Na contramão do mundo

À semelhança do passado, a igreja enfrenta pressões culturais em sua trajetória

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Em sua oração pelos discípulos, Cristo pediu ao Pai: “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal” (Jo 17:15). Dois aspectos são importantes nessas palavras. O primeiro é que a igreja está no mundo. Ela está inserida em um contexto social e político. O segundo aspecto é que Cristo suplicou para que ela não se contaminasse com o mal que assola o mundo do qual ela faz parte. Como conciliar então essa tensão entre estar e não pertencer? Cristo nos orientou a ser sal e luz (Mt 5:13-16), ou seja, metáforas que apontam para a necessidade de estar misturado com o objetivo de influenciar para a transformação.

Uma das características de nossa sociedade pós-moderna é o questionamento de valores. Especialmente aqueles de natureza ética e espiritual. Em nome de uma “mentalidade aberta” e cultura avançada, e como uma espécie de repúdio ao tradicionalismo ou conservadorismo, a validade e a relevância desses valores têm sido desafiadas. Siegfried Júlio Schwantes escreveu: “Moralmente falando, nossa época presencia uma ruptura em larga escala com as normas do passado. A moral tradicional, herdada de um passado cristão, está sendo gradualmente carcomida pela incredulidade que se generaliza” (O Despontar de Uma Nova Era, p. 201).

O casamento, por exemplo, quanto à sua razão de ser e permanência, tem sido questionado nos dias atuais. E não somente a instituição em si parece ser colocada em xeque, mas a própria definição de quem são os cônjuges. O artigo 1.723 do Código Civil dispõe que: “É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família”.

Entretanto, segundo a advogada Raquel Santos, especialista em Direito Público, ao comentar a decisão do STF, “retirando-se as expressões ‘homem’ e ‘mulher’ do dispositivo, o instituto da união estável passa a ser aplicado à união homoafetiva com todas as suas disposições, ou seja, sem restrições, inclusive com a possibilidade de sua conversão em casamento, estando os demais órgãos do Poder Judiciário vinculados a essa decisão. Nesse contexto, as expressões “homem” e “mulher” são tidas como discriminatórias. Isso possibilitou sua aplicação ao instituto da união homoafetiva.”

Esse é mais um desafio com o qual a igreja se depara. Amplamente defendida, inclusive em caráter legislativo em alguns países, a união homoafetiva, no âmbito civil e religioso, tem sido a bandeira de movimentos sociais e de alguns segmentos mais progressistas das igrejas. Isso tem pressionado as instituições, a aderir a esse tipo de união, alegando que estamos vivendo em tempos avançados e que precisamos fazer jus a eles.

O matrimônio e a família são uma das doutrinas bíblicas fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Como denominação, cremos no casamento conforme orienta a Bíblia: essa instituição foi estabelecida no Éden e sancionada por Jesus como uma união permanente entre um homem e uma mulher (Gn 2:21-24; Mc 10:2-12). “A partir da diversidade entre macho e fêmea, Deus trouxe ordem, unidade. Na primeira sexta-feira, ele celebrou o primeiro casamento, unindo as duas criaturas, condensação de Sua imagem, em uma só. O matrimônio se tornou o alicerce da família, o fundamento da própria sociedade, desde o início” (Nisto Cremos, p. 388).

Russel Champlin, erudito do Novo Testamento, afirmou: “O primeiro par não se constituía simplesmente de um homem e de uma mulher, mas de macho e fêmea, sendo, assim, os representantes do princípio da união entre o homem e a mulher, princípio esse que requer uma união permanente, porque esse foi o propósito original da criação dos seres humanos” (O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, v. 1, p. 479).

Nessa assembleia mundial da igreja, no Texas, os delegados estão analisando temas que envolvem aspectos teológicos e sociais. O assunto do casamento também é objeto de estudo. Evidentemente que, o propósito da igreja, com esse debate, não será rever sua posição sobre o matrimônio, mas legitimar com mais clareza editorial a natureza permanente, monogâmica e heterossexual do casamento (Mt 19:3-6).

Nerivan Silva é pastor, mestre em Teologia e editor da revista Ancião na CPB