao redor do mundo orar pelos 2.570 delegados que, durante dez dias, terão a responsabilidade de usar critérios bíblicos para tomar decisões importantes. Dobre seus joelhos em favor dessa assembleia! [Créditos da imagem: Josef Kissinger]

Fernando Dias é pastor e editor de livros didáticos na CPB


Para saber +

Bernhard Oestreich, “Unidade na diversidade”, Ministério, maio-junho de 2012, p. 14-16.