Equilíbrio diante da crise

Ellen White foi a voz da ponderação na assembleia de 1888, a mais polêmica da história da igreja

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91 delegados se reuniram para a 27ª Sessão da Associação Geral de 1888, em Minneapolis, Minnesota (EUA). Essa assembleia ficou conhecida por sua relação com a mensagem da justificação pela fé. Créditos da imagem: GC Archives

Os meses passam e a tensão se intensifica. Constantes mensagens são divulgadas pela igreja, reforçando a solenidade da assembleia que se aproxima. Proponentes do voto “sim” se esforçam para conquistar adeptos do voto “não”. Ameaças, disfarces, preocupação e ansiedade pesam no ar. Testemunhar uma assembleia mundial dos adventistas do sétimo dia é uma experiência emocionante e peculiar. Mas essa que se aproxima promete ser particularmente especial. Muitos tópicos serão discutidos e decididos, porém a atenção de todos está voltada para o assunto central. Qual seria esse? Como não saber? É praticamente a única coisa que se discute pelos corredores da igreja!

Talvez você tenha pensado que o contexto de polarização descrito acima se refira à assembleia de San Antonio e ao voto sobre a ordenação de mulheres ao ministério pastoral. Engano. Esse clima de rivalidade, infelizmente, teve lugar no coração dos delegados da reunião de 1888 em Mineápolis (Minnesota, EUA). Há 127 anos, a igreja estava se preparando para o que se tornaria a mais polêmica assembleia mundial da sua história.

No entanto, a assembleia deste ano no Texas também promete deixar sua marca. Alguns elementos unem os dois encontros: a tensão crescente diante da aproximação do evento; a natureza polêmica do debate central; a ameaça de mudança e seus efeitos posteriores; e as influências políticas e culturais no debate. Embora outros assuntos tenham sido tratados, a assembleia de 1888 ficou conhecida por sua relação com a mensagem da justificação pela fé. De igual forma, San Antonio pode entrar para os anais da história do adventismo como a reunião que dará um desfecho para o impasse sobre a ordenação feminina.

Contudo, um elemento-chave desequilibra essa comparação: a presença da mensageira do Senhor. Em 1888, Ellen White foi uma participante fundamental na assembleia. Com uma postura equilibrada, ela contribuiu para que ambos os lados do debate pudessem apresentar suas ideias. Sua preocupação era a de que a igreja mantivesse a unidade diante do público, enquanto o assunto era discutido internamente. Embora tenha sido pressionada a manifestar uma posição oficial sobre o assunto, e assim finalizar a discussão, Ellen White se absteve de tal postura. “O que desejamos”, clamava ela, “é evidência bíblica para cada passo que tomamos” (Carta 13, 1887).

Havia se tornado claro para a pioneira que a crise de 1888 tinha que ver com o coração da mensagem adventista e como resolver impasses teológicos. Em busca de uma solução, a liderança da Associação Geral tinha procurado resolver a questão ouvindo a opinião de especialistas, de líderes em posição de autoridade, e recorrendo à tradição adventista. Porém, era fundamental que o assunto fosse resolvido a partir de respostas bíblicas para cada ponto.

Nem todas as sugestões de Ellen White foram acatadas, sendo que ela foi muitas vezes desprezada e ridicularizada. Ali, ela testemunhou “o mais difícil e incompreensível cabo de guerra que já ocorreu entre nosso povo” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 178). Mas pelo fato de ter encontrado na Bíblia o respaldo, com algumas ressalvas, para o ponto de vista defendido por E. G. Waggoner e A. T. Jones, ela os apoiou e encorajou a continuar pregando. Durante a década que se seguiu, Ellen White mesmo realizou encontros de reavivamento por todo o país, buscando unificar a igreja em torno da doutrina da justificação pela fé.

Mineápolis, infelizmente, ficou conhecida pelo ambiente de crítica e legalismo. Ellen White afirmou que o espírito predominante durante as reuniões “não era o espírito de Jesus” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 175). No entanto, nem tudo estava perdido. A partir de Mineápolis, o centro teológico da denominação começou a mudar: da proclamação com base na perpetuidade da lei de Deus para a mensagem centralizada na pessoa e no ministério de Cristo. Consequentemente, o enfoque missionário deixou de ser naqueles que não guardavam a lei, para enfatizar aqueles que não haviam aceitado Jesus como Senhor e Salvador.

De Mineápolis, muitos saíram com a mensagem da justificação pela fé no coração e com uma nova motivação para testemunhar. É por isso que alguns especialistas enxergam nessa reunião uma mola propulsora para as missões nos países não cristãos, uma mudança na visão missiológica do movimento. Embora a assembleia de Mineápolis tenha sido a reunião mais polêmica do adventismo, ela também representa bênção para a denominação. Os erros e acertos dessa assembleia devem nos servir de lição para o futuro.

A exemplo de 1888, muitos temem pelos resultados da assembleia de San Antonio, o que é justificável. Porém, a pergunta é: por que o temor? Por apego à tradição? Por não saber se a mudança é motivada pelas intenções certas? Por receio das implicações? Precisamos nos certificar de que estamos seguindo os princípios e o exemplo deixado pela mensageira do Senhor: dialogar movidos pelo espírito de Cristo e decidir com base nas Escrituras. Se assim for, temos mais chance de estar no caminho certo.

Glauber Araújo é pastor, mestre em Ciências da Religião e editor de livros na CPB


Para saber +

Denis Fortin e Jerry Moon, The Ellen G. White Encyclopedia (Review & Herald, 2013).

George R. Knight, A Mensagem de 1888 (CPB, 2003).

Berndt D. Wolter, “Missão e crescimento: desafios ao movimento adventista”, Parousia, 1º e 2º semestre de 2009.


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