Mudando a história, um coração de cada vez

Relatório apresentado por Barry Oliver, então presidente da Divisão do Sul do Pacífico, no dia 8, chamou a atenção para o começo difícil da igreja na região e a fidelidade em meio à guerra

A Divisão do Sul do Pacífico, além de ser a maior em território da Igreja Adventista, é também a mais diversa. Crédito: SPD

A Divisão do Sul do Pacífico, além de ser a maior em território da Igreja Adventista, é também a mais diversa. Crédito: SPD

Pense em um globo. Divida, em sua mente, sua circunferência em terços.

Imagine então uma Divisão tão imensa que se estende por um terço da circunferência desse globo. Essa é a Divisão do Sul do Pacífico. Ela abrange quase 13 mil quilômetros, desde as ilhas Cocos, no oeste, até a ilha Pitcairn, no leste, e da Antártida, ao sul, até a linha do Equador, ao norte.

A Divisão do Sul do Pacífico, além de ser a maior da Igreja Adventista em território, é também a mais diversa. Somente na Papua Nova Guiné são faladas cerca de 850 línguas. A Divisão engloba de metrópoles modernas até algumas das localidades mais isoladas da Terra. Inclui a cidade mais meridional da Terra, onde sopram os ventos gelados da Antártida, até atóis tropicais paradisíacos.

A Divisão conta com países de populações com maioria polinésia, melanésia, micronésia e branca. Há grandes comunidades indianas, chinesas, árabes, sudanesas e chilenas, entre outras, dentro de suas fronteiras. Como então os adventistas alcançam território tão imenso, com população tão diversa? Lembrando que não temos nada a temer quando nos recordamos de como Deus conduziu a história adventista.

Avondale College continua a obter reconhecimento. Crédito: SPD

Avondale College continua a obter reconhecimento. Crédito: SPD

Começo difícil

Foi em 1908 que os três primeiros missionários adventistas do sétimo dia, Septimus e Edith Carr e Peni Tavodi, chegaram a Port Moresby, capital do que hoje se conhece como Papua Nova Guiné. O governador havia dividido a região em volta de Port Moresby entre várias denominações cristãs. Os adventistas foram recebidos com frieza pelos outros missionários quando chegaram. Mas isso não os deteve. Partiram de Port Moresby para uma região remota nas montanhas a fim de começar sua missão em meio ao povo koiari.

Desde o início, não deu muito certo. O explorador pioneiro Alexander Morton destacou que os koiaris eram um povo particularmente combativo. Sem dúvida, não tinham o menor interesse no evangelho. Os adventistas construíram uma estação missionária e trabalharam na remota Bisiatabu por um ano inteiro sem que ninguém fosse batizado. O ano seguinte também terminou sem batismos. O mesmo padrão se repetiu ao longo dos três anos seguintes. Por fim, no sexto ano, um adolescente foi batizado. Pouco depois, o pai do rapaz o afastou da missão adventista e isso pôs fim a sua ligação com a igreja.

Caso tudo isso já não fosse desanimador o bastante, Peni Tavodi, que havia então se casado com Aliti, foi picado por uma cobra venenosa em 1918. Ele morreu, mas não sem antes fazer um apelo emocionante para que os jovens da missão entregassem a vida a Jesus.

Imagine a situação depois que Peni morreu: dez anos de labores extenuantes e tudo que tinham para mostrar era um adolescente que havia abandonado a fé, um missionário morto, sua viúva e seus filhos órfãos. Você acordaria no dia seguinte e continuaria a pregar o evangelho?

Foi somente em 1920, doze anos depois da chegada dos primeiros missionários adventistas e dois anos após a morte de Peni Tavodi, que um moço chamado Baigani aceitou o evangelho. Dessa vez, porém, as coisas foram diferentes. Baigani serviu a Jesus por muitos anos e exerceu profunda influência.

Mais missionários chegaram. Em 1924, o pastor William Lock batizou 11 jovens em Bisiatabu. Na metade da década de 1930, os missionários adventistas se encontravam espalhados por muitas novas áreas do país. A família Lock se mudou para perto de uma trilha íngreme conhecida como Kokoda Track, na zona rural da vila de Efogi. Ali fundaram uma escola missionária e uma clínica. Por toda a Kokoda Track, a mensagem adventista foi pregada.

Testemunho em meio à guerra

Na época, porém, ninguém sabia que, dentro de poucos anos, a Kokoda Track deixaria de ser uma trilha obscura em uma parte esquecida do mundo para se tornar o ponto central de um dos maiores dramas da história da humanidade: a batalha entre as forças imperiais japonesas e os australianos, neozelandeses e seus aliados.

Ao contrário da maioria dos conflitos, o símbolo duradouro da campanha de Kokoda não foi um guerreiro, um general ou uma arma. Em vez disso, foram os papuásios que demonstraram extraordinária bondade e altruísmo ao ajudar os soldados feridos a permanecer em segurança. Os australianos ficaram tão impressionados com os papuásios que passaram a chamá-los de “anjos Kokoda”.

Bert Buros, engenheiro de combate australiano, retratou em um poema a admiração e o agradecimento que os soldados australianos nutriam por aqueles que ajudavam os feridos: “Muitos moços verão a mãe, e maridos encontrarão a esposa querida, só porque os [anjos Kokoda] os carregaram para lhes salvar a vida”.

Um soldado australiano se exprimiu da seguinte forma: “Acredite, quando esta guerra terminar e a história for escrita, há um capítulo que deve receber grande parcela de louvor. São os [papuásios]… Eles às vezes chegavam com os ombros ensanguentados, deitavam os feridos com cuidado, se chacoalhavam, sorriam e lá iam de novo fazer outra viagem”.

Ao falar no quinquagésimo aniversário da campanha de Kokoda, em 1992, o primeiro-ministro australiano P. J. Keating disse: “Acima de tudo, devemos honrar e expressar profunda admiração pelos carregadores papuásios cujo apoio inabalável foi crucial para a vitória definitiva”.

Nos últimos anos, pesquisadores têm tentado desmitificar os papuásios que salvaram soldados australianos e neozelandeses feridos. Afirmam que muitos eram forçados a trabalhar pelos militares da Austrália. Embora essa informação proporcione intriga e contexto à história, não consegue explicar por que pessoas tão maltratadas retribuíam com tamanha bondade. Afinal, os primeiros relatos do povo falam de uma cultura combativa, sedenta por sangue. O que havia mudado?

Para isso, é preciso voltar a 1908. Aqueles 12 longos anos lutando para conseguir uma única pessoa que aceitasse o evangelho deram fruto na campanha de Kokoda. “Na época da deflagração da Segunda Guerra Mundial, todas as vilas da Kokoda Trail haviam sentido algum grau de influência da missão adventista, com membros batizados em quase todas elas”, escreveu Alan Smith no periódico Adventist Record, em 9 de setembro de 1995: “Os koiaris haviam se transformado tanto que, quando os japoneses entraram em sua região a fim de avançar até Port Moresby, eles decidiram permanecer leais a seus amigos missionários.”

A Universidade Adventista do Pacífico está entre as mais seletivas do mundo. Crédito: SPD

A Universidade Adventista do Pacífico está entre as mais seletivas do mundo. Crédito: SPD

Steven Barna, pastor adventista nas vilas da Kokoda Track, cujo avô foi um “anjo Kokoda”, confirma que a bondade estava ligada ao cristianismo. “Era o amor que movia o coração das pessoas a ajudar”, ele conta. E as testemunhas oculares confirmam isso. O pastor Lock, no livro Locks that Open Doors [Cadeados que Abrem Portas] conta que recebeu uma carta de agradecimento do tenente R. I. McIlray, que declarou: “Escrevo esta carta para lhe contar do grande trabalho feito pelos [papuásios] de sua missão… A boa obra do seu povo, mediante seu exemplo e seus ensinos, parece ter alcançado um ponto no qual podem nos ensinar algo sobre os ideais cristãos”.

Um relato ainda mais extraordinário foi feito pelo comandante australiano Robin Sydnei McKary, que disse, em entrevista a Daniel Connell: “Houve [papuásios] leais e desleais… Sem querer ser sectário de modo nenhum, descobrimos que os adventistas do sétimo dia foram os mais notáveis em lealdade. Não conheço nenhum adepto do adventismo do sétimo dia que tenha sido desleal. Não sei por que, mas era assim que funcionava… As outras religiões podiam ser de uma maneira ou de outra, mas, por algum motivo, os adventistas do sétimo dia eram especialmente leais e […] bem, eles eram sempre mais limpos, ensinavam-lhes limpeza, respeito, lealdade e alegria. E, você sabe, não tenho a menor simpatia pelos adventistas do sétimo dia […] [mas] se fosse preciso confiar em um [papuásio] sem conhecê-lo, ou sem conhecer as circunstâncias, o fato de ser adventista do sétimo dia já ajudava”. No período da mais forte prova, a mudança que o evangelho opera na vida das pessoas transpareceu.

Hoje, cerca de 10% dos papuásios se identificaram como adventistas do sétimo dia no censo nacional. Isso significa 500 mil pessoas a mais afirmando ser adventistas do que o número registro no rol de membros. Talvez esse fato esteja ligado à influência tremenda que a Igreja Adventista do Sétimo Dia exerce sobre o país na atualidade. Os adventistas ocupam muitos altos cargos governamentais. Mais de 50% dos estudantes de Medicina no país são adventistas. A Igreja Adventista administra uma respeitada rede de educação e saúde em todo o país. A Universidade Adventista do Pacífico está entre as mais seletivas do mundo. E Papua Nova Guiné é apenas uma parte da Divisão do Sul do Pacífico, onde o evangelho continua a mudar a história, um coração de cada vez.

Influência e fidelidade

De acordo com estatísticas de censos nacionais, a Igreja Adventista do Sétimo Dia é a igreja multiétnica que cresce com maior rapidez tanto na Nova Zelândia, quanto na Austrália. Nesses dois países, os adventistas operam empresas de bem-estar e saúde de ponta, que organizam a maior série de triatlos infantis do mundo e produzem os mais confiáveis produtos alimentícios de desjejum.

O Avondale College também continua a obter reconhecimento. Duas escolas adventistas de ensino superior superaram 7.600 concorrentes e fazem parte das cem escolas com o melhor ensino da Austrália. O Hospital Adventista de Sydney é o maior hospital particular da Austrália. E os meios de comunicação adventistas são reconhecidos como de primeira linha nessa área na região.

Na parte transpacífica, iniciativas de missão urbana resultaram em um crescimento excepcional. Em 2014, os batismos em Vanuatu aumentaram em mais de 550% e, nas Ilhas Salomão, em mais de 250%. Os batismos em Samoa cresceram 400% em 2013.

Esse crescimento é real? Jesus disse que, onde está nosso dinheiro, ali está nosso coração. Então analisemos os dólares e centavos. Ao longo dos últimos cinco anos, os dízimos na Divisão cresceram 24%, mais do que o dobro do aumento do custo de vida em quatro dos cinco anos. Hoje a Divisão dá a maior porcentagem mundial de ofertas missionárias em relação aos dízimos. A Austrália, com sua população reduzida, devolve hoje o quarto maior dízimo do mundo. Os australianos contam com uma média de quase 50% a mais de dízimo por membro do que os norte-americanos.

Tudo são boas notícias? Não. A Igreja Adventista no Sul do Pacífico necessita desesperadamente do Espírito Santo. Nossa única esperança é Jesus. O mesmo Jesus que saiu com aqueles primeiros missionários de Port Moresby e trilhou a Kokoda Track. O mesmo Jesus que habitava no coração dos koiaris enquanto carregavam homens feridos para um local seguro. Esse mesmo Jesus continua a mudar a história em todo o Sul do Pacífico, um coração de cada vez. [Fonte: Adventist ReviewTradução: Cecília Eller Nascimento]